quarta-feira, outubro 04, 2006

VIAGEM DE CHEIROS


O dia amanheceu entre o cinzento e o rosado, a noite foi de chuva forte e o ar, ainda escuro, tinha um cheiro a lavado que dava gosto inspirar profundamente. Saí bastante cedo de casa, por ter um compromisso em Lisboa, pelas 8h e pouco e a viagem de transportes publico sempre demora algum tempo. Convém aqui explicar que levar carro para Lisboa, só mesmo em ultimo caso, sou apologista dos transportes, e se for o comboio então melhor ainda.
A manhã estava fresca mas tão pura, tão “desencardida” que retardei o passo para melhor saborear o prazer do olfacto que a primeira brisa me despertou. Cheirava a terra molhada, e a húmus, aquele cheiro tão característico, para quem conhece, do solo pronto a dar os primeiros cogumelos. Um leve odor a pinheiro e a eucalipto davam-se as mãos e o adocicado perfume das madressilvas misturava-se com as roseiras que tardiamente ainda abrem os seus botões. Ao passar por uma corda de roupa acabada de estender chegou ao meu nariz o cheirinho da minha infância das roupas molhadas e lavadas com sabão, e em mim ficaram a ecoar as memórias de menina e dos estendais de minha casa, onde, para desespero da avó, eu me embrulhava nas peças estendidas acabando por suja-las ou deixa-las encardidas.
Continuei o meu caminho para a estação da CP, e novos perfumes me espicaçaram o olfacto, identifiquei a grande magnólia que ainda abre alguns dos seus enormes botões deixando o doce aroma tão próprio desta flor, e o das folhas caídas e amarelecidas, molhadas e sujas de terra, o cheiro do musgo nas paredes velhas com tantas histórias para contar, onde não resisto a passar a mão ao de leve, e sentir a humidade verde que dele se desprende; Lembrei-me do Natal, que já não tarda, e de como forrava o tampo da grande mesa de mogno com musgo e me entretinha a colocar as figuras fazendo-as seguir um imaginário caminho de Belém…Era tão pequena então!
De repente quase sem dar muito por isso, encontrei-me na estação, e os odores mudaram, tornaram-se mais “urbanos”, mais intensos e também menos agradáveis diga-se, o cheiro do comboio acabado de entrar na estação e ainda quente, o ferodo do sistema de travagem, o da lixívia que alguém passava na calçada à entrada do café e claro, lá me arrancou um espirro de alergia. Entrei no comboio e sentei-me mas o meu nariz parecia bem desperto esta manhã, e o lugar que escolhi perto de uma janela, tinha um cheiro horrível a comida estragada, mudei rapidamente e o cheiro abrandou, na estação seguinte começou o verdadeiro festival de perfumes!
Ao meu lado sentou-se primeiro uma senhora com um intenso perfume daqueles que nos fazem dores de cabeça e também de algibeira, muito bem arranjada e senhora de si, saiu três estações adiante para dar lugar a um jovem de after shave fresco e verde de phones nos ouvidos e alheado do mundo. Neste meio termo sucediam-se em catadupa os odores, o suor que não se explica, as roupas usadas e não lavadas que me abstenho de comentar, os perfumes caros, mas nem sempre agradáveis, as águas de colónia juvenis ou mais pesadas, o delicioso perfume dos bebés que seria uma bênção podermos manter ad eternum, e o, perdoem-me, odioso cheiro de tabaco retardado que se desprende de tantos cabelos e bocas, essas que foram feitas para beijar e serem beijadas.
Num caleidoscópio imenso de aromas decorreu a viagem e mal dei pelas estações que se sucediam ao ritmo normalmente lento e algo enfadonho para quem as conhece de trás para a frente, guardado na mala ficou o livro que nem teve direito a ver a luz do dia, já que espicaçado que foi o nariz, dei primazia a este orgãozinho apurado, deliciando-me com a nova experiência de uma simples e corriqueira viagem de comboio.
É bem verdade que há sempre um mundo novo e desconhecido que nos aguarda

4 comentários:

Anónimo disse...

Um texto muito bonito e muito bem escrito. Fizeste-me recuar no tempo e recordar as minhas viagens de comboio que durante anos fiz diáriamente, a partir dos 11 anos.
A monotonia dessas viagens pode perfeitamente ser quebrada se estivermos atentos ao que nos rodeia. Se soubermos obeservar com atenção essas viagens podem ser divertidas e interessantes e podem dar o rigem a textos excelentes como este. Obrigado também pela espectacular "paleta" de cheiros e de cores que nos descreveste. Um beijinho

igara disse...

Luar...foi muito bom vir ler-te hoje! Adorei os teus odores e a mistura de sentires, e o retorno à infância. Por vezes há dias assim. Dias em que nos apetece apenas ficar dispertos, e onde os sentidos, tomam toda a prioridade na forma como olhamos o nosso Mundo. Hoje, com tempo...tinha que te vir ler, porque a tua escrita, me apraz muito!
Beijos mansinhos, e abracinhos apertadinhos! :)

Anónimo disse...

Vim desejar-te um bom dia, e uma boa semana. Um beijinho

Ana Luar disse...

Linda esta tua forma de tornar uma viagem chata em algo apetecivel... concoro que se olharmos atentamente para tuo o que nos rodeia tiraremos muito mais proveito de certas viagens que se fazem... e eu sou mais aepta do carro... massssss sempre atenta ao que me rodeia.... sou muito curiosa.

beijos doces meu luarzito perdido.

APENAS UM DIA....

Melodia que passa, como chuva singela de verão, refrescando o peso do calor da desilusão. Acordes que volitam como andorinha...