domingo, outubro 29, 2006

ATÉ AO INFINITO...




Por uma gota e orvalho suspensa na teia
que a aranha diligente teceu,
por uma lágrima fugidia que patenteia
uma dor que a vida concedeu.
Por uma mão aberta em ansiosa espera
de uma outra que nela se recolha,
por um olhar meigo que desespera
de encontrar quem o acolha.
Por uma vida que aos outros se entregou,
pelos lábios que jamais voltarão a beijar,
por todas as horas que a tua vida doou,
por todas as palavras que ficaram por recitar....
Até ao infinito!

sábado, outubro 28, 2006

ECOS DO PASSADO


Hoje revi um amigo de longa data. Há anos que não nos viamos e ambos olhamos com curiosidade o passar do tempo nos rostos um do outro;
Os cabelos onde a "prata" já deixa marcas, as rugas que vão pintando os contornos das faces outrora lisas, frescas e jovens, os óculos encarrapitados no nariz para ler as malfadas letrinhas miudas que sempre se lembram de colocar em tudo o que temos que ler. Bem, isto para não falar nas encantadoras pregas ao redor da cintura e que se tentam disfarçar das mais variadas maneiras e...Sem resultados significativos claro!
Mas dizia eu, revi um amigo, alguém que marcou a minha vida e deixou um rasto indelével; Foi meu colega de liceu e como tantos (já naquela altura havia muitas situações encobertas) entrou pelo mundo da droga, era um aluno brilhante, raro era não arrancar ás garras dos professores mais "forretas" uns 18 ou 19, merecidamente conseguidos. acho que em linguagem moderna se diz que «era um cromo», no meu tempo cromos coleccionavam-se e havia alguns lindos, mas está bem, eu já estou um bocadinho "cota", isto pega-se!!! Mas voltando ao Francisco, fazia parte do nosso grupo de estudo, era calado, introvertido, mas amigo de ajudar e, de todos nós, talvez fosse o que mais se sabia dar aos outros, era alto e esguio com uns olhos de veludo quase negros. Um dia chegou a uma aula de Português a cambalear e eram apenas 8.30h da manhã, olhos injectados de sangue, cabelo em desalinho, roupa as três pancadas, nada do Xico que conheciamos. Pediu licença e entrou aos tropeções, foi sentar-se ao meu lado como de costume. Fiquei a olhar para ele com cara de parva, porque aquilo não fazia sentido, quem era aquele perssonagem que estava ali de sorriso alvar nos lábios, num mundo extra, fora de toda a realidade, sem se aperceber de uma turma inteira (incluindo a professora) que o mirava incredula? Já não me lembro de como decorreu o resto da aula, mas lembro-me do episódio que se seguiu.
Saimos da aula e logo rodeamos o Xico que não dizia coisa com coisa, tentamos saber o que se tinha passado mas sem resultado. De repente sem que ninguém se apercebesse ele dá um passo em frente em direcção a mim de mãos abertas e prende-me pelo pescoço. Aqueles olhos normalmente doces, macios que pareciam sempre humidos e meigos eram agora dois lagos de sangue, vitreos sem vida ou expressão, prendi-lhe as mãos com força e num sussurro apenas lhe disse; "Xico! Nâo." Desfaleceu-me nos braços e foi levado para o hospital quase em coma.
Quando nos foi permitido fomos vê-lo, ainda internado, e deparei-me com um farrapo de 16 anos numa cama onde quase nem volume fazia, a mãe, impotente, a seu lado pegava-lhe na mão ossuda e esqualida e derramava sobre ela catadupas de lágrimas que nenhumde nós conseguia conter ou acalmar. Um dia em que fui sozinha ouvi um apelo da boca dele corrobrado pela mãe que jamais esqueci em todos estes anos; "Mami- era assim que me tratava sempre, ajuda-me a viver, não te afastes e dá-me a mão."
Durante 5 longos anos lutamos os três com tudo o que tinhamos e não tinhamos, ele a mãe e eu. Depois a vida acabou por nos separar ele continuou a singrar aos poucos, caindo umas vezes outras aguentado bem sem tombar, eu mudei de residencia e se bem que tivesse mantido o contacto a vida sempre acaba por nos impor o seu ritmo e distancias. Há um mês recebi uma chamada e uma voz que já mal me recordava disse um, Olá Mami! Que me pareceu vir de outro planeta...
Hoje estivemos juntos, e adorei rever o nosso Xico. A vida deixou marcas feias, tanto fisicas como psiquicas, os olhos hoje são um mundo perdido sem brilho, as mãos tremem, e a pele esmaecida mostra um envelhecimento precoce, mas a voz, aquela voz de tons quentes e graves, aquele timbre de doação e humildade estão lá. Casou, nunca mais tocou em drogas, conseguiu arranjar e manter o seu emprego, acabou por se formar e hoje, à sua eterna e introvertida maneira é feliz. Veio, delicadamente, trazer-me uma rosa rubra, a que me tinha prometido entregar no dia em que tivesse atingido a meta que ambos tinhamos imposto - Curar-se e ser feliz.
A ti meu querido e doce AMIGO, OBRIGADA pela lição de vida que me deste e pelo cumprimento da nossa promessa. Ter-te como amigo e "mano" é unico, como sempre foi. Que Deus te guie sempre.

sábado, outubro 21, 2006

UTOPIA


Acreditei numa utopia,
vivi por ela, por ela lutei!
E como todas, ela não merecia
a minha luta, tudo o que dei.
Vivo apenas tentando viver,
sem nada mais em que acreditar,
deixo-me conduzir sem me debater
como cordeiro pronto a matar.
Acreditei num sonho novo,
em que poderia voltar a “ser”,
que seria gente, amada e, sem estorvo,
teria direito a não mais sofrer.
Mas o meu sonho utópico e belo
nada mais foi que pura ilusão,
apenas um lindo fantasioso castelo,
feito de desejos e desilusão.

quarta-feira, outubro 04, 2006

VIAGEM DE CHEIROS


O dia amanheceu entre o cinzento e o rosado, a noite foi de chuva forte e o ar, ainda escuro, tinha um cheiro a lavado que dava gosto inspirar profundamente. Saí bastante cedo de casa, por ter um compromisso em Lisboa, pelas 8h e pouco e a viagem de transportes publico sempre demora algum tempo. Convém aqui explicar que levar carro para Lisboa, só mesmo em ultimo caso, sou apologista dos transportes, e se for o comboio então melhor ainda.
A manhã estava fresca mas tão pura, tão “desencardida” que retardei o passo para melhor saborear o prazer do olfacto que a primeira brisa me despertou. Cheirava a terra molhada, e a húmus, aquele cheiro tão característico, para quem conhece, do solo pronto a dar os primeiros cogumelos. Um leve odor a pinheiro e a eucalipto davam-se as mãos e o adocicado perfume das madressilvas misturava-se com as roseiras que tardiamente ainda abrem os seus botões. Ao passar por uma corda de roupa acabada de estender chegou ao meu nariz o cheirinho da minha infância das roupas molhadas e lavadas com sabão, e em mim ficaram a ecoar as memórias de menina e dos estendais de minha casa, onde, para desespero da avó, eu me embrulhava nas peças estendidas acabando por suja-las ou deixa-las encardidas.
Continuei o meu caminho para a estação da CP, e novos perfumes me espicaçaram o olfacto, identifiquei a grande magnólia que ainda abre alguns dos seus enormes botões deixando o doce aroma tão próprio desta flor, e o das folhas caídas e amarelecidas, molhadas e sujas de terra, o cheiro do musgo nas paredes velhas com tantas histórias para contar, onde não resisto a passar a mão ao de leve, e sentir a humidade verde que dele se desprende; Lembrei-me do Natal, que já não tarda, e de como forrava o tampo da grande mesa de mogno com musgo e me entretinha a colocar as figuras fazendo-as seguir um imaginário caminho de Belém…Era tão pequena então!
De repente quase sem dar muito por isso, encontrei-me na estação, e os odores mudaram, tornaram-se mais “urbanos”, mais intensos e também menos agradáveis diga-se, o cheiro do comboio acabado de entrar na estação e ainda quente, o ferodo do sistema de travagem, o da lixívia que alguém passava na calçada à entrada do café e claro, lá me arrancou um espirro de alergia. Entrei no comboio e sentei-me mas o meu nariz parecia bem desperto esta manhã, e o lugar que escolhi perto de uma janela, tinha um cheiro horrível a comida estragada, mudei rapidamente e o cheiro abrandou, na estação seguinte começou o verdadeiro festival de perfumes!
Ao meu lado sentou-se primeiro uma senhora com um intenso perfume daqueles que nos fazem dores de cabeça e também de algibeira, muito bem arranjada e senhora de si, saiu três estações adiante para dar lugar a um jovem de after shave fresco e verde de phones nos ouvidos e alheado do mundo. Neste meio termo sucediam-se em catadupa os odores, o suor que não se explica, as roupas usadas e não lavadas que me abstenho de comentar, os perfumes caros, mas nem sempre agradáveis, as águas de colónia juvenis ou mais pesadas, o delicioso perfume dos bebés que seria uma bênção podermos manter ad eternum, e o, perdoem-me, odioso cheiro de tabaco retardado que se desprende de tantos cabelos e bocas, essas que foram feitas para beijar e serem beijadas.
Num caleidoscópio imenso de aromas decorreu a viagem e mal dei pelas estações que se sucediam ao ritmo normalmente lento e algo enfadonho para quem as conhece de trás para a frente, guardado na mala ficou o livro que nem teve direito a ver a luz do dia, já que espicaçado que foi o nariz, dei primazia a este orgãozinho apurado, deliciando-me com a nova experiência de uma simples e corriqueira viagem de comboio.
É bem verdade que há sempre um mundo novo e desconhecido que nos aguarda

segunda-feira, outubro 02, 2006

TARDE DE OUTONO










De novo a chuva se deixou simplesmente cair do céu.
Quem a lançou?
Teriam sido os olhos dos anjos que a derramaram sobre a terra?
Teria sido somente a nuvem prenhe de tristeza, que a lançou sobre o solo?
Teria sido o Outono na sua melancolia sonhadora e bela que a espalhou sobre o mundo?
De novo a chuva se abandonou sóbriamente sobre a terra.
Quem a lançou?
As mãos de Deus...O sonho do Homem....A tristeza dos corações....
Apenas um dia de chuva outonal enchendo o ar de poesia.

quinta-feira, setembro 28, 2006

CRISÁLIDA

As nuvens ameaçadoras, cinzentas e carregadas pairam no céu onde o sol já não brilha, o verão abandonou definitivamente estas paragens e a praia permanece deserta.
De pés nus e saia presa para não se molhar, imprime as pegadas na areia molhada, deixando que as ondas gélidas lhe beijem os pés de um branco nacarado. Os longos cabelos negros estão soltos ao vento como enfunada vela de veleiro destemido na tempestade, o rosto fino e de olhos profundos permanece sério e fechado, olhando bem no horizonte, onde o mar, de verde acinzentado vestido, se perde. As ondas de marés vivas correm velozes sobrepondo-se e contorcendo-se sem cessar assaltando a praia com fúria. O som alteroso do mar e o vento que se vem levantando não parecem perturbar esta figura que esbelta e esguia caminha aspirando profundamente o ar impregnado de maresia e iodo.


Um bando de gaivotas vem pousar na areia deixando as marcas finas das patas ao lado das pegadas certas da mulher. Tem a praia envolta no nevoeiro característico das tardes outonais e o espaço inteiro para si; Senhora, rainha e dona. Então o seu rosto perde o rito de dor, o olhar tem tonalidades de uma doçura infinita, abandona os sapatos e, abrindo os braços, enche os pulmões de ar deixando que o corpo aos pouco se vá soltando. Ao som de uma musica que só os seus ouvidos ouvem inicia uma dança em que põe toda a sua alma, todo o seu amor mudo que jamais dará, que jamais partilhará, o xaile que à pouco lhe envolvia os ombros arredondados é agora uma nuvem de cor nas suas mãos, habilmente o faz voltear e dançar em torno do seu corpo jovem e completamente entregue. As águas ora rugem ferozmente como que incentivando a dança louca e doce, expressiva e sentida, ora se adoçam aos requebros do corpo flexível que para elas dança, rodopia e contorce exprimindo toda a profundidade de uma alma acrisolada em si própria, tenebrosamente calada. As gaivotas agruparam-se e extasiaram-se com a figura grácil que quase esvoaça pela areia fria e húmida, os seus pés mal tocam o solo, a saia flutua ao redor do corpo que quase se tornou etéreo, rodopia na melodia da natureza que a envolve e penetra, que a assola e faz explodir em mil expressões.

Cai a noite, a maré está na vazante, e as sombras invadem rápidas o areal, o bando de aves, como que sentindo o gélido bafo da lua levantam voo e soltando os seus pios lamentosos sobre a cabeça que ainda volteia entregue e solta, afastam-se. De repente, como se algo dentro de si se tivesse partido, quebrado irremediavelmente cai desamparada sobre a areia. O rosto por terra, os braços pendentes como uma boneca sem corda, os cabelos em desalinho espalham-se em seu redor como tentáculos de um polvo pronto a devora-la. O corpo é agora um tronco sem vida, apenas os ombros acusam os soluços profundos que a sacodem, e é um rosto desvairado, marcado por uma tristeza imensa e uma dor sem limites que se eleva para o céu já de negro veludo vestido. Aqueles olhos marejados de lágrimas doridas estão sem cor, sem brilho sem vida. Acabara o seu momento de glória e evasão, agora era o regresso à vida de todos os dias, negra como o céu de trovoada. Recolhida de novo em si mesma apanhou os sapatos, envolveu-se no xaile quente e atirando um beijo ao mar, encaminhou-se para o carro.

quarta-feira, setembro 27, 2006

VESTIDO MAIS BELO


Duas formas de uma frase que ouvi.
Deram dois poemas, não sei de qual gosto mais, fica ao vosso critério




Vem amor,
no teu vestido mais belo!
Na tua pele branca e nua,
como um breve raio de lua.
Vem amor
no teu sorriso singelo,
no esplendor do corpo alvo
onde me perco e me salvo.
Vem amor,
no teu mais lindo vestido,
a tua pele por minhas mãos desnudada,
arrepiada, entregue e perfumada.
Vem amor,
no mais literal sentido
deitar-te na minha cama
e atear a nossa chama,
perder-te em mil carícias,
afundar-me nas delicias
do teu mais belo vestido.

SILÊNCIO ENSURDECEDOR

Por entre as palavras mordidas e os silêncios demorados, decorrem os dias. Escorrem as horas e passam os anos. Moldam-se a...