segunda-feira, novembro 27, 2006

NOITE DE VENTANIA


Bem do fundo da minha alma
eleva-se um grito,
como um guerreiro rito,
que se espraia na calma
desta noite de ventania.
Bem do fundo do meu ser
há um amor que floresce,
que se desdobra e cresce,
cria asas, eleva-se a amadurecer,
nesta noite de invernia.
Bem do fundo de mim,
eleva-se um grito de prazer,
fruto de tanto te querer,
que flui entre nós, assim,
nesta noite de calmaria
em que o amor renasceu.

domingo, novembro 26, 2006

ENCHENTES TRANSBORDANTES


O céu vestiu-se de cinza carregado,
lançou sobre os longos cabelos
uma mantilha de negro marchetado,
e do olhar cansado e já sem desvelos
grossas bátegas de cristalina chuva
soltam-se em catadupa.
O céu vestiu o seu negro vestido,
carregou o olhar, pintou-o de noite,
feita trovoada e dor. Soltou um bramido
de paixão e mágoa, sem ter quem o acoite.
E a terra tremeu, vergou-se e rompeu
do seu ventre fecundo um grito nasceu,
virado para o céu, suplicante e perdido.
"Céu de tormentas, céu de invernia,
não chores mais, não mais te lastimes
ouve antes esta minha sinfonia
de águas correntes de forças sublimes.
Acalma a tua furia, cala os meus rasgões,
compõe nova musica de paz e calmia.
Ah céu!!! Cala esta minha agonia!"

quinta-feira, novembro 16, 2006

ARCO IRIS


Vestindo-me de azul celeste,
esquecendo o cinzento dos dias ocos,
ultrapassando os vermelhos das iras surdas,
pisando os lilases das dores marcantes,
saltando sobre os castanhos dos vales dos medos.
Vestindo-me de azul celeste,
beijando os verdes das festas,
acarinhando os amarelos dos mimos,
prendendo os laranjas das ternuras,
abracando os negros das saudades.
Vestindo-me de azul celeste
apenas para viver este dia....

terça-feira, novembro 14, 2006

ABISMO


Já nem sequer se importava com as vergastadas dos troncos semi-despidos, que lhe fustigavam o corpo e o rosto á passagem, apenas queria acabar de vez com o tormento que a aprisionava havia tanto tempo. Fugir, fugir, desaparecer, não olhar para trás, e se possível; Esquecer!O vento frio da noite de Inverno arrepiava-lhe a pele cortada aqui e além pelos troncos contra os quais se lançava ás cegas, o bosque que tanto amava e que percorrera vezes sem conta com tanto prazer, era apenas um manto escuro e tenebroso que a envolvia nos seus braços gélidos, apertando, apertando, apertando, sem a deixar respirar livremente. Mas os seus passos em correria dirigiam-se para a orla onde fervilhava o caudal cantante do rio que, por essa altura, já ia bem cheio. A dor, a mágoa, a tristeza imensa inundavam-lhe a alma, embotavam-lhe os sentidos, travavam o raciocínio. Ela era apenas uma mulher sem rumo, sem esperança, perdida, à beira do abismo onde se iria lançar feliz por finalmente encontrar a paz que tanto buscava.Mais um golpe no rosto, sentiu o gosto do seu próprio sangue nos lábios, mas não abrandou a corrida, clareava um pouco o negrume das árvores, sinal que o rio estava perto. A sua libertação, o fim do seu suplício, e para essa ténue claridade encaminhou os passos…
Na curva do rio, onde uma gruta se abria, e as aguas raramente chegavam, uma pequena fogueira ardia, sobre as brasas uma grelha e um peixe que assava com a pele a chiar. Com todo o cuidado e atenção umas mãos masculinas iam virando a grelha para que não esturricasse o jantar, alheio ao drama que sobre a sua cabeça corria, trauteava baixinho uma melodia suave. Mas os seus sentidos, sem motivo aparente, deram-lhe um sinal de alerta, algo não estava bem, uma inquietação crescente começou a apoderar-se dele, algo inconsistente, vago, difuso e impreciso, mas que o deixavam cada vez mais ansioso e desperto, de sentidos aguçados e em guarda.A noite ia agreste e o vento tinha dobrado a intensidade, os sons da noite eram fortes e as copas das árvores agitavam-se em constante agonia. Os seus ouvidos, como homem habituado à vida ao ar livre, descortinavam e identificavam as mais pequenas variantes sonoras, e assim, apercebeu-se de um som rápido e desconcertado que ia crescendo, e sobre a sua cabeça se fazia sentir. Animal? Pessoa? Mas quem se afoitaria numa noite daquelas cá fora, e a correr de tal forma? Animal não lhe parecia muito, mas pelo sim pelo não, melhor era ter a carabina à mão…
E de repente à sua frente abriu-se a porta libertadora e sem pensar ou hesitar lança o corpo magro e ferido para o espaço aveludado do vazio lá em baixo um baque surdo fere os sentidos dele que se volta atónito para o rio, vendo ainda o corpo mole entrar de chapão nas águas geladas e rápidas. O seu instinto de sobrevivência lança-o à água, e com braçadas rápidas e vigorosas alcança o lugar onde o corpo se afundou. Mergulha uma e outra vez, lutando contra a corrente forte e o frio. Acaba por embater nela, cujo corpo vai à deriva, desmaiada, seguindo a carreira do rio. Enlaça-a e puxa-a para terra, extenuado e enregelado, tremendo dos pés à cabeça. Chegados à margem pega-lhe ao colo e leva-a para perto do lume, deitando-a sobre o seu saco cama, enquanto tira as roupas molhadas e as põe a secar perto das chamas.Quem é aquela mulher, de cabelos encharcados, rosto vincado pela amargura, olhos fechados e boca contrita? Que lhe aconteceu? Escorregou? Lançou-se? Quem é?Embrulha-se num cobertor e vai para perto dela sem saber muito bem como lidar com aquele corpo meio despido, com golpes profundos escorrendo sangue e ainda meio inanimado. Ela vai aumentar-lhe o embaraço, ao despertar totalmente e olhando ao seu redor com uma tristeza imensa, desalentada e desesperada. Afinal está viva! Quem o mandou socorre-la? Que faz aquele homem ali? Só para lhe tolher os passos, mas que pretende, quem é?
E num repente salta de novo para tentar alcançar o gelo cantante que perto a aguarda. Rápido e certeiro, ele prende-a nos braços fortes e musculados, impedindo o acto tresloucado, e segurando-a com força enquanto ela se contorce louca naquele plexo que não quer. Debate-se até à exaustão e acaba vencida, cansada e num pranto incontrolado, abandonando-se no abraço que a não largou e agora ampara deitando-a suavemente de novo, sem se soltar do contacto do seu corpo.Um choro convulsivo e aflitivo ecoa sobre a ventania, aquele ser desprotegido e perdido soluça de rosto por terra, parece que mundo vem ás suas costas. Devagar, uma mão passa ao de leve sobre os cabelos molhados, desce pelo pescoço e contorna-o, percorrendo as costas que aos poucos se vão aquietando. O contacto quente da mão, o calor que das chamas se desprende, acaba por acalma-la um pouco. Um golo de café forte vai restaurar-lhe as forças de modo que as primeiras palavras se ouvem; São de uma revolta sem tamanho de um desespero profundo, e só com muita paciência, calma e interesse, ele consegue ouvir a história da sua vida. A noite vai longa, e o lume crepita ainda, o peixe já foi partilhado, as vidas começam agora o seu ciclo de troca e confidências. O rosto fechado dela já ensaiou um sorriso, e as mãos tocaram-se vezes sem conta, os olhos, dois lagos fundos de mistérios e dor, olham-no cada vez com mais doçura e menos medo. O lume aproxima-os, aconchega-os e aninha-os no seu calor ameno e confortante. A noite avança agitada no vendaval, mas naquela gruta um milagre aconteceu; A vida voltou a ter significado, voltou a ter sentido para dois seres perdidos do mundo.

segunda-feira, novembro 13, 2006

CALANDO LÁGRIMAS


Calando as lágrimas bem fundo,
acolho o destino traçado
na vida deste meu mundo.
Como um sonho destroçado
ou petalas caídas sem rumo,
calo a tristeza esvaída em fumo.
Calando o grito distorcido e rouco
que na garganta se forma aflito,
procuro forças para caminhar mais um pouco,
e com o coração contrito
calo as lágrimas doridas,
em mil horas perdidas.
Calando as lágrimas bem fundo...

domingo, novembro 12, 2006

Acordei num lugar estranho
onde a quietude me invade,
esqueci-me da cidade, do ruido,
deixei que o silencio me possuisse,
invadisse e tomasse nos braços.
Acordei num lugar mágico
onde a geada molha os pastos,
o chocalho do gado tilinta manso
e o galo cantas as matinas.
Acordei num lugar puro
onde o mundo parece parar
esquecido do seu eterno girar
para dar tempo ao tempo,
sem presas.
Acordei num mundo de paz
onde o sol entra pela janela
e me beija o rosto ensonado,
as ovelhas, as vacas e os burricos,
os cães e gatos, os galos e os pardais
desafiam as humanas vozes
com seus sons de natureza...
Acordei numa aldeia Portuguesa
onde o tempo se esquece de passar
e fica na quietude de uma manhã Outonal.

(festa da Castanha - Marvão)

segunda-feira, novembro 06, 2006

MANHA


Na quietude da manhã
os sons do dia a acordar:
Ladra o cão e o pardal com afã
entoa hinos de encantar.
A fresca brisa agita o cortinado,
e do meu leito de tortura
sinto o beijo do novo dia apaixonado.
É assim, com toda a loucura
que cada dia se entrega
nas nossas mãos, de mansinho,
depois transporta-nos, agita-nos e pega
em nós, pela mão, devagarinho,
e faz ver o sol, as flores o mundo,
e mesmo deitada sinto o vigor
dete dia, forte, doce e profundo,
que me veio dizer; "Bom dia amor!
Voltei para mais um dia!"

APENAS UM DIA....

Melodia que passa, como chuva singela de verão, refrescando o peso do calor da desilusão. Acordes que volitam como andorinha...