sexta-feira, abril 13, 2007

NEGRO VELUDO



O dia acabava lentamente, morria nas suas agonias de Inverno frio e chuvoso, triste, arrastado, escuro. Para ela era apenas mais uma dia de trabalho que findava, a semana estava quase passada mas fora pesada e dura. No emprego o ambiente era de tensão permanente, em casa era de um abandono total.
Nesse dia voltou para casa exausta e sem vontade para mais uma noite de três palavras, de preparar as roupas e as comidas e de se deitar sem um simples gesto de carinho, uma atenção ou um mimo por mais pequeno que fosse. Olhou o céu plúmbeo e desconsolada abriu o chapéu de chuva encaminhando-se para a saída, os seus passos ecoavam na calçada de uma forma estranha, e dir-se-ia que passeava enquanto todos os outros corriam apressados para se recolherem e regressarem rapidamente aos lares, onde pelos menos estariam abrigados daquela chuva fria e incomodativa que dos céus desabava sem dó nem piedade. A sua cabeça ia nem ela sabia bem onde, algures num local aprazível onde o vazio em que passava os dias, nada era mais do que triste recordação, e onde ao seu lado alguém a fazia sentir mulher, amada, desejada, querida, alguém. A chuva martelava no tecido verde-escuro do chapéu com mais intensidade mas nem isso a fazia estugar o passo. De repente sem ela saber bem de onde viera, apenas ouviu um ranger de pneus atrás de si, e depois um embater surdo e duro no seu corpo vergado para se equilibrar contra o vento agreste, daí para a frente foi a escuridão total…
Ouve os sons ao seu lado, sente o toque de umas mãos quentes que prendem as suas, está acordada e desperta, vira a cabeça para o lado do som, mas somente um negro azulado se lhe apresenta aos olhos. Estranho!...Que se passa? Porque ouve, sente, fala, cheira, mas…Não vê?
Aos poucos a sua estranheza vai dando lugar ao medo, ao pânico, e por fim ao desespero. Ao fazer a pergunta que lhe queima a garganta, mas que tem, ao mesmo tempo, um pavor imenso de fazer, irrompem as lágrimas doridas e os soluços sacodem o seu corpo martirizado pelo atropelamento grave que sofrera; - “Lamento, mas não conseguimos recuperar-lhe a visão. Está cega!”
Dos olhos pensados correm em fio lágrimas de dor e de pavor. Agita-se, remexe-se, revolta-se num desespero profundo, numa agonia que voz alguma consegue acalmar, que mão alguma consegue abrandar. Já nem ouve as recomendações médicas que a proíbem de chorar, nem os ralhos mansos dos que as rodeiam, nem sente as mãos amigas que a tocam e tentam segurar e sossegar. Apenas e só aquela frase lhe grita aos ouvidos impiedosa e dura: Estou cega, estou cega, estou CEGA!!!!!!!
Acabou a hora da visita, ficou de novo só consigo mesma, e a voz do medo fala-lhe de novo, insinuante, trágica, marcante e poderosa como só medo é capaz de fazer;
- Daqui para a frente serás a pobrezinha que sempre viu e deixou de ver, como vais adaptar-te à vida sem os olhos? Como é o trabalho em que o computador era a tua vida, a leitura, a escrita, as correcções de exercícios, as expressões dos miúdos que tão bem decifravas, como é a escola, as deslocações, como é o girar em casa, a condução…Como vais viver? Serás a “ceguinha” coitadinha, e terás que conviver com essa realidade até ao fim dos teus dias. Vais perder o norte, vais deixar de te orientar, vais precisar mais do que nunca que te levem, indiquem, te guiem – A sua vida estúpida e sem sentido parecia-lhe agora um mundo cheio e vibrante, um caleidoscópio de alegria e vivacidade, de luz e cor, que jamais voltaria a ver. Queria desesperadamente voltar ao anoitecer daquele fatídico dia, em que atravessara a passadeira dos peões e já a meio dela fora arrastada pelo condutor embriagado num voo de mais de 20m, para aterrar de cabeça no duro asfalto que a deixara com múltiplas fracturas nas pernas e nos braços, algumas costela partidas, um traumatismo craniano, mas acima de tudo a deixara no mundo da escuridão. Queria fazer andar para trás os ponteiros do relógio, os dias e as noites, queria a sua vida idiota e sem brilho de volta, queria as suas horas de dor e solidão, o cansaço dos pontos corrigidos até quase ao nascer de um novo dia, os litros de café bebido para se manter acordada, o desinteresse do marido, as correrias no supermercado para chegar a casa com tempo para tudo o que tinha à sua espera. Queria voltar a deliciar-se com um bom livro lido no calor dos lençóis em madrugadas de insónia, queira…Queria…Queria…
Mas o negro que a rodeia é mais forte que qualquer sonho, mais real que qualquer esperança ainda que remota, que em si teima em habitar. Sempre que roda a cabeça para onde lhe parece ter lógica estar uma janela, apenas o silencio negro, hiante, descontrolado, lhe responder, ainda sem permissão para se levantar do leito onde o gesso numa das pernas pesa arrobas e as ligaduras a envolvem como a uma múmia, sente a angustia crescente de não saber onde está, nem poder identificar o espaço, sente a ameaça do desconhecido, o pavor do escuro, como criança indefesa em quarto sem luz em noite de trovoada. Calada, encolhida no seu tormento cego, apenas sente o peso da realidade sem capacidade para enfrentar a vida sob este novo aspecto. De cada vez que se “esquece” e olha para algum lado na esperança vã de vislumbrar uma luz, uma cor, uma imagem ainda que distorcida, só aquele veludo macio e negro, aquela noite eterna se lhe apresenta, e as lágrimas que vai reprimir quando acompanhada, soltam-se como ribeiros selvagens e indomados dos seus olhos outrora belos e meigos, e que agora nada mais são que duas esferas esverdeadas sem centelha de vida ou vivacidade. Rodam desolados nas orbitas sem sentido nem graça, sem rumo nem esperança.
Passa pela fisioterapia por causa dos estragos nas pernas e nos braços, passa pela terapia por causa dos olhos, necessita de reaprender a viver, desta feita sem o bem precioso da visão, mas apenas e só passa. Nada a prende. De que lhe serve andar, mexer-se de novo bem se os olhos já não a levam a lado nenhum? De que lhe serve a mobilidade, a liberdade de movimentos se a beleza que a rodeia se perdeu para todo o sempre? A força interior que sempre a movera perdera-se diluíra-se na cegueira, agora era uma mulher sem vontade, sem animo ou coragem a que se ia adaptando à noite que a amarrava ao medo, aos passos hesitantes e tímidos, aos tropeções e quedas, à reaprendizagem que a muito custo seguia. Para quê? Porquê? Perguntas para as quais não encontrava resposta, apenas e só o pesadelo de quem sempre vira, de quem sempre soubera onde estava como se mexer em qualquer espaço, conhecido ou não, e agora ia de mãos na frente, temerosa, encolhida, sempre à espera do próximo tombo, do próximo tropeção. Em casa geria bem os seus próprios passos, claro! Conhecia bem o chão que pisava, mas…
Saindo do ninho que a acolhia e onde se sentia o menos infeliz que lhe era possível, era um tormento que quase não suportava, e invariavelmente acabava numa crise incontrolada e sentida de choro.
Passaram-se os meses, aprendeu Braille, e aos poucos a vida ia sendo um fardo um pouco mais leve, mas o seu coração estava tão negro como o veludo que os seus olhos viam. Recomeçou a trabalhar, iam busca-la e leva-la, rodeavam-na de carinho e atenção, ao mesmo tempo que a incitavam a viver, a sorrir a ser de novo a mulher alegre e bem disposta que sempre fora. Não era o fim do mundo, estava viva! Mas o seu sorriso agora pálido e amargurado perdera o brilho e a espontaneidade que sempre tivera. Envelhecera, o seu corpo elegante e bem trabalhado no ginásio a que não faltava, era agora um invólucro sem graça e sem gosto, encolhido sobre si mesmo, os passos incertos jamais ganhariam o garbo de outrora em que se orgulhava de forma como pisava o solo, com elegância e correcção. A seu lado o cão guia que fora treinado para a acompanhar era o único que parecia compreender o desespero e tristeza profunda em que aquela alma se afundava de dia para dia, acertava o passo pelo dela, latia e fazia-a sentir a sua presença quase humana. Nessas alturas as lágrimas saltavam-lhe dos olhos e enterrava o rosto molhado no pelo sedoso do animal que se sentava e gania baixinho acompanhando-a na sua dor. Afeiçoara-se ao bicho e muitas vezes saía para que o animal tivesse o seu tempo de “desenferrujar as patas” como lhe dizia baixinho, forçava-se ao passeio pelo jardim que ficava perto de sua casa e sentia que o seu companheiro apreciava e dava valor ao seu esforço e assim, aos poucos, foi descobrindo que os seus outros sentidos se desenvolviam para compensar a visão perdida, o olfacto e o tacto eram-lhe agora preciosos e imprescindíveis. Aos poucos a vida vinha até si de uma outra forma, com uma intensidade que até ali lhe era desconhecida, os seus dedos desdobravam-se e reconheciam mil texturas que antes quase não distinguia, e às suas narinas chegam fragrâncias subtis que não lhe eram outrora familiares, também o ouvido se tornara apurado e mais atento. A vida chegava até si e tocava-a de uma forma nova e desafiadora, era um recomeçar do nada.
Um ano passara e com o seu companheiro de quatro patas o seu sorriso de outrora e o passo mais confiante, ela vencera; Renascera.

quarta-feira, abril 11, 2007

AMAR, ASSIM...SO POR AMOR




Razões mil para te amar,

calamos a cada beijo

unidos num só desejo,

o nosso terno caminhar.

A ausencia prolongada

renovada em cada entrega,

longamente ansiada,

o puro prazer que carrega

somente o nosso amor.









Desenhar o tempo

intemporal e eterno.

Penetrar nesse teu templo,

pessoal, unico, terno.

Da curva doce doce e arrojada

nasce o erotismo puro,

brota a alma agrilhoada

de quem aprendeu no duro.

Tempo desenhado na vida,

pelas tuas mãos sublimado,

tempo que está de partida

mas que é sempre esperado,

qual ciclo zodiacal

rodando em eterna escala.




MAGIA NA NOITE


Na magia desta noite escura

em que o medo se tornou bravura,

em que as estrelas dançaram

e os amantes se amaram,

em que o teu corpo no meu

tomou posse e também se deu,

nesta noite, amor maior,

o mundo parou para nos ver,

nos ouvir, sentir e em redor

tudo se calou. Nos teus braços a tremer

o meu corpo de mulher se deitou,

e desnudado se te entregou.

Até a distante lua se escondeu,

o seu brilho esmaeçeu

ante um amor tão profundo;

O nosso, amor, este pequeno mundo

que a magia desta noite escura

leva às raias da loucura.


segunda-feira, abril 09, 2007

QUERO-TE


Quero-te como se quer ao calor,
ao sol, ao verão, à vida e ao amor.
Quero-te como a mais nada,
como uma partida e uma chegada,
como se fosse morrer amanhã
e nada mais restasse,
como se o mundo acabasse
numa invernia temporã.
Quero-te como se a noite jamais acabasse
e o dia jamais se levantasse,
o canto das aves morresse
e o ribeiro emudecesse.
Quero-te como te sei amar,
toscamente, incompletamente,
quero-te assim....Inteiramente

OLHOS DE AVELÃ (CONT)

Caros amigos ao fim de uma ausencia prolongada, forçada, mas necessária, entre a doença e o trabalho regresso ao vosso convivio. Aceitei o desafio do nosso Vlad e aqui vai o resto dos "olhos de avelã" espero que gostem... Beijo muito grande para todos/as. É bom estar de volta

Mas o abrir a porta significava abrir o coração, espaço na sua vida e disso Matilde não tinha a certeza. João fora e era o seu mundo, fora o tudo e agora era o vazio, a ausência crua e dura. O seu lado de mulher, a sua carência, o seu físico pediam-lhe complacência, mimo, amor, troca, mas a alma rebentava de dor, o coração estoirava-lhe de mágoa, de saudade, de solidão. O racionalismo implorava-lhe “abre” a alma gritava-lhe “NÂO”! A rapariga debatia-se de telemóvel desligado na mão, olhos colados na porta, e olhos em fogo. Goldy roçava-lhe as pernas nuas e morenas, respirando com força como a lembrar-lhe que a vida estava por viver, e os segundos passavam-se profundos e apenas cortados pelo crepitar da lenha que não morrera na lareira.
Lentamente, arrastando os pés descalços, encaminha-se para a porta e muito lentamente, muito a medo abre o trinco, sabendo que as palavras que ouvira eram a realidade, Henrique estaria dentro do carro à espera que ela abrisse, por isso não se surpreendeu, quando a porta foi aberta devagarinho e muito mansamente pela mão grande e esguia, muito morena do sol e com a profunda cicatriz que a cruzava quase de um lado ao outro. Marca de um mau encontro num mergulho anos atrás.
Na penumbra da sala foi-se desenhando a elegante figura de um metro e quase noventa de Henrique. A porta fechou-se sem ruído e Matilde foi-se encolhendo e chegando para trás, a presença do homem na sala que fora deles dois era a um tempo incómoda e desejada, mas a rapariga mais do que nunca preferia não ter cedido ao racional, porque os gritos lancinantes da alma e o choro convulsivo do coração estavam prestes a fazer estragos. De braços cruzados sobre o peito, cabeça semi descaída, fazia esforços inauditos para conter a avalanche de lágrimas que ameaçava inundar-lhe os belíssimos olhos que tantos sorrisos e piropos geravam. Convidou Henrique a sentar-se, mas manteve-se cuidadosamente afastada dos braços que pareciam querer crescer para ela, envolve-la, estreita-la, e prende-la ao peito que subia e descia calmamente.
Ele observava o medo, a angustia, a dor imensa que aqueles olhos estranhos e cativantes jamais conseguiram mascarar, embora um breve sorriso houvesse começado a aflorar aos lábios carnudos havia algumas semanas. Fala-lhe baixo e calmamente de banalidades, depois vai levando a conversa para o trabalho, ele precisa de Matilde no fundo, dos seus conhecimentos arqueológicos e da sua mão excelente para o desenho, a fotografia vai ser assegurada por ele próprio que de momento não pode dispor de mais fundos e pagar a mais ninguém. Os olhos da rapariga vão criando aquele brilho fulvo que o encanta e desnorteia, o corpo relaxa aos poucos e os braços vão tomando vida, descai ligeiramente pelo sofá, e a voz solta-se um pouco mais. Henrique nem se atreve quase a respirar com medo de quebrar o encanto do quadro que tem de novo à sua frente; Uma Matilde contida e magoada sim, mas mais solta e empenhada, mais entregue, e de novo com um entusiasmo que já não lhe via há muito, por isso mantém a conversa e o desenrolar dos seus projectos.
Mas é homem, sedento, contendo há muito um sentimento que o roí e desnorteia. O coração explode em brados de amor que a muito custo cala e guarda. Matilde, levanta-se para preparar um café forte como gosta, com uma pitada de chocolate, perguntado ao seu interlocutor se também quer uma chávena. Henrique responde afirmativamente e segue-a com os olhos nosso movimentos esguios e bem lançados do corpo. Levanta-se e vai de manso até à porta da cozinha onde se encosta para a observar, com um sorriso breve nos lábios. Ela vai preparando as canecas, mas as mãos tremem-lhe ao relembrar os mesmo gestos feitos vezes sem conta mas com outra voz a falar nas suas costas. Semicerra os olhos por segundos, e quase pode sentir o corpo quente e viril que ao seu se encosta, os braços fortes de João que a prendem daquela forma tão especial, o murmúrio junto ao seu ouvido e as cócegas que lhe arrancam uma gargalhada cristalina e um encolher do pescoço arrepiado de prazer. Assustada abre os olhos, para a realidade do corpo másculo de Henrique que ao seu se veio prender devagar, muito a medo, os braços morenos que por trás a enlaçam prendendo-lhe os movimentos, e o beijo doce que no pescoço nu lhe depositou. Da sua garganta angustiada sobe um grito de horror que se queda mudo, o seu corpo perde a força e abandona-se no abraço forte que a sustenta, e dos seus eternos olhos de avelã correm rios de lágrimas mornas e doridas que Henrique com calma e ternura enxuga com beijos, aos poucos vai voltando o corpo quase inerte da rapariga para si, e acalmará no seu peito amplo os soluços que rompem o silencio da noite que os envolveu entretanto. Matilde é apenas e só uma menina perdida, oscilando entra a dor da perda e o calor da presença. Henrique arrasta-a para a sala onde a senta e aninha no colo, falando baixo de modo ela acaba por adormecer-lhe nos braços no meio dos soluços que aos poucos foram, acalmando. Deposita-a na cama tapando-a com a coberta de linho e vai ele próprio descansar no sofá, pensando naquela noite e em como não a deixará jamais só naquele espaço quente e meigo.
Amanheceu.
Matilde acorda cedo como sempre e à sua memória vem a noite anterior, levanta-se e recebe os bons dias de Goldy que age de maneira estranha quase que a puxando para a sala, seguindo o animal, vai dar com um Henrique descontraído e adormecido sobre o sofá. Sem saber o que sente, o que quer, o que vai fazer, senta-se no chão de pernas cruzadas observando o homem que na noite anterior a fizera de novo sentir gente, o calor do corpo, o beijo atrevido no pescoço, os braços que a acalmaram….E é João que clama do tumulo, Matilde não consegue reagir, raciocinar, debate-se numa agonia imensa e louca, tudo em si grita, avança, excepto a alma que lhe martela a cabeça, não!
È assim, com um ar de pânico e dor que Henrique a encontra baloiçando-se de olhos fechados, sentada perto da mesa baixa. Desnorteado com o ar alucinado da rapariga, ajoelha-se ao seu lado e abraça-a fortemente tentando que saia do transe louco em que a vê, e apenas consegue um grito rouco do fundo da sua alma; NÂO!
O trabalho recomeça, os mergulhos, os desenhos, as fotografias, a vida aos poucos vai continuando e dando novo alento aquela alma perdida e magoada, mas a cada avanço dele, Matilde recua um passo mais, o seu mais intimo eu pede-lhe que se mantenha intocada, mas a persistência e o amor de Henrique não a deixam só um instante, o carinho, a ternura, a atenção, vão abrindo caminho pelo meio do desalento e da dor. Já recebe o abraço com que é mimada sem fugir nem se encolher, caminha pela praia no final dos mergulhos, ou ao por do sol de mão dada e nos seu encantadores olhos um brilho novo, uma nova centelha vai despontando. No final desse verão, já ele é vista diária da casinha da praia arrastando até ao limite a sua permanência, mas nunca ficando, até que numa noite que o Outono já avançado tornou fria e chuvosa, Matilde lhe diz se não quer ficar à lareira em vez de ir a conduzir não sei quantos quilómetros. Henrique exulta e aceita o convite, será uma mulher ardente que prenderá nos braços enquanto o lume crepita, e Goldy se aninha perto dele. Será o prémio pela paciência, compreensão e ternura de um ano de espera e companheirismo.
Matilde é de novo MULHER.

terça-feira, janeiro 30, 2007

OLHOS DE AVELÃ


À música do cd juntavam-se os soluços mansos, e as lágrimas mal contidas. Os cabelos anelados e longos descaem sobre o rosto contrito deixando-o semi escondido.
O grande golden-retriver enroscado aos seus pés levanta a dourada cabeça inquiridor ao ouvir o entrecortado soluçar da dona, que enterra os dedos dos pés nus, no seu macio pelo. Lá fora a noite está fria e límpida, como as belas noites de Inverno em que o vento assobia nas janelas emprestando um ar mais tristonho ao ambiente de meia penumbra da sala, somente quebrado pela beleza rubra do fogo que crepita, alegremente, na espaçosa lareira.
Matilde, levanta a cabeça, olha em volta, como se regressasse de um sonho qualquer, e desse consigo na sala acolhedora por suas mãos decorada havia quase 5 anos. Os olhos cor de avelã que ele tanto amava continuavam repletos de sentidas lágrimas. Porquê? Porque fora a vida tão cruel com eles?
No verão de há 4 anos havia feito um trabalho de prospecção subaquática juntos, o namoro e o encantamento dai surgira, com interesses comuns, ambos jovens e atléticos, óptimos mergulhadores, belíssimos profissionais, e amantes da natureza, poucas coisas os separavam. Matilde não gostava de conduzir e João era louco pelo volante e pela velocidade. Muitas vezes a rapariga lhe dissera que não gostava de viajar aquela velocidade alucinante porque nem desfrutava da paisagem e só servia para ir num estado nervoso imenso e a maior parte das vezes chegar ao destino agoniada e cansadíssima. Mas ele ria-se, soltava o volante e enlaçava-a com força dizendo que era uma tonta adorável, tentando sempre roubar-lhe um beijo de fugida. Ela encolhia-se com um gritinho de susto ralhando por sentir o carro a alta velocidade apenas conduzido com uma mão, ainda que hábil e segura.
Nos primeiros tempos o peso da responsabilidade do trabalho, roubava-lhes horas de sono, e sujeitava-os a canseiras mil. Num noite em que, depois de 4 horas de mergulho, voltaram a terra exaustos e sem forças para pegarem nos haveres e no carro e irem para o hotel onde estavam alojados, decidiram render-se aos encantos da escura e estrelada noite de verão e pela praia, onde agora se elevava a térrea casinha de madeira, pernoitaram. João rapidamente fez uma fogueira e o peixe também não constituía problema de maior, por isso ao som do marulhar manso das águas, cobertos pelo manto aveludado e ponteado de luz, se esticaram perto do lume conversando sobre o trabalho, os sonhos, os desejos, a vida. Matilde aos poucos ia sucumbindo ao cansaço e os olhos começaram a fechar-se involuntariamente. João, vai para o seu lado e deitando-se de costa oferece-lhe a barriga como almofada, ao que a rapariga não se faz rogada e naquela posição adormece. O raiar do dia vem acorda-los, moídos, mas satisfeitos, João passa-lhe a mão docemente pelos cabelos e vai desenhando o contorno do rosto, do queixo arredondado, o colo branco e firme. Matilde desperta mas mantém-se quieta e expectante, a mão quente de João continua a insinuar-se para baixo, os seios intumescidos, o ventre liso e semi ofegante, a púbis que de manso eleva virando-se para ele. Por seu turno a mão fina e esbelta da rapariga desliza branda pela pele arrepiado do corpo dele, detendo-se no mesmo local onde a mão ficara abandonada e sequiosa daquela gruta secreta que se adivinhava plena de segredos e sedução.
E na manhã rubra se dão uma e outra e outra vez, saciando-se do corpo, da ternura e da partilha do outro. Começara um ciclo de vida a dois que deveria ter um desfecho trágico quase 5 anos depois.
O trabalho ainda durou mais uns meses mas a paixão que os unia era inesgotável, desdobravam-se em actividades, viviam ao sol e à lua, à chuva e ao vento, percorriam quilómetros e quilómetros, descobriam um mundo à sua imagem, à imagem de um amor intenso e belo que nada poderia destruir.
Mandaram construir a casinha de madeira na praia dos seus desvelos, e lá viviam com o enorme goldy que ela lhe oferecera de presente de aniversário. O manso cão acompanhava-os para tudo o que era sitio, e ambos tinha uma amizade sem fim ao animal.
Havia 6 meses, João recebera um convite para ir trabalhar com um arqueólogo de fama. Era um hábil fotógrafo subaquático e habituado a imensa horas de imersão seria um aliado perfeito. Matilde ao princípio ressentiu-se por não ter sido ela a escolhida já que o seu curso era história na vertente de arqueologia, mas acabou por se deliciar com a catalogação dos artefactos descobertos.
Todos os dias deslocavam-se quase 200km para o local dos mergulhos e da estância, e todos os dias Matilde ia encolhida no seu canto, calada para não retirar a João o prazer da condução. Um belo dia, em que o mergulho se prolongou por mais horas, as garrafas tiveram que ser substituídas, e como os mergulhadores de serviço tinham as suas não sobrando nenhuma, João decide deixar Matilde no seu lugar e ir a casa buscar as suas próprias garrafas. Fatídica decisão a sua.
Mete-se à estrada com o rádio ligado no seu posto favorito e de pé sempre em baixo vai à “sua” velocidade pela estrada marginal sem trânsito, como era habito. Ao fazer uma curva, já com a vivenda à vista, salta um cão para a estrada que o obriga a guinar o carro de tal forma que, desgovernado acaba por saltar o talude e vir despenhar-se no fundo da falésia de rochedos aguçados. As horas passam, Matilde vem do seu trabalho esperando encontra-lo sorridente e de cabelo revolto, com as suas garrafas, sentado na areia a vê-la sair, esbelta e a escorrer das águas. Olha em volta e vê o areal deserto, embrulha-se na toalha e corre para o estaleiro onde se acumulam as peças e os apetrechos. Para encontrar um bilhete um bilhete curto do seu “patrão”; - Matilde, vá ter ao hospital, as noticias não são boas”.
Desvairada, e com o coração em sobressalto mete-se no jipe e voa para o hospital.
Será uma mulher destroçada que fará o reconhecimento do corpo quase irreconhecível do companheiro, e que voltará desfeita para a sua cabana da praia, tentar compor o que restou da sua vida….
Seis meses já haviam passado, o arqueólogo não a deixara mais e com ele trabalhava agora com afinco, como forma de tentar calar o desgosto imenso que a inundava. Durante o dia a mente e o físico trabalhavam em uníssono, mas as noites eram o seu maior pesadelo. Nessa noite Henrique, assim se chama, havia ousado pela primeira vez tocar-lhe, enlaça-la com meiguice, e recebera como prémio, um corpo que lhe tremia nos braços, mas longe de estar sereno. Sem a querer forçar, porque só o tempo cura a dor, deixara-a com um beijo doce nos lábios dizendo-lhe que se precisa-se ele viria a qualquer hora do dia ou da noite. Era sobre estas palavras que matutava, João estava morto, fora uma paixão bela e muito sua, mas a solidão das noites era um suplício duro de aguentar.
Levantou-se descalça, pegou no telemóvel e marcou o número, após breves instantes ouviu do outro lado;
“Só tens que me abrir a porta.”

sábado, janeiro 27, 2007

CAMA FRIA


Na fria noite da tua ausencia,
no gélido beijo do teu lugar vazio,
na minha louca persistencia
em procurar-te em desvarío.
Na escura noite de solidão,
em que mordo, sedenda, o lençol frio
e calo o desejo, em turbilhão,
do teu corpo correndo como um rio
de dádiva e seiva viva.
Esta dor que me criva
de lembranças sem fim!
Ah noite gélida de incontido desejo,
das noites em que te fundes em mim!
E dos teus olhos que são um lampejo,
deste amor intemporal e imenso.

APENAS UM DIA....

Melodia que passa, como chuva singela de verão, refrescando o peso do calor da desilusão. Acordes que volitam como andorinha...