quarta-feira, abril 25, 2007

UM MOMENTO DE ETERNIDADE

Como pode cada segundo saber ao infinito?
Cada toque, cada festa, cada beijo,
trocados na pressa do desejo
no fogo de cada hora do destino.
Como pode cada momento ser eterno?
Cada carícia uma onda de paixão
incontida, louca, arrastada em turbilhão,
num escasso segundo do teu abraço terno.
Como pode, amor mais doce, crescer o tempo,
se cada momento contigo é uma aragem?
Uma brisa leve de passagem
na voragem desta vida em contratempo
que a nada se atém, nada a segura.
Oh vida estúpida e tão dura
que impões amarras de escravidão
a dois corações que se completam!
A dois seres que ao outro se dão
e na incongruência desta vida se despertam.

domingo, abril 22, 2007

SEM LUZ

Como se caminha pela noite sem lua
pelo trilho pedregoso sem luz, sem esperança?
Como se encontra a bonança
se a tempestade nua e crua
me assola sem piedade!
Como posso refazer os meus passos,
enfrentar de novo o dia
se o sol perdeu a magia
e a noite me prendeu em seus laços
de negrume sem idade?
Ah, noite de solidão
mais tenebrosa que a própria morte,
devora-me de tal sorte
que nem mesmo o perdão
se lembre jamais de mim!
Engole-me, traga-me a alma
esquece-te o que fui um dia,
envolve-me nessa calma
tão tua, tão negra, tão fria
e deixa-me partir por fim.

sábado, abril 21, 2007

PARTIDA


Disse-te adeus sem dizer,

calada, desfeita, sem alma.

Tecendo frases para converter

esta dor em pura calma.

Disse-te adeus por amor,

caminhei para o outro lado,

esqueci todo o calor

de todo o nosso amor trocado.

Disse-te adeus e morri,

chorei, perdi-me e desisti,

não me virei no caminho,

guardei as memórias no escaninho

da ausencia que perdura,

da dor que não abranda,

da violencia desta loucura

que me assola, puxa e manda

só para um poço sem fundo,

só mesmo para o fim do mundo

sexta-feira, abril 20, 2007

ESTRELA CADENTE


Se uma estrela caísse do céu,
descesse à terra
e acabasse com a guerra?
E a envolvesse no seu véu
de luz de estrela cadente?
Se uma estrela singela
brilhando agora na noite,
fosse o berço que acoite
a poesia mais bela,
a história mais pungente?
Se a sua luz faiscante
cortasse os céus de rompante,
perturbasse os sonhos meus
e pudesse mudar o rumo,
deste esgarçado fio-de-prumo,
que são os passos teus
correndo para o infinito?!
Que caíssem todas elas!
Fossem berço e tumba fria
fossem alma em agonia,
barcos perdidos sem velas,
fábulas, contos e mito.
Se uma estrela caísse do céu
para nos amortalhar no seu véu…

segunda-feira, abril 16, 2007

FRANCISCO












Cisco, abreviatura de Francisco, é uma criança como tantas outras, brinca, corre, salta, vai à escola, estuda, chora e ri, cai, esfola os joelhos e parte a cabeça, rasga as calças e dá cabo dos sapatos a jogar à bola. Tem uns agradáveis 8 anos e uns deliciosos e profundos olhos castanhos que falam por si, mesmo quando o rosto tem aqueles momentos inexpressivos. Bem, é uma criança “quase” igual a tantas outras. Francisco teve um parto longo e algo complicado que lhe deixou como sequelas um ligeiro atraso e dificuldades cognitivas, que só mais tarde se iriam detectar. Fora um bébé de fácil sorriso e sempre bem disposto, apenas levara mais tempo a pôr-se em pé, a ensaiar o palrar, a comer sozinho, a construir frases, a deixar as fraldas de entre outras pequenas coisas que foram despertando a atenção com o passar do tempo. Mas, ao entrar na escola a diferença notou-se mais, agravou-se, e enquanto os seus coleguinhas iam associando as formas, as cores, iam aprendendo os nomes dos objectos, Cisco ia ganhando habilidade de mãos, apuro de ouvido e um afastamento pronunciado do convívio natural entre crianças. Iam dar com ele, muitas vezes, sentado com a sua flauta, a ensaiar musicas que ninguém conhecia, nem tão pouco tinham sido ensinadas na aula de música. Em grandes ânsias andaram os pais, que correram com ele médicos sem conto, ouviram diagnósticos horrendos e tentaram inúmeras terapias, mas Cisco seguia no seu mundo semi isolado, mas feliz. Claro que se juntava ao grupo infantil e brincava, jogava e ria, trabalhava com os outros nas aulas e era sossegado e atento dentro do possível, mas a sua cabeça fugia para um mundo de sons e notas que pareciam brotar-lhe mais da alma que do cérebro.
A sua psicóloga percebera que não era fácil faze-lo falar, era uma criança calada, mas esperta, e se não o deixassem seguir o impulso nato da musica dificilmente Francisco seria alguém na vida. Decorreram os primeiros anos de escola e aos poucos e com bastante apoio e esforço Cisco conseguiu recuperar parte do seu atraso. Já lia correctamente e escrevia quase sem erros, a matemática era um pouco mais difícil, mas também lá seguia o seu curso normal, embora com umas notas mais baixas, mas sem chumbar contudo.
Como era um rapazinho especial necessitava de muita gente à sua volta para o auxiliar, as explicadoras, os psicólogos, a psiquiatra, a terapeuta da fala, enfim um batalhão de gente que o adorava e por ele puxava e ao qual ele respondia com o seu manso caminhar de menino e sorriso fácil no rosto, mas o tempo para o que mais gostava não era muito; A sua bem amada flauta, a sua música que compunha sem qualquer tipo de ajuda, aula ou ensinamento. Era algo que nele fluía sem restrição, como que uma onda enorme e infinita que o inundava e transbordava em mil notas. Um belo dia particularmente cansativo em que já tivera 4 explicações, uma consulta de oftalmologia e as aulas, chegou a casa e sentou-se no sofá carrancudo e tristonho. A mãe chegara havia pouco tempo e corria de um lado para o outro porque ainda tinham a visita semanal à psicóloga que dentro de três quartos de hora os aguardava. Francisco ligou a televisão e colocou a cabecita meia de lado, como era seu hábito, mas o som quase não lhe chegava aos ouvidos, subiu o volume e quase de imediato apareceu a mão à porta da saleta a manda-lo reduzir a gritaria, era impossível os vizinhos do ultimo andar não ouvirem a televisão! Mas como podia isso ser se o som agora é que estava normal? Sem prestar muita atenção a mãe arranca-lhe o comando das mãos, baixa o som e desaparece de novo nos seus afazeres, não sem antes o ter mandado fazer os trabalhos para não perder tempo depois. Cisco para ali fica amuado, de comando na mão e flauta, a sua inseparável amiga ao lado. Pega nela lentamente e leva-a aos lábios carnudos de menino, e cria, cria, cria. Quanto mais se deixa navegar nos sons mais a sua alma se expande, cresce e entrega, de tal forma que nem dá pela presença da mãe de novo na sala a chama-lo do seu devaneio musical para a consulta a que não convém chegarem atrasados. Salta a criança do seu assento e de muito má vontade arruma o instrumento no seu estojo cuidadosamente.
Uma vez no consultório, Francisco parece mais alheado do que é normal, dá a ideia que não está ali e é essa sensação que vai passar à médica mal o vê entrar. Cumprimenta-o e ele responde como sempre com o seu sorriso aberto e meigo, mas mal iniciam a conversa ele cala-se com um ar perturbado e de lágrimas a aflorarem os olhos escuros. A médica inclina-se para ele e repete a questão; Que tem ele, porquê a tristeza que o seu rosto não consegue esconder, que se passa?
Francisco responde com um soluço forte e magoado. Quase não percebeu o que ela lhe disse, e pede para ela repetir. A médica temendo o pior ensaia uma frase simples quase em cima do rosto do pequeno e depois a mesma coisa mais longe, o resultado é inequívoco Cisco piorou da audição. Sempre tivera dificuldades auditivas e fora operado em bebé, porque os sons chegavam ao seu pequenino cérebro distorcidos e entrecortados, mas agora a perca auditiva era bem mais significativa….
A sala aplaude-o de pé, na primeira fila o rosto corado e sorridente da mulher dava-lhe a certeza que havia valido a pena e numa retrospectiva rápida, em fracções de segundo, voltava aquele dia no consultório em que soubera que a surdez seria a sua companheira para o resto da vida. Daí em diante tudo fora diferente, tivera uma ânsia imensa, incontrolada de aprender tudo, ouvir tudo, guardar na sua memória todos os sons, desde os mais belos aos mais horrorosos, dos mais doces aos mais traumatizantes, para um dia, quando os seus ouvidos cessassem as funções de vez a sua memória conseguisse reproduzir pelo som magnifico e único do seu talento na flauta, o mundo vivo que conhecera. Percorrera o mundo, aprendera a linguagem dos surdos-mudos, mas pouco uso fazia dela, porque lia correctamente os lábios e como aprendera a falar, escrever e ler, conseguia falar sem problemas. Aprendera a colocar a voz para não gritar, e jamais descurara essas aulas que o acompanhariam para todo o sempre, bem como a dicção. Durante mais de trinta anos sofrera e lutara para se manter no mundo dos sons e ao seu lado tinha, havia quinze, aquele sorriso delicioso que o brindava da primeira fila.
Nessa tarde antes do espectáculo soubera que a paternidade lhe tocara à porta e a música que da sua flauta se elevou foi um hino de louvor à vida, à perseverança e ao amor.

O CANTO DO CISNE



Branco, imaculadamente branco,
desliza o cisne, mudo e majestoso.
O seu navegar suave e franco,
o porte elegante e garboso
de quem do lago é senhor e rei.
Mas na sua alma, o silencio é lei,
no seu pescoço fino, emplumado
uma garganta se esconde calada,
e o tempo passa breve esfumado
pelo seu corpo de ave amordaçada.
Branco, de uma alvura imaculada,
desliza solene na água gelada.
Nesse derradeira hora em que a vida
se esvai e o sopro quente esmorece,
da sua garganta muda e dorida
um grito se eleva e então acontece;
O seu canto final lança ao ar!
Morre o cisne devagar,
morre como sempre viveu,
elegante, sóbrio, garboso,
e num silencio muito seu
tomba o pescoço majestoso.






sábado, abril 14, 2007

QUANDO


Quando o coração já não bate,

quando os olhos já não vêem,

quando as mãos já não se estendem,

quando o sino toca a rebate

e as almas já não crêem.

Quando as vidas em farrapos pendem,

morre uma vida devagar,

sozinha num canto qualquer:

Barco perdido sem saber navegar,

leme partido, seu eterno mister.

Quando o coração toca a rebate

e a vida, a tom cinza, se esbate,

e os olhos já não crêem

as almas cegas não vêem.

Quando as mãos mortas nos pendem

em murmurios distantes,

como negros buracos hiantes,

navega uma vida perdida,

sem leme, qual asa partida!

SERENO E NOITE ESCURA

Vesti-me de sereno, do negro manto da noite escura, apaguei todas as estrelas, aconcheguei a doce lua em cama de alvas nuvens velada p...