segunda-feira, julho 30, 2007

A TUA VOZ


O silencio manso tras-me a tua voz
ecoando nas dobras desta noite,

e eu, fragil casquinha de noz,

procuro que o teu abraço me acoite.

Roço ao de leve o teu rosto doce

com um beijo, quase uma aragem,

recebo-te na ternura da posse

entrego-me nesta viagem.

E o silêncio tras-te de novo a mim

e as tuas mãos percorrem-me carentes,

os teus beijos encontram-me enfim

e os sentidos acalmam dolentes

na noite muda de espanto....

Quebra o silencio com o amor

intemporal, cobre-nos com o manto

diáfano da ternura e o calor

de quem se dá

nesta noite silenciada por nós

quinta-feira, julho 26, 2007

EXORCISMO



Exorcisei-te.

Destrui o esfumado amor que me prendeu,
exorcisei-te,
enterrei o punhal amargo que me enlouqueceu!
Exorcisei-te,
e na dor sem tréguas que me abate
enterrei-te,
mas deixei o coração que já não bate
junto do caixão de pedra negra.
Amei-te,
até ao limiar que a loucura integra,
comporta e não mais suporta.
Amei-te
ao extremo de mim, entreguei-me
totalmente. E o amor tudo transporta,
tudo regista, grava e fixa. Abandonei-me.
Exorcisei-te
dos meus sonhos, mas morri.


domingo, julho 22, 2007

VENTO NORTE


O vento passou feito furacão

e trespassou uma vida sem dó.

Partido, sangrando o coração

ainda teima em bater, só.

O frio e cortante vento norte

fez da alma uma amalgama negra,

impregnou-a de cores de morte,

deixou-a ao sabor da sorte sem regra,

sem piedade, despida de tudo,

errante na vida, errante no mundo,

ataviada de baço veludo,

coberta de véus de negro profundo.

O vento norte feito furacão dilacerante

destroçou um coração desprevenido,

sem se ater ao singelo bater amante

de quem se entrega decidido.

quinta-feira, julho 19, 2007

DESFOLHADA

Como corola tombada,

qual rosa abandonada

ao sabor do vento norte,

desprendida da sorte,

desprovida de água,

seca na imensa mágoa

do tempo que já passou.



Como corola morta,

por essas mãos desfolhada,

como pesada e dura porta

fechada, fria, aferrolhada.

Pétalas de terna candura

desperdiçadas na agrura

de um coração destroçado,

ferido de morte e trespassado

pelo mais duro gume,

o mais tenebroso negrume;

Esta noite sem ter fim

colada somente a mim.


segunda-feira, julho 16, 2007

Momento de Excelencia

Ai meu querido Gui!!!!

As coisas que tu me fazes.... E ainda por cima sem ser merecedora. Fico, como sempre, sensibilizada com tanto carinho, mimo e delicadeza. Este meu cantinho tem recebido tanta ternura de todos vós que fico sem palavras. Obrigada pela amizade. Então passo a enunciar os blogs a quem envio um beijo em forma de "selo dourado" num Momento de Excelencia.



Tascanight - António Moinante

Ana Luar - Ana

Lagrimas e Sorrisos - Juli Ribeiro

Eternidade num Momento - Vlad

Pensamentos da Alma - Igara

Luar Nocturno - Lu@r

Labirinto do Sol e da Lua - Bruxinhachelott

UM LENÇO BORDADO

As cigarras cantavam nas sombras escaldantes do pomar. O bafo quente do estio inundava terras, homens e gado e a dolência da tarde soalheira embalava os sonhos da idosa senhora que, encostada no tronco nodoso da nogueira, escabeceava docemente.
A alva cabeça pendia sobre o peito vestido de negro, cor que não tirava havia anos, e a face rosada como de um pêssego maduro, exibia a marca de muitas fadigas e desgostos nas mil rugas macias que a povoavam. As mãos calejadas e deformadas permaneciam abandonadas no colo como que a pedir p
erdão pela inactividade e de quando em vez, agitavam-se em espasmos frenéticos e curtos, para logo depois se aquietarem no regaço cansado. Os olhos, agora fechados, eram de um negro profundo e ainda vivo e sagaz e a chispa de marotice bem lá no fundo, sobressaía em dias de boa disposição. O varapau que a auxiliava também descansava das fadigas do dia a seu lado, tempos houvera em que o manejava tão bem como qualquer homem e várias vezes se defendera com ele…Ai se o seu cajado falasse!!! As coisas que tinha feito, as que tinha assistido, as que vira quase acontecer…Mas sempre estivera ao serviço daquelas mãos ásperas e rudes, mas também carinhosas e doces.
D. Genoveva era agora uma bisavó velhinha e meia distante, mas os seus netos e bisnetos não dispensavam as férias no casarão imenso, nem as sopas da anciã, nem as roupas ásperas das camas ou a alvorada do galo que lhes fazia sentir o novo dia. O cheiro do leite acabado de mugir, e a estaladiça broa com a manteiga gostosa como só ali se comia, para regalo de todos.
Naquela tarde resolvera regressar ao seu poiso favorito, mesmo com a casa cheia de risos e brincadeiras das crianças, que lhe tomavam todo o tempo, e com a lida da casa para fazer, a empregada para gerir e comandar, sim porque D. Genoveva, ainda tinha o pulso de outrora, sempre que a isso a obrigavam as vicissitudes da vida, fora dona e senhora de si mesma desde muito jovem, a viuvez visitara-a cinco anos após o casamento e com os filhos pequenos, as terras, os pais e os trabalhadores, a sua visão da vida, dos negócios e da gerência do que estavam a construir fez dela uma mulher madura, recta, senhora de si e justa, reservada e algo dura. Mas sempre que a sua cabeça voava para um ponto distante no tempo, esquecia tudo, netos, filhos, genros e noras, animais, trabalhos e empregados, terras e tudo o mais que a rodeava, nesses momentos, alheava-se de tudo ao seu redor, e com o seu andar já cambaleante, e os seus olhos duramente castigados por muitos anos de maus tratos e poucos cuidados, lá ia a figura curvadinha de negras roupas e alvas cãs, no passo miudinho e arrastado sentar-se no banco que mãos jovens e vigorosas haviam talhado muitos e muitos anos antes, ao redor da sua nogueira. Uma vez lá chegada, sentava-se, desdobrava o avental tão imaculado como os seus cabelos e acariciava docemente um pequeno pacote, já com o papel debotado pelo tempo, desmanchava o laço que fora rubro como as papoilas que a seus pés baloiçavam as corolas molemente ao vento quente da tarde, e deixava que as eternas lágrimas sobre o conteúdo caíssem como pérolas perdidas na imensidão do espaço, na saudade sem fim. Jamais perdoara à vida a morte do marido, tão jovem, tão alegre, tão apaixonado e sempre tão empreendedor. Os anos tinham passado, os filhos crescido e abandonado o solo pátrio, para cada verão regressarem ao ninho materno, depois os netos haviam seguido as mesmas pisadas e eram agora os bisnetos que a rodeavam e lhe davam alegria e também aguçavam a dor da ausência que nunca fora capaz de superar. O marido não conhecera a filha mais nova, falecera antes do parto e, calando a mágoa profunda, D. Genoveva, fizera singrar a vida de todos eles, lutando, trabalhando como um lavrador ao lado dos seus tarefeiros, do pessoal que a ajudava a manter os terrenos produtivos, e as vendas regulares nos mercados das redondezas. Mais tarde fora a invasão das grandes superfícies e mesmo assim ela acompanhara a evolução e continuara a produzir e abastecer algumas dessas áreas, ninguém lhe conhecia um gesto de desanimo, uma rendição às agruras da vida, fora uma lutadora nata, e guardara sempre as suas feridas mais profundas nas entranhas, no mais profundo de si mesma. Mas quantas vezes o seu coração contrito lhe dissera; Basta! Não posso mais! Nesses momentos, ia ao seu quarto e trazia o pacote que agora jazia no colo adormecido, afastava-se para a nogueira, companheira de namoro, beijos e carícias, de tardes de amor e desvelos com as crianças, e também de tantas lágrimas, de tantos suspiros dolorosos e infinitamente tristes e perdidos e deixava correr o pranto insano e a dor incessante que em seu peito habitava e a vergava e amarfanhava, nessas alturas Genoveva era uma criança perdida na floresta negra dos tormentos, da solidão, do desespero e da dor, abandonava-se à fúria da tristeza que a devastava sem dó nem piedade. Os seus olhos, vermelhos, inchados e de um negro tenebroso de dor, desfaziam-se me catadupas de orvalho sentido sobre o pobre lenço bordado com o monograma que as suas mãos de menina haviam bordado a linho branco e ponto cheio, e que Raul havia usado no dia do casamento, e apertara vigorosamente nas mãos na hora da morte, como que querendo agarrar-se ao amor da sua vida e com ele permanecer. Para ela, aquele pedaço de trapo amarelecido pelo tempo eram as festas, as carícias, os beijos que o tempo lhe roubara, era Raul que ali permanecia, vigoroso, sorridente, meigo e doce.
Aquela tarde, o riso cristalino dos bisnetos, em especial da pequena Maria, lembrara-lhe mais duramente o marido, a pequenita era a viva imagem do bisavô, viva, irrequieta, meiga, extremamente alegre mas de uma doçura extrema. E ali estava de novo nos braços do seu amor único, o braço forte de Raul enlaçava-a de novo, o seu rosto áspero do final do dia, colava-se ao seu, envelhecido mas rosado, os beijos que sempre lhe depositava nos olhos, quando a apanhava com eles semicerrados. De novo o calor do corpo junto ao seu! Ao fim ao cabo ela sempre soubera; Um dia Raul viria busca-la, um amor como o seu não podia ficar incompleto. Ele prometera, e hoje, na tarde quente do verão que ambos amavam, ele cumprira a promessa – Viera busca-la.
Os últimos raios de sol, vieram de manso beijar o rosto sossegado e calmo da anciã que nas mãos apertava o lenço bordado com o R, e dos seus olhos agora para sempre fechados duas gotas de orvalho pendiam, quais pérolas intocadas e perfeitíssimas.

domingo, julho 15, 2007

ESCURO MANTO



Nas dobras do manto estrelado
deposito apenas um beijo,
terno, meigo, doce, apaixonado,
o imenso e dorido desejo
de um amor amordaçado.
Quantas luas, quantos sois,
quantas marés são precisas?
quantas quimeras constrois
fugazes e imprecisas?
Quanto tempo acrisolado,
mordendo duro o coração,
batendo silencioso e calado
em dolorosa prisão.
Nas dobras do escuro manto
desta noite feita gume afiado,
trespassando todo o pranto
deste grito surdo e calado,
ainda bate em ritmo lento
um coração magoado.





APENAS UM DIA....

Melodia que passa, como chuva singela de verão, refrescando o peso do calor da desilusão. Acordes que volitam como andorinha...