sexta-feira, outubro 02, 2015

DIA DA PARTIDA











No dia em que parti, vesti-me de anil e rosa,
calcei sandálias de lírios, enfeitei-me de versos e prosa.
No dia em que parti fechei o coração a sete chaves,
cerrei janelas e portas, memórias duras ou suaves.
No dia em que parti enterrei sonhos e dores,
enterrei as minhas mágoas e todos os meus amores.
No dia em que parti deixei metade do que sou
morri e ao morrer, fui gaivota que voou.
Parti sem olhar para trás, deixei-me em cada canto,
aos poucos perdi o corpo, a alma, o rasto e o pranto.
No dia em que parti, ninguém deu porque eu partia!
Só eu sabia que ia, só eu caminhava e sorria,
só eu olhava sem ver o caminho que percorria.
Só eu trilhava descalça a estrada nua e fria.
No dia em parti, vesti-me de céus e de terra,
calcei sandálias de rosas e encetei uma nova guerra.
No dia em que parti pintei o olhar de infinito
arrumei na mala a esp’rança. Calei fundo mais um grito.
No dia em que parti ninguém soube, ninguém viu.

Atrás de mim só deixei a sombra de quem partiu.

quinta-feira, outubro 01, 2015

FAZES-ME FALTA



Olho o céu nesta manhã de Outono para um nascer do sol rubro, vigoroso e fabulosamente lindo, através das nuvens que a época vai trazendo. No horizonte, tingido de vermelhos e laranjas de amarelos e alilasados, sinto a tua presença. Espreitas-me do meio das nuvens. Desse teu novo lar onde a dor e a tristeza já não existem. Onde a paz, a luz e a segurança são a realidade do teu dia-a-dia. Onde vives um tempo já sem tempo, simplesmente porque atingiste a eternidade. Deixaste na terra o teu involucro físico, como lagarta que se metamorfoseou em borboleta, para te elevares transparente e sem peso a uma esfera silenciosa e calma. Uma esfera que eu acredito existe e para onde vão todas as almas. Para nos verem e nos sussurrarem as suas palavras inaudíveis, para não nos desempararem e velarem sempre por nós que ainda caminhamos na terra. “Sinto-te” velado pela nuvem que te esconde dos meus olhos, mas “sei” que estás do outro lado e sonho o teu sorriso, meio tímido como sempre te conheci. Sei o frio das tuas mãos que tal como as minhas, só aquecem se estamos doentes. Sei a tua presença que me dói não ter deste lado da nuvem. Fazes-me falta, papá, sabes isso não sabes? Neste capitulo eu ainda sou menina, sinto-me pequena e frágil sem o teu apoio e presença. Tenho que decidir sem ouvir a tua opinião, sem saber o que pensas, o que achas melhor. Mas “sinto-te” a olhar para mim desse teu lado, só não te consigo ouvir e no entanto sei que falas comigo. Mas sabes… as nuvens são paredes grossas, compactas, não deixam passar o som, nem a imagem. Gostava de enterrar a cabeça na nuvem só para espreitar para o teu lado e ver que estás bem. Que os teus achaques, dores que jamais disseste e dificuldades que eram visíveis mas que calavas e desvalorizavas o mais que podias, agora não te martirizam e estás de facto em paz e vives realmente na luz. Eu sei que sim, sinto que sim, mas… O ver para crer como S. Tomé não me larga…
As nuvens mudaram de cor porque o sol subiu no céu matinal e fresco deste Outono em que já não estás comigo e quase diria que vislumbrei uma fugaz imagem do teu rosto a espreitar. Sabes que eu não consigo atingir as nuvens, por isso espreitaste tu!


Um beijo deste lado da nuvem que é a barreira entre nós.

quinta-feira, setembro 24, 2015

ESCRAVA



Escrava do tempo e do silêncio vagueio pelas ruas da vida
procuro o chão que não tenho e o céu que já não vejo.
Agrilhoada à ausência que visto como segunda pele,
encastoo o olhar na distância que não quero percorrer.
Escrava de um sonho que foi o meu ponto de partida
palmilho descalça o trilho que é a luz do meu desejo.
Desejo que não morre ou esmorece, feito de frutos e mel
e de voz presa na garganta com palavras por dizer.

Escrava do tempo e da ausência, ao silêncio agrilhoada,
espero um tempo sem tempo, espero um amanhecer que tarda
e do qual já desespero. Espero de alma fria e calada.
Espero ... de sonhos despojada.


quinta-feira, setembro 10, 2015

VELHAS FOTOS

São imagens secas encastoadas na mortalha do tempo,
secas e dissecadas pelo bisturi aguçado da memória.
É a imortalidade presa num errático contratempo,
movimento estático captado em cada história.
História de vida ou de morte, história vivida,
história nossa, tua, dele, passada. Ou apenas vida.
São imagens desbotadas pelos estios e as invernias,
gritos calados, risos gelados na intemporalidade.
São momentos aprisionados em doces fantasias,
é suster o tempo na sua voracidade.
Fotografias perenes na moldura de uma vida

Imagens guardadas de uma história compartida.



sexta-feira, agosto 28, 2015

30 DIAS DE VAZIO


Como o tempo corre e voa, como o tempo não perdoa.
Como o tempo se esvai por um brecha que não fecha,
e esta dor surda que me habita e dura me magoa,
é a flecha que trespassa um coração que fraqueja,
que vacila, que estremece e morre um pouco também.

Passa o tempo e a vida, passam as horas sem conto,
mas esta saudade aguda não passa nem se esbate.
Já passaram muitos dias neste surdo confronto,
nesta mágoa dura e forte que sobre mim se abate.
Passa o tempo e eu sigo lutando sem mais ninguém.

Como o tempo corre e pula, como a vida se escoa,
como bate o coração que a dor ainda povoa?


domingo, agosto 23, 2015

UM CAMINHO, SOMENTE

Sempre que cair, que eu tenha a força certa 
para me levantar e recomeçar.
Sempre que me desviar da minha meta,
que tenha força para continuar a tentar
encontrar o caminho.
Seja qual for o meu destino,
seja qual for a minha guerra, ou batalha,
a minha luta ou o meu estranho trilho.
Sempre que o coração doer e eu fique encalhada
em glaucos nevoeiros sem brilho,
que eu tenha força para querer,
para não desistir e apenas morrer.
Ainda que uma morte sem morte,
ainda que uma morte sem vida.
Sempre que eu caia de tal sorte
que já não adiante estar envolvida,
que eu me levante ainda, levante mais uma vez.
Que me vista de força e  cubra a minha nudez
de alma perdida sem norte.
Sempre que cair, que eu tenha apenas força....
Ou algo que me conforte.



sábado, agosto 08, 2015

FALTA-ME O CHÃO...

Falta-me o chão. Falta-me o dia. Faltas-me tu.
O tempo ainda é breve mas a solidão, essa é imensa!
Vou dando os passos que não posso parar,
porque a vida segue e o tempo urge.
Falta-me o chão, falta-me o dia, faltas-me tu.
sou um vulcão de sentimentos, sou uma corda tensa
que tento corajosamente não rebentar.
Cai de novo a noite e logo um dia surge.
Falta-me o chão, falta-me o dia, faltas-me tu.
Tudo em mim chora e dói de uma forma intensa,
desmesuradamente dura, profunda a magoar. 
E eu sigo a viagem, mas tudo se insurge
contra este andar...Falta-me o chão...Faltas-me tu!


SAUDADES....

Saudades! Um sentimento agridoce que marca, que assola com a força de um vulcão. Saudades! Sentimos do que foi bom; abar...