No dia em que parti, vesti-me de anil e rosa,
calcei sandálias de lírios, enfeitei-me de versos e prosa.
No dia em que parti fechei o coração a sete chaves,
cerrei janelas e portas, memórias duras ou suaves.
No dia em que parti enterrei sonhos e dores,
enterrei as minhas mágoas e todos os meus amores.
No dia em que parti deixei metade do que sou
morri e ao morrer, fui gaivota que voou.
Parti sem olhar para trás, deixei-me em cada canto,
aos poucos perdi o corpo, a alma, o rasto e o pranto.
No dia em que parti, ninguém deu porque eu partia!
Só eu sabia que ia, só eu caminhava e sorria,
só eu olhava sem ver o caminho que percorria.
Só eu trilhava descalça a estrada nua e fria.
No dia em parti, vesti-me de céus e de terra,
calcei sandálias de rosas e encetei uma nova guerra.
No dia em que parti pintei o olhar de infinito
arrumei na mala a esp’rança. Calei fundo mais um grito.
No dia em que parti ninguém soube, ninguém viu.
Atrás de mim só deixei a sombra de quem partiu.




