Podia escrever um amor sem limites ou uma paixão sem barreiras,
podia escrever momentos intensos de loucura e horas sem fronteiras.
Podia escrever-te em mil palavras de um fogo eterno e rubro
de uma cálida noite de verão ou de um frígido inverno obscuro.
Podia elevar-me nas asas de uma quimera pairando mansa
sobre a vida suspensa por invisíveis fios de luz de luar.
Podia mergulhar nos abismos do esquecimento e numa dança
rodopiar louca sem principio nem fim. A afundar... a afundar.
Podia escrever uma vida vivida, desdobrada e percorrida
ou todas as pedras que encontrei pelos meus caminhos.
Podia escrever todas as dores e toda a mágoa escondida
e gritar aos quatros ventos que estou de pé por entre os espinhos.
Podia escrever-te em tons de sonho, de maresia e verde prado,
ou escrever cada aurora, esperança traída e desejo amordaçado.
Podia ser apenas a nuvem passando breve no céu,
pássaro de fogo ou fénix, podia ser tudo! Menos breu.
Um local tranquilo onde os raios de lua, feitos palavras, lançam feitiços e enxugam lágrimas
sexta-feira, outubro 16, 2015
sexta-feira, outubro 09, 2015
ACTRIZ
Sou actriz no palco desta vida, tenho mil máscaras que ponho
e outras mil que vou
retirando, mudo o riso pela lágrima,
mudo as certezas e as dúvidas, mudo a realidade e o sonho.
Sou actriz de drama e comédia que se bate e luta e esgrima,
sou rebelde e sou cordata, sou sopro de névoa e sou lua.
Sou o barro que se moldou nesta vida nua e crua.
Sou actriz de mil e um palcos, de mil papeis e mil cores,
paleta de um qualquer pintor, canção, poema e dança.
Cada papel me dá vida. Ou será que sou eu em mil dores
que a dou sem ter medida, sem remédio ou esperança?
Sou actriz neste palco que é a vida… Serei?
quarta-feira, outubro 07, 2015
ANIVERSÁRIO
Aproximava-se a
passos largos o dia do seu aniversário. Todos os que sabiam a data estavam
entusiasmados e a querer celebrar com ela de uma forma ou de outra. A todos
respondia o que sentia bem lá no fundo de si - É um dia como outro qualquer,
não há nada que festejar! Ou então por essa ordem de ideias todos os dias
deveriam ser de celebração porque estamos vivos.
Sabia que com os
seus mais chegados tinha que ceder e estar com eles e fazer alguma coisa de diferente
para marcar o dia, mas o que mais lhe apetecia era desaparecer por 24h que
fosse, mas desaparecer! Não queria ver nem estar com ninguém. Ou que a
deixassem viver o dia como normalmente, sem mais nada. O que tinha de tão
especial o dia do aniversário? Não era um dia normal de trabalho? Não tinha que
se levantar, vestir, comer, andar…Fazer tudo o que era normal?! Então para que
tanto barulho com o dia? Ela até gostava de fazer festa para as outras pessoas,
que ligavam e davam importância ao dia de anos. Mas por favor, com ela não!
Ah se lhe fosse
possível com um estalar de dedos ficar invisível durante aquele dia! Ou se não
acordasse durante esse dia e não tivesse que agradecer os telefonemas e os
votos de muitos parabéns, muitas felicidades e anos de vida, e blablabla, bla
bla bla, blablabla! Porque não a deixavam viver o seu dia como ela queria
intimamente? Já que era o seu dia…Então não a forçassem a nada. Deixassem-na
quieta e calada no seu canto. Era só mais dia, que podia passar a arrastar sem
mais compromissos, sem ter que ser outra que não ela. Ao menos que naquele dia
não tivesse que mascarar o seu sentir!
E o dia chegou.
Acordou cedo depois de uma noite pouco dormida e mal descansada. Havia muitos
anos atrás por aquelas horas a sua mãe contava as horas para que ela viesse ao
mundo. Para a mãe acreditava era um dia de felicidade imensa – fora mãe, tinha
nos braços o fruto de um amor que duraria a vida inteira. Mas para ela … Era
mesmo um dia mais que ontem e outro menos que amanhã. Suspirando levantou-se e
foi arranjar-se para dar início ao “seu dia de anos”. Interiormente ia
martelando os neurónios com a frase – É só um dia, são só uns telefonemas, são
só provas de amizade. Agradece teres amigos e quem goste de ti e vive o mais
calma e tranquilamente estas 24h. Daqui a nada é noite, e já está!
Arranjada e
pronta olhou para o ecrã do telemóvel sobre a mesa-de-cabeceira e estranhou não
ver os flashes de entrada de mensagens e mails como era hábito. Mas não deu importância
e preparou-se para sair de casa. Uma vez na rua o ar matinal pareceu-lhe
diferente, mais perfumado, mais vibrante e com cores mais vivas. Olhou em volta
para tentar perceber o motivo da diferença. Não tinha chovido, o asfalto estava
seco, as árvores sacudiam meigamente os seus cabelos verdes e amarelados
balançando devagar e sussurrando uma melodia adocicada que a envolvia. Que
manhã linda! E como se sentia calma e quase feliz! Algo a forçou olhar para o
alto, para um céu azul sem mácula onde o sol já ia pondo tons avermelhados e
dourados. Parecia o tecto de uma catedral pintado por mãos hábeis e sábias. Era
uma aurora como havia muito tempo não presenciava. As vozes das pessoas que com
ela se cruzavam soavam amortecidas, veladas por uma campânula que não via, mas
de certa forma, sentia. Encaminhou-se para o carro com um sentimento novo a
preenche-la; Continuava a não querer celebrar este dia como sendo o do seu
aniversário! Isso não mudara! Mas pelo menos estava calma e serena, pronta a,
como sempre, aceitar e responder com a mansidão de que era feita aos votos que
em breve iam começar a chover no seu telemóvel.
sexta-feira, outubro 02, 2015
DIA DA PARTIDA
No dia em que parti, vesti-me de anil e rosa,
calcei sandálias de lírios, enfeitei-me de versos e prosa.
No dia em que parti fechei o coração a sete chaves,
cerrei janelas e portas, memórias duras ou suaves.
No dia em que parti enterrei sonhos e dores,
enterrei as minhas mágoas e todos os meus amores.
No dia em que parti deixei metade do que sou
morri e ao morrer, fui gaivota que voou.
Parti sem olhar para trás, deixei-me em cada canto,
aos poucos perdi o corpo, a alma, o rasto e o pranto.
No dia em que parti, ninguém deu porque eu partia!
Só eu sabia que ia, só eu caminhava e sorria,
só eu olhava sem ver o caminho que percorria.
Só eu trilhava descalça a estrada nua e fria.
No dia em parti, vesti-me de céus e de terra,
calcei sandálias de rosas e encetei uma nova guerra.
No dia em que parti pintei o olhar de infinito
arrumei na mala a esp’rança. Calei fundo mais um grito.
No dia em que parti ninguém soube, ninguém viu.
Atrás de mim só deixei a sombra de quem partiu.
quinta-feira, outubro 01, 2015
FAZES-ME FALTA
Olho o
céu nesta manhã de Outono para um nascer do sol rubro, vigoroso e fabulosamente
lindo, através das nuvens que a época vai trazendo. No horizonte, tingido de
vermelhos e laranjas de amarelos e alilasados, sinto a tua presença.
Espreitas-me do meio das nuvens. Desse teu novo lar onde a dor e a tristeza já
não existem. Onde a paz, a luz e a segurança são a realidade do teu dia-a-dia.
Onde vives um tempo já sem tempo, simplesmente porque atingiste a eternidade. Deixaste
na terra o teu involucro físico, como lagarta que se metamorfoseou em borboleta,
para te elevares transparente e sem peso a uma esfera silenciosa e calma. Uma esfera
que eu acredito existe e para onde vão todas as almas. Para nos verem e nos
sussurrarem as suas palavras inaudíveis, para não nos desempararem e velarem
sempre por nós que ainda caminhamos na terra. “Sinto-te” velado pela nuvem que
te esconde dos meus olhos, mas “sei” que estás do outro lado e sonho o teu
sorriso, meio tímido como sempre te conheci. Sei o frio das tuas mãos que tal
como as minhas, só aquecem se estamos doentes. Sei a tua presença que me dói
não ter deste lado da nuvem. Fazes-me falta, papá, sabes isso não sabes? Neste
capitulo eu ainda sou menina, sinto-me pequena e frágil sem o teu apoio e
presença. Tenho que decidir sem ouvir a tua opinião, sem saber o que pensas, o
que achas melhor. Mas “sinto-te” a olhar para mim desse teu lado, só não te
consigo ouvir e no entanto sei que falas comigo. Mas sabes… as nuvens são
paredes grossas, compactas, não deixam passar o som, nem a imagem. Gostava de
enterrar a cabeça na nuvem só para espreitar para o teu lado e ver que estás
bem. Que os teus achaques, dores que jamais disseste e dificuldades que eram visíveis
mas que calavas e desvalorizavas o mais que podias, agora não te martirizam e
estás de facto em paz e vives realmente na luz. Eu sei que sim, sinto que sim,
mas… O ver para crer como S. Tomé não me larga…
As
nuvens mudaram de cor porque o sol subiu no céu matinal e fresco deste Outono
em que já não estás comigo e quase diria que vislumbrei uma fugaz imagem do teu
rosto a espreitar. Sabes que eu não consigo atingir as nuvens, por isso
espreitaste tu!
Um beijo
deste lado da nuvem que é a barreira entre nós.
quinta-feira, setembro 24, 2015
ESCRAVA
Escrava do tempo e do silêncio vagueio pelas ruas da vida
procuro o chão que não tenho e o céu que já não vejo.
Agrilhoada à ausência que visto como segunda pele,
encastoo o olhar na distância que não quero percorrer.
Escrava de um sonho que foi o meu ponto de partida
palmilho descalça o trilho que é a luz do meu desejo.
Desejo que não morre ou esmorece, feito de frutos e mel
e de voz presa na garganta com palavras por dizer.
Escrava do tempo e da ausência, ao silêncio agrilhoada,
espero um tempo sem tempo, espero um amanhecer que tarda
e do qual já desespero. Espero de alma fria e calada.
Espero ... de sonhos despojada.
quinta-feira, setembro 10, 2015
VELHAS FOTOS
São imagens secas encastoadas na mortalha do tempo,
secas e dissecadas pelo bisturi aguçado da memória.
É a imortalidade presa num errático contratempo,
movimento estático captado em cada história.
História de vida ou de morte, história vivida,
história nossa, tua, dele, passada. Ou apenas vida.
São imagens desbotadas pelos estios e as invernias,
gritos calados, risos gelados na intemporalidade.
São momentos aprisionados em doces fantasias,
é suster o tempo na sua voracidade.
Fotografias perenes na moldura de uma vida
Imagens guardadas de uma história compartida.
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