
Tirei o vestido de seda, descalcei os sapatos de baile,
deixei os cabelos soltos nos ombros, lavei o rosto.
Vesti-me de nuvens e sombras, embrulhei-me no xaile
de negra noite. Tomei de um trago o vinho e o mosto
de uma vida de mentira.
Encetei nova caminhada na encruzilhada da tristeza.
Levo os pés nus de sonhos e as mãos abertas, vazias.
Cravado em mim levo o punhal da cobardia e a certeza
de nada valer, nada mais ser que imagens sombrias
numa vida de mentira.
Não me importa o sol, o vento e a chuva, ou mais um temporal!
Não me importa o que encontre porque a noite me acompanha,
é o meu vestido de luto e o meu véu intemporal.
É só mais uma estrada, um caminho que sigo como uma estranha
depois de uma vida de mentira.
Deixei o meu vestido de seda perdido no tempo passado,
vestindo-me de desilusão. Deixei os sapatos de baile abandonados
num salão frio de crueldade. Sigo de pés nus e rosto calado.
Sigo de olhos velados de lilás e negro e lábios secos, descorados
dos beijos trocados numa vida de mentira.



