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Toca um piano na brevidade esparsa da lua,
numa noite de ventos do mar.
A cada nota, uma criança de alma nua
volteia, cega e muda, errando o verbo amar.
Melopeia de embalar os sonhos jamais sonhados,
os desejos presos, toscos e inconfessados.
Toca um piano, notas soltas, na noite de espanto,
de solidão e de perdidos passos sem destino.
A música eleva-se: breve pomba de arrolhar de encanto,
ecoa, distende-se, contrai-se: negro peregrino
de passos torpes e mãos de gélidas madrugadas,
de olhos glaucos e preces breves, dilaceradas.
Toca um piano as dores de um parto ardente
e a suavidade de um amor por fazer, por crescer,
e as teclas vibram sob a pressão crescente
das mãos que acariciam as notas a nascer.
Melodia de menino de olhar triste e perdido,
que o cais vê e o mar abraça, um horizonte sem sentido.
Toca um piano pela noite de esperas, longas, frias,
e a alma embranquece, e o coração morre um pouco mais.
E a melódica harmonia eleva-se, estonteada de fantasias,
ataviada de plumas e rendas: tão oca, vazia, ébria demais.
Escondeu-se a lua, envergonhada de nudez breve,
o mar calou-se e o vento adoçou-se numa aragem leve,
e o piano chorou, o homem, sobre ele, os sonhos derramou,
entregou a alma e despiu o medo. Agarrou farrapos de vida,
fez deles um manto de negra esperança e dançou,
com asas de gaivota curiosa e pés de bailarina esquecida,
e o piano, pela noite fora, apenas soluçou as notas de um enigma.




