Há recantos por enfeitar e poeira por limpar.
Esta casa está vazia, no frio gélido do desencanto.
Abrem-se os olhos, mexem-se as mãos a esquadrinhar
os esconsos arrabaldes de uma vida sem espanto.
Toco a chuva com sonhos ávidos e lábios perdidos,
ensaio uma dança com passos líquidos, entorpecidos.
Pinto o rosto, de arlequim moribundo, enluvo a alma,
calço o coração com sapatos de penas e plumas
e visto a solidão com folhas ásperas de palma.
Pego na tela branca,
enfeito-a de auroras e brumas,
guardo, na caixa da memória, as curvas de uma estrada
que me cansei de ver, percorrer, imaginar: para nada.
Abri a casinha de chocolate, plantei o feijoeiro, calcei as
botas,
fui ao baile e não perdi o sapatinho: perdi as asas de
sonhar,
voltei ao lume e ao borralho, perdi a partitura - todas as
notas.
Compus de novo as letras, juntei todas as palavras a
arranhar
a vida, a sangrar o coração, a despir a alma em fogo gélido.
Há recantos por enfeitar e um pó aguado por limpar – fétido.
É apenas tempo de VESTIR O CORAÇÃO DE NATAL- se for
possível.





