sexta-feira, dezembro 16, 2016

VESTIR O CORAÇÃO DE NATAL...


Há recantos por enfeitar e poeira por limpar.
Esta casa está vazia, no frio gélido do desencanto.
Abrem-se os olhos, mexem-se as mãos a esquadrinhar
os esconsos arrabaldes de uma vida sem espanto.

Toco a chuva com sonhos ávidos e lábios perdidos,
ensaio uma dança com passos líquidos, entorpecidos.

Pinto o rosto, de arlequim moribundo, enluvo a alma,
calço o coração com sapatos de penas e plumas
e visto a solidão com folhas ásperas de palma.
Pego na tela branca, enfeito-a de auroras e brumas,

guardo, na caixa da memória, as curvas de uma estrada
que me cansei de ver, percorrer, imaginar: para nada.

Abri a casinha de chocolate, plantei o feijoeiro, calcei as botas,
fui ao baile e não perdi o sapatinho: perdi as asas de sonhar,
voltei ao lume e ao borralho, perdi a partitura - todas as notas.
Compus de novo as letras, juntei todas as palavras a arranhar

a vida, a sangrar o coração, a despir a alma em fogo gélido.
Há recantos por enfeitar e um pó aguado por limpar – fétido.


É apenas tempo de VESTIR O CORAÇÃO DE NATAL- se for possível.


segunda-feira, dezembro 12, 2016

CICATRIZES DE VIDA

O meu corpo é um mapa onde se lê a vida,
onde se lê cada caminho percorrido, vivido.
O meu corpo tem cicatrizes de pomba sofrida
e de anjo tombado: de um céu passado, perdido.
O meu corpo tem os rasgões de farrapo gasto
e as lantejoulas de alegrias de sabor casto.
O meu corpo é um mapa onde a alma se encontra
e o coração se esconde, e os anos se aninham sem fim.
O meu corpo tem as marcas que os gumes, sem conta,
lhe deixaram escritos - como poemas de marfim.
O meu corpo guarda as feridas sem penso nem balsamo,
sem unguento nem sutura; apenas abertas, sem cálamo.
O meu corpo tem cicatrizes de um percurso que a via abriu,
tem trilhos de história que fazem de mim - eu.
O meu corpo tem punhais cravados e estrelas que ninguém viu.
Tem cores de arco-íris e jasmins, rosas, violetas de um jardim meu.
O meu corpo tem as estradas que a vida lhe escreveu,
as memórias, os sonhos, as páginas recônditas que ninguém percorreu.
O meu corpo é um mapa de caminhos entrecortados
de esperanças truncadas, de soluços calados e alegrias passadas.
O meu corpo é um livro de capítulos enevoados
e de marcas de melodias estranhas, tortas e enviesadas.
O meu corpo é a cicatriz do tempo, das mil histórias retalhadas
que a vida lhe escreveu. O meu corpo é tabernáculo de orações soluçadas.
O meu corpo tem escrito um amor feito punhal
num sonho que soçobrou, e uma lágrima que se perdeu na eternidade,
tem um lenho que o travessa e um rio de manso caudal,
tem uma estrela que se cala no frio da crueldade.
Mas o meu corpo encerra a força de cada cicatriz magoada,
a luz de cada lua esforçada: de cada nova madrugada.
E tem páginas por escrever e sóis por amanhecer,
embora marcado - cicatrizado -, o meu corpo ainda luta,
ainda sabe caminhar e querer, ainda esgrima por sobreviver,
espera, calado, no silencio: espera em serena e leve escuta.

O meu corpo tem cicatrizes que a vida lhe traçou,
um vestido duro e belo de um percurso que passou…






sexta-feira, dezembro 09, 2016

ENIGMA

Imagem relacionada
imagem retirada da net



Toca um piano na brevidade esparsa da lua,
numa noite de ventos do mar.
A cada nota, uma criança de alma nua
volteia, cega e muda, errando o verbo amar.

Melopeia de embalar os sonhos jamais sonhados,
os desejos presos, toscos e inconfessados. 

Toca um piano, notas soltas, na noite de espanto,
de solidão e de perdidos passos sem destino.
A música eleva-se: breve pomba de arrolhar de encanto,
ecoa, distende-se, contrai-se: negro peregrino

de passos torpes e mãos de gélidas madrugadas,
de olhos glaucos e preces breves, dilaceradas.

Toca um piano as dores de um parto ardente
e a suavidade de um amor por fazer, por crescer,
e as teclas vibram sob a pressão crescente
das mãos que acariciam as notas a nascer.

Melodia de menino de olhar triste e perdido,
que o cais vê e o mar abraça, um horizonte sem sentido.

Toca um piano pela noite de esperas, longas, frias,
e a alma embranquece, e o coração morre um pouco mais.
E a melódica harmonia eleva-se, estonteada de fantasias,
ataviada de plumas e rendas: tão oca, vazia, ébria demais.

Escondeu-se a lua, envergonhada de nudez breve,
o mar calou-se e o vento adoçou-se numa aragem leve,

e o piano chorou, o homem, sobre ele, os sonhos derramou,
entregou a alma e despiu o medo. Agarrou farrapos de vida,
fez deles um manto de negra esperança e dançou,
com asas de gaivota curiosa e pés de bailarina esquecida,

e o piano, pela noite fora, apenas soluçou as notas de um enigma.



sexta-feira, novembro 25, 2016

SETE...SETE SORTILÉGIOS MANSOS..



Sete páginas por escrever e sete sonhos por sonhar,
sete anjos por encontrar e sete luas por enfeitar.
Sete sortilégios de amor e sete ondas por alcançar.
Sete sóis, dentro de sete estrelas, e sete lágrimas a derramar.

São sete os anéis de fogo e sete os vulcões adormecidos,
sete são as lagoas e sete as purpúreas auroras.
São sete os suspiros abandonados e despidos
em sete almofadas de cetim, perdidas em nebulosas horas.

Sete, as cores das dores de amor e sete são os pecados mortais,
onde me perco e me encontro. De que me visto e enfeito.
Sete flores por florir e sete manhãs por nascer. Sete olhares leais.
 E são sete as setas cravadas, amargamente, no peito.

Sete são as capas vermelhas, rubras de amargor e desencanto,
sete são meus nascimentos e sete serão minhas mortes.
Serão sete os meus delírios e as dobras do meu manto,
e mais sete hinos de agonia divididos por mil sortes.

Serão sete anéis de compromisso com orvalhos matinais,
e sete noivas enfeitadas com sete diademas de ouro.
Serão sete sapatinhos de cristal quebrados em vazio cais.
Sete anjos secam lágrimas – pérolas de um qualquer tesouro.

Sete páginas repletas de sortilégios mansos em sete marés de ternura.
Serão sete as manhãs de Outono e sete as noites de invernia.
Sete palavras de dor, sete beijos de amargura.
Vão ser sete as ninfas cantando em dulcíssima maresia.


 Venham sete barcas de Caronte! Venham sete trovões de alquimia.
Venham brados, venham sonhos, em amanheceres de poesia.

créditos tribodosgoticos.com




domingo, novembro 20, 2016

ONDE HABITAM OS ANJOS....



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"No sexto nível do céu, onde habitam os anjos",
Para lá do infinito, e do finito, desta terra,
onde os abismos são grifos de negras penas,
e os olhos se perdem do horizonte.
Para cá do principio e do fim de uma guerra,
onde as vidas se perdem, ou ganham, serenas.
E as mãos, abertas, vazias, constroem a ponte,
por onde o sonho vai passar,
por onde a dor vai desfilar.

"No sexto nível do céu, onde habitam aos anjos".
Debaixo da noite e sobre o dia, nas mãos das estrelas,
nas asas do desejo e no chão dos desencontros,
nas gargantas mudas de mágoa.
No fundo dos mares, entre naufrágios e querelas,
entre tesouros e medos, entre perdas e reencontros.
Na estiagem de cada suspiro, no acender de cada frágua.
Debaixo da terra e dos céus,
envolto em neblinas e véus.

"No sexto nível do céu, onde habitam os anjos".
Há sois que não se deitam e luas de eterna luz,
há sorrisos, que os anjos guardam, e sonhos que não morrem.
Há uma insana esperança férrea,
que pontua a vida dos homens que carregam a sua cruz.
Há uma estrela, que os anjos cuidam, e águas frescas que correm
como corsa em campo aberto, livre...etérea.

"No sexto nível do céu, onde habitam os anjos"... Será?



terça-feira, novembro 08, 2016

OS NOMES QUE TENHO...






Os nomes que tenho deu-mos a vida;

Baptizou-me: Mulher e deu-me um coração amante.
Baptizou-me: Sonhadora e deu-me uma alma errante.
Baptizou-me: Criança e vestiu-me de alegrias.
Baptizou-me: Sonho enfeitou-me de fantasias,
fez delas o meu magistério.

Os nomes que tenho deu-mos a vida;

Baptizou-me: Mar e encheu-me de esperanças.
Baptizou-me: Nuvem enfeitando de lembranças.
Baptizou-me: Brisa e fez-me voar para longe.
Baptizou-me: Névoa e fez-me segredos de monge,
em árido ermitério.

Os nomes que tenho deu-mos a vida;

Baptizou-me: Tristeza vestindo-me de negra dor.
Baptizou-me: Mágoa estampada em tela sem cor.
Baptizou-me: Noite esperando por uma nova manhã.
Baptizou-me: Esperança acreditando no amanhã,
e em todo o seu mistério.

Todos os nomes que tenho foi a vida que mos deu.
Mas apenas um se destaca: aquele com que assino,
aquele que me define, aquele que sou mais EU.
O que me rege olhar, o que me rege o destino;

O meu nome : MULHER


quarta-feira, novembro 02, 2016

MULHER TERRA...POR NAVEGAR





imagem: espacoalpha


Mulher terra: teu corpo amortalhado de invernia
guarda cioso as sementes dos Verões por nascer
e as chuvas que choram ensopando a cercania,
os prados e os campos que o sol fará florescer.
Mulher terra: trazes no ventre a esperança,
nas mãos passam as contas do teu rosário de dor.
E nos olhos, que o mar alcança, pedes a temperança,
rezas a inclemência, semeias trabalho e amor.
Mulher terra: teus pés são gaivotas sem dono nem chão,
e teus olhos são lagoas por onde adormece o Verão.
Mulher terra: teus seios – uvas doces – intocados de solidão,
teus cabelos as raízes que dão vida e perdão.
Mulher terra: sofrida de tanto penar, orar, esperar,
és pedaço de solo fértil que mãos duras não sabem arrotear,
nem arados, nem foices, nem enxadas sabem onde começar,
porque tu, Mulher terra, não tens principio nem fim para mostrar.
Mulher terra: confundes-te com o solo e as plantas a crescer,
mas és também onda azul a rebentar: gaivota breve fugidia,
és o tudo e o nada que na lava veio lutar e veio morrer.
És a hortênsia que teima em ser flor, embora singela e tardia.
Mulher terra: soluças como a terra em convulsão,
amas como se não houvesse mais perdão,
dás teu corpo às intempéries para que nasça o pão.
És somente Mulher terra enfeitada de azul, verde e carvão.
Mulher terra: porque choras? Por que lágrimas te perdeste?
Por que rios te esvaíste e por que mares navegaste?
Que gaivotas e milhafres teus olhos guardaram no muito que já viveste?
Quantos barcos e arpões arremessaste? E que pão do diabo já amassaste?
Mulher terra: somente mulher, deitaste raízes profundas, cravadas em solo duro,
bebendo das águas da pobreza, das privações e da luta.
Mulher terra: que és semente, és flor, és mar, és suporte de amor puro
de beleza sem igual. Um dia o teu corpo, em eterna escuta,
vai saber ser nuvem, ser margem, ser casca de noz arrojada…vai  apenas navegar.


SAUDADES....

Saudades! Um sentimento agridoce que marca, que assola com a força de um vulcão. Saudades! Sentimos do que foi bom; abar...