Um local tranquilo onde os raios de lua, feitos palavras, lançam feitiços e enxugam lágrimas
quinta-feira, dezembro 29, 2016
ATAVIADO TEMPO SEM TEMPO.
O tempo corre, ataviado, em egoísmos e desamores,
em negras tintas de um carvão chinês - ancião - selecto.
O tempo corre: vá lá saber-se para onde - corre - escoa-se,
perde-se, ganha-se, esvai-se, mata-se, descobre-se, enevoa-se.
O tempo corre - nos Invernos frios -, nas manhãs sem alvores
e nos ocasos infectados de alaranjado deserto.
A vida dedilha-se num fado sem som, em garganta cristalina,
e caminha-se: com pés de anjo, com penas de andorinha,
com olhos de garça e corpo de diletante golfinho.
A vida bebe-se e come-se - pão e água: pão e vinho;
E embriaga-se numa miragem, qual pendente de opalina,
a vida rompe-se, como véu de noiva, como nuvens de morrinha.
O tempo passa, passando a despassar, arrastando as estrelas - o mar.
O tempo voa: gaivota cega de amor, derrubado em extinto vulcão.
Grita e agita-se, como víbora, hiante, de insano veneno,
como olhar saudoso, aguado, nas dobras deste sereno.
O tempo rasteja: encolhe-se, distende-se; Cresce no luar.
Agita-se, revolta-se; A vida faz-se VIDA no vento suão.
O tempo corre - com o diabo no ventre - e o fogo nas mãos
nuas de desencanto. Vazias de sal e lágrimas - ocas, vãs.
O tempo corre, como pincel em mãos de poeta,
como risos em madrugada encoberta,
como voos rasantes de milhafres pagãos.
O tempo corre em direcção ao futuro, numa rumba de titãs.
O tempo corre... O tempo esvai-se ... O tempo morre.
terça-feira, dezembro 20, 2016
TALVEZ O "MEU" NATAL...
Hoje não vou procurar rimas nem encontros de palavras,
não vou querer poetar em termos de poeta - tonto de esperar.
Não! Hoje vou deixar que o meu corpo e alma falem, devagar.
Quero sentar-me ao frio matinal e olhar o céu - azul gelado -,
e vou vestir-me de nuvens brancas, rosadas: de vento Russo,
de sol brilhante, de olor de marés algadas de sal e vida.
Hoje deixo que o mundo me faça ponto de partida!
Hoje deixo a vida tomar conta de mim!
O caminho é para a frente, seguindo os meus pés alados
de esperança. Seguindo os meus olhos pintados de luz.
O medo, a solidão, a distância ficaram dobrados aos pés de uma cruz.
E de novo a Estrela risca o céu - o meu - e indica o caminho,
chega de manso um doce enlevo, uma carícia: calor invisível;
Um calor que atavia a pele, que embandeira a alma - caída.
Hoje empurro a tristeza para a nebulosa saída.
Hoje eu não sou eu: nem sei quem sou - não importa!
Hoje não quero ser nada, nem ninguém: somente uma pena,
uma bola de sabão. Uma agulha de pinheiro, ou uma rena...
Hoje sou o que o vento me fizer.
Hoje sou o que o sol me emprestar.
Hoje sou o Tudo e o Nada: o principio e o fim,
hoje... Quero apenas sentir esta PAZ em mim.
Hoje fez-se Natal - simples, despido, puro - o "meu" Natal, assim.
Feliz, Suave e Pacífico Natal
sexta-feira, dezembro 16, 2016
VESTIR O CORAÇÃO DE NATAL...
Há recantos por enfeitar e poeira por limpar.
Esta casa está vazia, no frio gélido do desencanto.
Abrem-se os olhos, mexem-se as mãos a esquadrinhar
os esconsos arrabaldes de uma vida sem espanto.
Toco a chuva com sonhos ávidos e lábios perdidos,
ensaio uma dança com passos líquidos, entorpecidos.
Pinto o rosto, de arlequim moribundo, enluvo a alma,
calço o coração com sapatos de penas e plumas
e visto a solidão com folhas ásperas de palma.
Pego na tela branca,
enfeito-a de auroras e brumas,
guardo, na caixa da memória, as curvas de uma estrada
que me cansei de ver, percorrer, imaginar: para nada.
Abri a casinha de chocolate, plantei o feijoeiro, calcei as
botas,
fui ao baile e não perdi o sapatinho: perdi as asas de
sonhar,
voltei ao lume e ao borralho, perdi a partitura - todas as
notas.
Compus de novo as letras, juntei todas as palavras a
arranhar
a vida, a sangrar o coração, a despir a alma em fogo gélido.
Há recantos por enfeitar e um pó aguado por limpar – fétido.
É apenas tempo de VESTIR O CORAÇÃO DE NATAL- se for
possível.
segunda-feira, dezembro 12, 2016
CICATRIZES DE VIDA
O meu corpo é um mapa onde se lê a vida,
onde se lê cada caminho percorrido, vivido.
O meu corpo tem cicatrizes de pomba sofrida
e de anjo tombado: de um céu passado, perdido.
O meu corpo tem os rasgões de farrapo gasto
e as lantejoulas de alegrias de sabor casto.
O meu corpo é um mapa onde a alma se encontra
e o coração se esconde, e os anos se aninham sem fim.
O meu corpo tem as marcas que os gumes, sem conta,
lhe deixaram escritos - como poemas de marfim.
O meu corpo guarda as feridas sem penso nem balsamo,
sem unguento nem sutura; apenas abertas, sem cálamo.
O meu corpo tem cicatrizes de um percurso que a via abriu,
tem trilhos de história que fazem de mim - eu.
O meu corpo tem punhais cravados e estrelas que ninguém viu.
Tem cores de arco-íris e jasmins, rosas, violetas de um
jardim meu.
O meu corpo tem as estradas que a vida lhe escreveu,
as memórias, os sonhos, as páginas recônditas que ninguém percorreu.
O meu corpo é um mapa de caminhos entrecortados
de esperanças truncadas, de soluços calados e alegrias
passadas.
O meu corpo é um livro de capítulos enevoados
e de marcas de melodias estranhas, tortas e enviesadas.
O meu corpo é a cicatriz do tempo, das mil histórias
retalhadas
que a vida lhe escreveu. O meu corpo é tabernáculo de
orações soluçadas.
O meu corpo tem escrito um amor feito punhal
num sonho que soçobrou, e uma lágrima que se perdeu na
eternidade,
tem um lenho que o travessa e um rio de manso caudal,
tem uma estrela que se cala no frio da crueldade.
Mas o meu corpo encerra a força de cada cicatriz magoada,
a luz de cada lua esforçada: de cada nova madrugada.
E tem páginas por escrever e sóis por amanhecer,
embora marcado - cicatrizado -, o meu corpo ainda luta,
ainda sabe caminhar e querer, ainda esgrima por sobreviver,
espera, calado, no silencio: espera em serena e leve escuta.
O meu corpo tem cicatrizes que a vida lhe traçou,
um vestido duro e belo de um percurso que passou…
sexta-feira, dezembro 09, 2016
ENIGMA
| imagem retirada da net |
Toca um piano na brevidade esparsa da lua,
numa noite de ventos do mar.
A cada nota, uma criança de alma nua
volteia, cega e muda, errando o verbo amar.
Melopeia de embalar os sonhos jamais sonhados,
os desejos presos, toscos e inconfessados.
Toca um piano, notas soltas, na noite de espanto,
de solidão e de perdidos passos sem destino.
A música eleva-se: breve pomba de arrolhar de encanto,
ecoa, distende-se, contrai-se: negro peregrino
de passos torpes e mãos de gélidas madrugadas,
de olhos glaucos e preces breves, dilaceradas.
Toca um piano as dores de um parto ardente
e a suavidade de um amor por fazer, por crescer,
e as teclas vibram sob a pressão crescente
das mãos que acariciam as notas a nascer.
Melodia de menino de olhar triste e perdido,
que o cais vê e o mar abraça, um horizonte sem sentido.
Toca um piano pela noite de esperas, longas, frias,
e a alma embranquece, e o coração morre um pouco mais.
E a melódica harmonia eleva-se, estonteada de fantasias,
ataviada de plumas e rendas: tão oca, vazia, ébria demais.
Escondeu-se a lua, envergonhada de nudez breve,
o mar calou-se e o vento adoçou-se numa aragem leve,
e o piano chorou, o homem, sobre ele, os sonhos derramou,
entregou a alma e despiu o medo. Agarrou farrapos de vida,
fez deles um manto de negra esperança e dançou,
com asas de gaivota curiosa e pés de bailarina esquecida,
e o piano, pela noite fora, apenas soluçou as notas de um enigma.
sexta-feira, novembro 25, 2016
SETE...SETE SORTILÉGIOS MANSOS..
Sete páginas por escrever e sete sonhos por sonhar,
sete anjos por encontrar e sete luas por enfeitar.
Sete sortilégios de amor e sete ondas por alcançar.
Sete sóis, dentro de sete estrelas, e sete lágrimas a
derramar.
São sete os anéis de fogo e sete os vulcões adormecidos,
sete são as lagoas e sete as purpúreas auroras.
São sete os suspiros abandonados e despidos
em sete almofadas de cetim, perdidas em nebulosas horas.
Sete, as cores das dores de amor e sete são os pecados
mortais,
onde me perco e me encontro. De que me visto e enfeito.
Sete flores por florir e sete manhãs por nascer. Sete
olhares leais.
E são sete as setas cravadas, amargamente, no peito.
Sete são as capas vermelhas, rubras de amargor e desencanto,
sete são meus nascimentos e sete serão minhas mortes.
Serão sete os meus delírios e as dobras do meu manto,
e mais sete hinos de agonia divididos por mil sortes.
Serão sete anéis de compromisso com orvalhos matinais,
e sete noivas enfeitadas com sete diademas de ouro.
Serão sete sapatinhos de cristal quebrados em vazio cais.
Sete anjos secam lágrimas – pérolas de um qualquer tesouro.
Sete páginas repletas de sortilégios mansos em sete marés de
ternura.
Serão sete as manhãs de Outono e sete as noites de invernia.
Sete palavras de dor, sete beijos de amargura.
Vão ser sete as ninfas cantando em dulcíssima maresia.
Venham sete barcas de
Caronte! Venham sete trovões de alquimia.
Venham brados, venham sonhos, em amanheceres de poesia.![]() |
| créditos tribodosgoticos.com |
domingo, novembro 20, 2016
ONDE HABITAM OS ANJOS....

"No sexto nível do céu, onde habitam os anjos",
Para lá do infinito, e do finito, desta terra,
onde os abismos são grifos de negras penas,
e os olhos se perdem do horizonte.
Para cá do principio e do fim de uma guerra,
onde as vidas se perdem, ou ganham, serenas.
E as mãos, abertas, vazias, constroem a ponte,
por onde o sonho vai passar,
por onde a dor vai desfilar.
"No sexto nível do céu, onde habitam aos anjos".
Debaixo da noite e sobre o dia, nas mãos das estrelas,
nas asas do desejo e no chão dos desencontros,
nas gargantas mudas de mágoa.
No fundo dos mares, entre naufrágios e querelas,
entre tesouros e medos, entre perdas e reencontros.
Na estiagem de cada suspiro, no acender de cada frágua.
Debaixo da terra e dos céus,
envolto em neblinas e véus.
"No sexto nível do céu, onde habitam os anjos".
Há sois que não se deitam e luas de eterna luz,
há sorrisos, que os anjos guardam, e sonhos que não morrem.
Há uma insana esperança férrea,
que pontua a vida dos homens que carregam a sua cruz.
Há uma estrela, que os anjos cuidam, e águas frescas que correm
como corsa em campo aberto, livre...etérea.
"No sexto nível do céu, onde habitam os anjos"... Será?
Subscrever:
Mensagens (Atom)
SAUDADES....
Saudades! Um sentimento agridoce que marca, que assola com a força de um vulcão. Saudades! Sentimos do que foi bom; abar...
-
Meu amor…. Há quanto tempo te ausentaste? Uma hora, um dia, um mês….Não sei dizer-te porque me parece que partiste há uma eternidade. A casa...
-
Foto de CARLOS ROLO Encaneci nas esperas de verdes vestidas, verguei o corpo, outrora esbelto, desfaleci. Ao vento soltei os cab...
-
Imagem retirada da net Subi ao eterno para te contemplar, das etéreas nuvens, beijar a sombra que em mim ficou. Subi ao mais...



