domingo, janeiro 01, 2017

CARTA A UM ALGUÉM III


Terras de Prata



Minha sombra de alguém, o tempo passa, o tempo corre - e morre - e ressuscita num novo dia; Este dia. Dedilhei as horas e penteei os verdes prados, embalei mares de cobalto nos meus braços de satélite da vida. Gravitei pelo dia: que não para. Saltei barreiras de interrogações e certezas só para estar contigo - sombra de alguém. A noite cai, mais uma noite de mantos de veludo, a arrastar uma cauda de estrelas: cadentes, incandescentes. Só mais uma noite.
E tu continuas o teu caminho de sombra, não sei se paralelo ao meu. Não sei se cruzando o meu. No fundo nada sei de ti, minha sombra de alguém, sei apenas o que sinto se te penso; Sei apenas o que sonho, se te sonho - o que me invade - se te procuro. E hoje procuro-te, sabes? Procuro-te no ténue cair do dia, quando se desdobram as sombras e as penumbras, quando os pintores posam os pincéis e embrulham as tintas. Procuro-te na brisa que escorre da serra e se amadurece no mar. Procuro-te nas palavras - na melodia de cada uma delas -, nas imagens, nas luzes que acordam nas ruas, nos lares, no céu. Sim, procuro-te neste final de dia - já é noite - e não te sinto. Não te vejo: não te toco, nem a tua afável sombra me segue, nem se prende nos meus passos. Desapareceste - sombra de alguém.
A noite agigantou-se no tempo, as doze badaladas estão prestes a soar. Há no ar um vazio de vida, um vazio de palavras, de cores, de mundo. Onde estás sombra de alguém? Foste para o teu secreto espaço, onde só as sombras habitam? Foste ver o ano passar lá para o alto, bem perto do céu? Onde podes ver o mundo a teus pés - sem te sujares nas humanas figuras. Fico a sentir as horas passarem...

7...6...5....4...3...2...1....... Saltamos o ano.

Sombra de alguém - onde quer que estejas - que tenhas um novo ano de paz; Mesmo que a tua companhia não se faça sentir em mim, no meu prateado e espinhoso caminho. Mesmo que o teu sombreado toque não me toque mais, nem o teu perfume de escuro me inunde mais. Ainda que não seja mais capaz de pintar telas de sonhos com as cores com que me preenches a vida, desejo-te um ANO bem NOVO. Porque os Natais e Anos Novos da vida são aquilo que nós quisermos que sejam.

Feliz Ano Novo minha querida sombra de alguém.




CARTA A UM ALGUÉM - II



Terras de Prata



Neste meu chão de espinhos prateados fiz nascer um sacerdotal sentimento - pulcro - para ti: minha etérea sombra de alguém. Sentei-me nos esconsos de um ribeiro de águas sonhadas, mergulhei na magia do micro segundo que media o suspiro entre o dia e a noite. Toquei-te! Toquei-te com o escorregar dos dedos: aflorei o contorno, negro, da tua figura - feita presença - ao meu lado. Tu sorriste: do âmago do teu encarvoado aspecto.; Sabes? o teu sorriso penetrou a minh'alma, borboletou o meu coração. Fizeste o dia nascer - de novo - no fusco dos pirilampos.

Tens magia no teu silencio ululante, tens luz na tua escurecida silhueta, tens ritmo sinusal a elevar-se na natureza que se despe para dormir.Tens o poder de me prender ao suspiro das borboletas, estonteadas, de luz. Tens nas mãos - que não conheço - o calor que pões nas minhas: geladas de esperar, de te esperar. E no entanto, aí estás tu: sombra amada de alguém, a projectar-te sobre mim, a capear-me o corpo, como se me quisesses possuir; A inundar-me a alma, como se a quisesses sugar. Aí estás tu; Imensa, imersa, eterna e suavemente presente. Estendo a mão, devagar, não te quero assustar: não te quero longe, preciso de te ter ao lado, ao alcance da mão. E, sabes? Hoje tu ficaste; Sossegadamente ao meu lado, invadindo-me com a tua sombra: sabes bem. Tens tons de luar e algas, misturado com alfazema e mel. Sabes a liquido e a terreno - sabes a vida.

Escrevo-te, minha sombra de alguém, relembrando os hidrofóbicos instantes em que te derreteste no meu corpo, em que decompuseste o orvalho de uma incógnita lagoa, bordada de estrelas e embalada de luar. Escrevo-te: porque não te posso falar....


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CARTA A UM ALGUÉM - I



Terras de Prata



   No meu chão há espinhos de prata e frutos de um dourado rubro, em campos a perder de vista, a perder o pé. O campo estende-se - como lençol em cama nubente - em tons de água chovida de um céu cor de anjos. As fragrâncias doces e finas - jóias de artesão -  rodopiam em terno e cadenciado turbilhão. No meu chão há pétalas de rubis e diamantes: negros, como noites sem luar. Há risos que sobrevoam, rasantes, os pezinhos das fadas transparentes. No meu chão há a sombra de um alguém.

   A vida arqueja coxeante, dia-a-dia: noite-a-noite, como raposa delapidada, como gaivota arroteada em terras de nunca mais. Tudo cresce, tudo floresce e enrubesce - tudo muda - menos tu: minha sombra de alguém; Tu caminhas comigo - silenciosa -, arroxeada e encastoada de espanto. Onde eu pisar, pisarás tu também. Sento-me à sombra das faias - desdentadas de invernia - e escrevo-te.
Dedilho palavras sobre o papel como se esgravatasse as teclas de um piano. Oh minha sombra de alguém: saberás tu, porventura, o que vulcaneja no meu peito sempre que o teu rumor contrastante se projecta no meu caminho? Saberás tu, quem me dera, as golfadas de amor  que reprimo - amordaço -, ao procurar-te neste meu chão de argênteos espinhos? Não - não sabes-, não podes.
Busco-te nas esquadrias matinais pintadas de carmim e ouro. Prendo o teu reflexo nos baixios da queda do sol a cada noite. Aso a minha alma sempre que a tua mão roça - breve - como penugem de pomba peregrina, os  meus olhos vazios, o meu rosto deserdado. Suspiro pelo toque da tua mão - de sombra de alguém -, na minha, de maré vazante. E escrevo, escrevo pelas horas e pelos vazios, a preencher os ocasos onde te perco: sombra minha. E escrevo, escrevo - poemas e prosas - inventando mares para descobrir, leitos de mel e rosas para te desfrutar - para me rendilhar -, para nos fundir. Escrevo cada palavra que se cola aos lábios, murchos de tanto guardar, cada tela que idealizo, projectada nos meus céus de véus velados.

   Aos meus pés permanece o caminho de espinhos prateados, e nas árvores ainda pendem os cobiçados, frutos de rubro dourado - agrestes de solidão - desidratados de amor, ácidos de (des)carinho. encolhidos de solidão. Hoje - sombra de alguém- não te procurei. Tu estás: sempre, escondido num tronco, olhando para mim - de longe - espiando, guardando, velando; Paternal sombra. Sinto a tua presença, mansa como maré vazante, suave como berço de ternura - em braços maternais. O teu perfume engole o espaço entre o tu e o eu - vem como brisa -, como orvalho salgado de um mar profundo inebriado, e veste-me o corpo, enfeita-me a alma, acelera o coração. 
Diz-me, sombra de alguém - é assim que fazes amor? É assim que amas, que profanas, que devoras e te deleitas? 

   No meu chão continuam espinhos de prata e frutos de um dourado rubro em campos a perder o pé.....



Folha, Outono, Sunrise, Hora De Ouro



quinta-feira, dezembro 29, 2016

ATAVIADO TEMPO SEM TEMPO.


O tempo corre, ataviado, em egoísmos e desamores,
em negras tintas de um carvão chinês - ancião - selecto.
O tempo corre: vá lá saber-se para onde - corre - escoa-se,
perde-se, ganha-se, esvai-se, mata-se, descobre-se, enevoa-se.
O tempo corre - nos Invernos frios -, nas manhãs sem alvores
e nos ocasos infectados de alaranjado deserto.
A vida dedilha-se num fado sem som, em garganta cristalina,
e caminha-se: com pés de anjo, com penas de andorinha,
com olhos de garça e corpo de diletante golfinho.
A vida bebe-se e come-se - pão e água: pão e vinho;
E embriaga-se numa miragem, qual pendente de opalina,
a vida rompe-se, como véu de noiva, como nuvens de morrinha.
O tempo passa, passando a despassar, arrastando as estrelas - o mar.
O tempo voa: gaivota cega de amor, derrubado em extinto vulcão.
Grita e agita-se, como víbora, hiante, de insano veneno,
como olhar saudoso, aguado, nas dobras deste sereno.
O tempo rasteja: encolhe-se, distende-se; Cresce no luar.
Agita-se, revolta-se; A vida faz-se VIDA no vento suão.
O tempo corre - com o diabo no ventre - e o fogo nas mãos
nuas de desencanto. Vazias de sal e lágrimas - ocas, vãs.
O tempo corre, como pincel em mãos de poeta,
como risos em madrugada encoberta, 
como voos rasantes de milhafres pagãos.
O tempo corre em direcção ao futuro, numa rumba de titãs.

O tempo corre... O tempo esvai-se ... O tempo morre.





terça-feira, dezembro 20, 2016

TALVEZ O "MEU" NATAL...












Hoje não vou procurar rimas nem encontros de palavras,
não vou querer poetar em termos de poeta - tonto de esperar.
Não! Hoje vou deixar que o meu corpo e alma falem, devagar.
Quero sentar-me ao frio matinal e olhar o céu - azul gelado -,
e vou vestir-me de nuvens brancas, rosadas: de vento Russo,
de sol brilhante, de olor de marés algadas de sal e vida.
Hoje deixo que o mundo me faça ponto de partida!

Hoje deixo a vida tomar conta de mim!
O caminho é para a frente, seguindo os meus pés alados
de esperança. Seguindo os meus olhos pintados de luz.
O medo, a solidão, a distância ficaram dobrados aos pés de uma cruz.
E de novo a Estrela risca o céu - o meu - e indica o caminho,
chega de manso um doce enlevo, uma carícia: calor invisível;
Um calor que atavia a pele, que embandeira a alma - caída.
Hoje empurro a tristeza para a nebulosa saída.

Hoje eu não sou eu: nem sei quem sou - não importa!
Hoje não quero ser nada, nem ninguém: somente uma pena,
uma bola de sabão. Uma agulha de pinheiro, ou uma rena...
Hoje sou o que o vento me fizer.
Hoje sou o que o sol me emprestar.
Hoje sou o Tudo e o Nada: o principio e o fim,
hoje... Quero apenas sentir esta PAZ em mim.

Hoje fez-se Natal - simples, despido, puro - o "meu" Natal, assim.


Feliz, Suave e Pacífico Natal

sexta-feira, dezembro 16, 2016

VESTIR O CORAÇÃO DE NATAL...


Há recantos por enfeitar e poeira por limpar.
Esta casa está vazia, no frio gélido do desencanto.
Abrem-se os olhos, mexem-se as mãos a esquadrinhar
os esconsos arrabaldes de uma vida sem espanto.

Toco a chuva com sonhos ávidos e lábios perdidos,
ensaio uma dança com passos líquidos, entorpecidos.

Pinto o rosto, de arlequim moribundo, enluvo a alma,
calço o coração com sapatos de penas e plumas
e visto a solidão com folhas ásperas de palma.
Pego na tela branca, enfeito-a de auroras e brumas,

guardo, na caixa da memória, as curvas de uma estrada
que me cansei de ver, percorrer, imaginar: para nada.

Abri a casinha de chocolate, plantei o feijoeiro, calcei as botas,
fui ao baile e não perdi o sapatinho: perdi as asas de sonhar,
voltei ao lume e ao borralho, perdi a partitura - todas as notas.
Compus de novo as letras, juntei todas as palavras a arranhar

a vida, a sangrar o coração, a despir a alma em fogo gélido.
Há recantos por enfeitar e um pó aguado por limpar – fétido.


É apenas tempo de VESTIR O CORAÇÃO DE NATAL- se for possível.


segunda-feira, dezembro 12, 2016

CICATRIZES DE VIDA

O meu corpo é um mapa onde se lê a vida,
onde se lê cada caminho percorrido, vivido.
O meu corpo tem cicatrizes de pomba sofrida
e de anjo tombado: de um céu passado, perdido.
O meu corpo tem os rasgões de farrapo gasto
e as lantejoulas de alegrias de sabor casto.
O meu corpo é um mapa onde a alma se encontra
e o coração se esconde, e os anos se aninham sem fim.
O meu corpo tem as marcas que os gumes, sem conta,
lhe deixaram escritos - como poemas de marfim.
O meu corpo guarda as feridas sem penso nem balsamo,
sem unguento nem sutura; apenas abertas, sem cálamo.
O meu corpo tem cicatrizes de um percurso que a via abriu,
tem trilhos de história que fazem de mim - eu.
O meu corpo tem punhais cravados e estrelas que ninguém viu.
Tem cores de arco-íris e jasmins, rosas, violetas de um jardim meu.
O meu corpo tem as estradas que a vida lhe escreveu,
as memórias, os sonhos, as páginas recônditas que ninguém percorreu.
O meu corpo é um mapa de caminhos entrecortados
de esperanças truncadas, de soluços calados e alegrias passadas.
O meu corpo é um livro de capítulos enevoados
e de marcas de melodias estranhas, tortas e enviesadas.
O meu corpo é a cicatriz do tempo, das mil histórias retalhadas
que a vida lhe escreveu. O meu corpo é tabernáculo de orações soluçadas.
O meu corpo tem escrito um amor feito punhal
num sonho que soçobrou, e uma lágrima que se perdeu na eternidade,
tem um lenho que o travessa e um rio de manso caudal,
tem uma estrela que se cala no frio da crueldade.
Mas o meu corpo encerra a força de cada cicatriz magoada,
a luz de cada lua esforçada: de cada nova madrugada.
E tem páginas por escrever e sóis por amanhecer,
embora marcado - cicatrizado -, o meu corpo ainda luta,
ainda sabe caminhar e querer, ainda esgrima por sobreviver,
espera, calado, no silencio: espera em serena e leve escuta.

O meu corpo tem cicatrizes que a vida lhe traçou,
um vestido duro e belo de um percurso que passou…






SOMBRA DE AVES

Na sonoridade de um raio de luar, onde habitam os sonhos e telas inacabadas que um pintor abandonou, desenha-se uma me...