segunda-feira, maio 29, 2017

ESFUMADO CORAÇÃO




Pedi as asas a um anjo: ele permitiu que as usasse.
Dei-as ao meu coração para que crescesse e voasse.
E ele, simplesmente, voou.

Pedi o olhar, puro, de uma criança: ela deu-mo com ternura.
Dei-o ao meu coração para que visse o mundo com candura,
e ele viu e se encantou.

Quis ter um coração de carne, amante, bom, sem mácula,
e dei-lhe o que de melhor havia em mim; dei-lhe forma e cor,
dei-lhe luz, dei-lhe o sentir, dei-lhe força e entrega sem limites.
Não esperava que o enchessem de dor, de cinzas e mágoa.
Acreditei que ele viveria, apenas e só, de e por amor.
Hoje, coração, ainda bates, ainda sonhas, mas mal existes.

Pedi as asas e os olhos: pedi uma utopia aos céus,
ingénua menina! Eterna sonhadora – pecados meus.
Crédulo um coração que não conhece a ira.

Para quê amar sem barreiras, sem limites: totalmente?
Por quê perder por amor quando se quer permanecer, somente?
Arde coração! Esfuma-te, dissolve-te nessa dura pira

da indiferença e do silêncio.

imagem retirada da net


lágrimas de lua

quinta-feira, maio 25, 2017

NOVA HORA, NOVA ESTRADA





É hora de virar a página, de escrever outras letras,
compor uma nova melodia. É hora de recomeço.
É hora de sacudir o pó dos pés, e o sonho que adormeço
embalado num coração desfeito.
É hora de olhar mais à frente, de querer o mais além,
de ter um novo sonho, talvez louco, talvez perfeito,
quem sabe apenas um sonho de ainda ser alguém.
É hora de virar a página, de escrever outras letras,
de ouvir uma nova canção, de dançar uma polca viva.




É hora de me enfeitar com asas de fada, e uma grinalda festiva,
de apagar os negros traços.
É hora de viver as novas horas, de inventar novos minutos
onde se perde o pé, e o coração, em amplos e brilhantes espaços.
Rasgar novos horizontes sem ter que pagar mais tributos.
É hora de virar a página, de escrever outras letras,
de mergulhar em novos mares, afoitar novas marés.
De limpar mágoas e dores, de esquecer cada revés.
É hora de virar a página… Não! É hora de fechar este livro,

e abrir uma janela de luz.


lágrimas de lua


sexta-feira, maio 19, 2017

UM ESPINHO CRAVADO




Porque são tão complicados os corações, pai?
Porque são tão duros os sentimentos mais doces?
Fazer o caminho com um espinho cravado que não sai,
é um travo amargo demais. Sem um gesto que esboce
a mais leve sensibilidade,
a mais simples humanidade.

Diz-me, pai, porque é tão dura a vida? Porquê?
Seguir em frente amordaçando o coração no peito,
calando, sufocando um mundo rico que não se vê.
Apenas para que se cumpra uma "ordem", um preceito.
Uma intransigência, 
uma incongruência.

Porque são tão complicados os corações, pai?
Não sei, minha filha, talvez por serem humanos - de carne.... 






lágrimas de lua

sexta-feira, maio 05, 2017

SE O AMOR NOS DEFINE....




É o amor que nos define, doendo e sofrido;
o amor dado e o amor recebido.
Não é a fama, não é o dinheiro, nem a posse;
é o amor que nos define, mesmo se for precoce,
mesmo se for serôdio, mesmo que por metade.
É o amor que nos define: um amor sem idade,
sem barreiras – amor por amor -, sem mais nada,
sem porquês e sem senãos. Amor na partida e na chegada.
É o amor que nos define, magoado e distorcido:
o amor dado e o amor recebido.
Porque não percebes que o amor comanda a vida?
Essa vida que um dia te vai cobrar a sua divida.

É o amor que nos define: o amor dado, o amor recebido.



(partindo de uma frase - é o amor que nos define)


lágrimas de lua

AVESSO DE ALMA



Quero ver o avesso de mim. Aquela face com bolor e pó,
aquele “in” que não se vê, mas está cá – sou EU.
Quero virar a pele, a carne e os ossos, virar-me: só.
E abraçar, com braços de alma, o que vejo e vida me deu.
Quero limpar este “sótão” de alma sofrida: deixar o sol entrar,
permitir-me seguir, ir, absorver, acordar, viver o hoje – apenas estar.

Quero ver o avesso da alma. Da minha, desta etérea senhora que me habita,
desta desajeitada sombra que me segue os passos, me segue a vida.
Virar do avesso e sacudir a dor, o vazio, o abandono, este estar proscrita
de sentimentos, condenada pelo coração amante: viver assim, banida.
Quero deixar entrar o sol, o vento, a Primavera – em pleno –, em cheio,
redonda, vibrante, quero apenas, e só, vogar em suave devaneio.

Quero ver o avesso de mim, da minha alma empoeirada,
do meu coração engelhado, dos meus passos encolhidos,
pobres e ensombrados. Quero abrir a janela emperrada
e deixar entrar a vida: é hora de liberar todos os “proibidos”
e “sentidos únicos”, “estradas sem saída”; é hora de serenidade,
aceitação, de olhar erguido, alma renovada; de enterrar a saudade.


A vida não espera,

a morte não tarda,

as horas não param: avessar a alma é urgente.

lágrimas de lua




quarta-feira, abril 19, 2017

CHEGADA POR PARTIDA




Chegaste devagar como quem semeia a Primavera,
entornaste as tintas de um arco-íris de recomeço
com sabor a vida passada e cheiro de desconhecido.
Chegaste como quem nem tinha partido, nem se desvanecera
no grito de um silencio rouco, que rasga o peito que ofereço
à dor da mágoa: ao medo da perda e do caminho esquecido.
Chegaste: como se o mundo não houvesse, e a vida se apagasse,
como vela soprada por infantil alegria, ou por senil desapego.

Chegaste: nada mudou, tudo se perpetua como parafuso sem fim.
Mas eu quero-te! Com a alma e com a razão de quem guardasse
o maior tesouro na sombra do olhar, amante, amado. Eterno desassossego.
Chegaste sem chegar, porque não estás. Porque partes e te afastas de mim.
Chegaste devagar como quem semeia o Inverno,
escreveste a letra de um hino fúnebre, nos muros de um coração magoado,
chegaste pintando um prometido inferno.
Parte sem demora: sem olhares para trás, eu vou vestir-me de sonho esfarrapado.



Chegaste - devagar - a semear utopia. Vai - rápido - para esquecer a cobardia.




lágrimas de lua

sábado, março 25, 2017

COMBOIO DA VIDA - SEM DESTINO...APENAS IR.





É tempo de nada esperar - o comboio da vida segue,
linha fora; Pouca terra - muita terra.
É tempo de seguir sem nada querer. Que a chuva regue
os canteiros de sementes, os mares, os prados - a serra,
onde se escondem os momentos passados, vividos,
chorados, desejados, sonhados. Os sentimentos esquecidos.

É tempo de um tempo que já não conhece o tempo.
É tempo de dizer ao tempo; Caminha, passa, corre: voa!
Que eu quero passar igualmente, esquecer cada momento,
apenas porque já foi: passou. Mas das profundezas do tempo ecoa
a voz da memória, da saudade, do que já foi - e não mais é.
Acelera comboio da vida! Não pares em apeadeiros, segue com fé.

É tempo de saber escrever novas letras, acender outras estrelas,
de aceitar novos mares e barcos sem rumo ou passado,
de percorrer os mesmos caminhos com novos olhos, sem querelas;
Ser eu, apenas eu; Mais ninguém. É tempo do amordaçado,
é tempo do deserdado, do perdido e angustiado: do morto,
do vivo, do triste, do esquecido e do lembrado. Neste porto,
onde ancorei o meu degredo, é apenas tempo de deixar; Abrir as mãos e partir.

lágrimas de lua


APENAS UM DIA....

Melodia que passa, como chuva singela de verão, refrescando o peso do calor da desilusão. Acordes que volitam como andorinha...