Um dia, a luz é
só uma luz e o sol apenas um brilho quente.
Um dia, o
perfume não tem cheiro, nem o mel sabe a natureza.
Um dia, o dia
não mais significa viver; será apenas um molho de horas
que passam em
sonolento limbo, onde tudo é nada: e nada é tudo.
Um dia tudo
será uma sombra ensombrada, sem cor e dormente.
Um dia, um olhar
apenas significa que se vê, mas que se perdeu a beleza,
que se perdeu o
vigor, o sentido e a razão, e que tudo se prende com escoras
feitas de teias
de aranha, feitas de brumas e de tempo passando: mudo.
Um dia, as mãos
vão esquecer-se do caminho, do préstimo, do sentido,
nada mais que
conchas vazias em areal estranho e intemporal.
Um dia, apenas a
névoa povoará o olhar, encherá o corpo, a alma, a vida.
Um dia, as
memórias serão farrapos sem nexo, desgarradas e esparsas.
Um dia de nada
servirão os esforços, o empenho, a luta; estará perdido
o mundo
periclitante onde se equilibram os passos, lutando contra o vendaval.
Um dia terei
que deixar-te ir após as lutas que nos levam de vencida.
Um dia será o
vazio; nada mais restará que vazio, num voo de brancas garças.
Lágrimas de lua


