segunda-feira, fevereiro 05, 2018

PERDIDA DO PARAÍSO


Do piano, que não sei tocar, arranco as notas
de uma melodia estranha. Quem me inspirou a alma?
Um alquimista? Um poeta maior? Um anjo louco?
Não sei. Apenas trilho um ritmo, novas rotas,
como navio fantasma sem âncora nem leme, na palma
da minha mão. Buscando o oblívio, a solidão ou o arroubo
de um amor tardio e vagabundo: sem rota nem rumo,
caindo para o horizonte, para o vazio, onde me banho e perfumo
de jasmins, rosas, violetas e flor de laranjeira.


E a breve melodia ecoa nas teclas do piano que não toco,
escorre pelas paredes de brancas lembranças,
como garças; como gaivotas ancoradas no frio.
Soltam-se sons de névoas e brumas de um baú barroco,
onde guardo as memórias enfeitadas de esperanças:
vãs esperanças. Vagas esperanças, fluindo como um rio
onde me perco e me encontro. Onde mergulho e não respiro.
E a melodia ecoa, como espinhos aguçados onde me firo.

Ao piano, que não sei tocar, a minha alma repousa inteira.

Lágrimas de lua

Imagem retirada da net


sábado, janeiro 20, 2018

MINHA AVE DO PARAÍSO

A ave perde as belas penas; uma a uma devagar,
caem como lágrimas de um olhar que já não é.
Perdeu o voar, perdeu o doce cantar.
Apenas respira, débil, entre soluços de infinito,
num limbo flutuante sem cor, nem odor, nem forma.
A ave perde, uma a uma, as doces penas,
gastou as forças no caminho, gastou as cores na viagem.

Viu montes e vales, viu rios e mares, viu sóis e luas,
montanhas e abismos. Subiu ao cume, desceu às margens
de um rio que navegou com garra. Gastou os risos,
gastou as lágrimas, gastou os olhares e as mãos abertas.
Agora é apenas a ave; de regresso ao início, às origens,
à sua casa de partida, e de chegada. É ave de despedida,
perdendo as penas a uma e uma, como lágrimas de olhar sem ver.

É somente uma ave em cansado adeus.
(Mãe)







Lágrimas de lua

quarta-feira, janeiro 17, 2018

OLHO-ME POR DENTRO DE QUEM SOU

Olho-me por dentro da alma, 
percorro os espaços do meu coração,
encontro mansardas sem vivalma,
abertas ao sol, à chuva, à contradição.
É no meu silêncio completo que me encontro,
me descubro, que sou quem SOU
sem máscaras, sem roupagens de desencontro,
sem meias tintas, meias palavras, apenas ESTOU
tal como sou; mulher.
Com a dor, com a alegria, com a dúvida e a certeza,
com o medo e a coragem, com o sonho a amanhecer.
Olho-me por dentro da incerteza,
essência de todo o meu ser,
e arrumo, aos poucos, a vida, que passa sem se ater.

Olho-me por dentro e em mim desvendo
mistérios, brumas, ecos do que passou.
Não sei se me vejo inteira, nem se aprendo
com tudo o que a vida já levou.
Mas sei que é no meu  silêncio completo,
que de mim faço quem SOU.
Na viagem onde me descubro e prometo
não trair a essência que me criou,
dou por mim, em frente a mim mesma,
nua de tudo o que enevôa a crueza
da verdade que me corre nas veias, e ensimesma
a frágil alma que procura a leveza,
a paz de uma vida escrita de A a Z.
Olho-me sem filtro, sem quê nem porquê.

Olho-me por dentro da alma que sou
olho-me por dentro da vida que passou.

imagem retirada da net


Lágrimas de lua












terça-feira, janeiro 02, 2018

365 AS NOVAS PORTAS.... ABERTAS DE PAR EM PAR


imagem retirada da net


Abrem-se as portas de ouro, inundadas de sol rubro,
as esperanças atapetam os passos que descubro
e povoam as penumbras do que está por vir,
do que está mais adiante, logo ali, para nascer e colorir.

Abrem-se as portas de prata, inundadas de prateados luares,
elevam-se as palavras, as horas, as essências das almas e dos lugares,
vestem-se as fadas e os faunos de viçosas heras e enfeitiçadas papoilas,
as estrelas brincam  no céu, na terra sonham as moçoilas,
de olhos  de amoras silvestres, de lábios cor de romã;
bagos gulosos por colher, orvalhados de sequiosa manhã.

Abrem-se as portas de diamante, inundadas de faiscantes cometas,
reverberantes caminheiros em terra macia perfumada de doces violetas,
inocentes, tímidas, pairando sobre as águas de uma profunda lagoa
onde magos e princesas vêm murmurar sonhos. E uma gaivota entoa
o mais belo canto de amor, a mais bela balada de dor e solidão,
olhando do alto rochedo o infinito mar de segredos e quebrada mastreação.

Abrem-se as portas de um ciclo, novo, fresco, vibrante a iniciar,
desenham-se novos sonhos, escreve-se no infinito a palavra "começar",
como em jogo de criança, como em virginal desejo a crescer.
Abrem-se as portas da vida, nova, em botão,  ainda por florescer.


Lágrimas de lua

sábado, dezembro 30, 2017

TRANSIÇÃO





Escoam-se as horas numa brecha de olhar,
para além do sonho, para além do mar.
Partilha-se o pão de suado amargor,
e ama-se um sonho em desdobrado amor.

Escoam-se os anos, pelas mãos de menino,
agrilhoam-se os passos a um talhado destino,
espera-se a vinda, a partida, o adeus, espera-se tudo...
e nada. Desenha-se um sonho num grito mudo.

Escoam-se as mágoas, enlaçam-se esperanças,
soltam-se os risos, bordam-se doces lembranças,
enfeitam-se os cabelos com grinaldas de luz,
e amortalha-se ao peito o sinal da Cruz.

Escoou-se um ano, castelo de brincar,
nas mãos de um menino de perdido olhar.
Gritou-se: "Amo-te", nas palavras por dizer,
e dissesse tanto no que ficou por escrever.

Partilhou-se o pão, o vinho e a dor,
partilhou-se o sonho, o sorriso e o amor.
E o tempo, escoando, passou a correr,
nesta cacafonia chama da viver.

Lágrimas de lua


2018, sejas bem vindo.

quinta-feira, dezembro 21, 2017

CORES DE VIAGEM

Vou pintar um arco-íris num céu por mim inventado,
onde as espumas dos dias se desfazem em silêncio.
Vou lançar bolas de sabão ao mundo angustiado
com raios de prateado luar nelas entrelaçado.

E vou plantar beijos, como sementes douradas,
como luas, como sois, como "mares nunca dantes navegados".
Desenhar o impossível, inventar as alvoradas,
e das ondas verde-esp'rança tecer as minhas madrugadas.

Vou vestir-me de estrelas, companheiras de viagem,
vou calçar-me de brumas breves, enfeitar-me de novos sonhos,
vou abandonar-me na suave aragem,
ser gaivota, andorinha, vou ser somente  miragem.

Empunho as telas e as tintas, misturo-as com a esperança.
Crio um novo amanhecer, onde impere o sol nascente.
Escrevo uma tela colorida de sonhos e de bonança.
Entrego ao vento o que sou; corpo e alma de criança.

Vim pintar um arco-íris neste amanhecer de segredos,
neste silêncio de alma, nestes olhos de ver por dentro,
neste mar que me separa de mim, entre escolhos e rochedos.
Vim pintar um arco-íris para colorir a dor e apagar os degredos.

Vim pintar um arco-íris em cada vida, em cada sonho, em cada lágrima de alma....




NATAL DE PAZ E HARMONIA, SAÚDE, AMOR E COMUNHÃO

imagem retirada da net



Lágrimas de lua


terça-feira, dezembro 12, 2017

SEM DESTINATÁRIO



Olá!


Esta é mais uma carta que não tem destinatário, porque não será enviada.

Sim, é para ti, que estás num mundo à parte do meu, vogas numa "bolha" que vejo passar da minha "bolha". Ah, pois! Não estranhes, para mim todos vivemos em bolhas: as nossas vidinhas, de onde não queremos sair. Pedimos a todos os santinhos que não sejamos obrigados a romper as paredes das nossas bolhinhas de conforto. Mas sim, dizia eu, são para ti estas palavras.  Um dia a curiosidade foi mais forte: cedi. Quis entrar num mundo que, sabendo não me pertencer, pensei poder franquear. Que me fosse permitido visitar, desfrutar, quem sabe; habitar. E entrei! Abriste, rectificação: entreabriste a porta e eu, sem hesitações, entrei.

Mas essa porta deu acesso a um mundo de magia, de encanto, de descoberta que me foi, seguidamente, negado. Uma espécie de “toca e foge” dos meus anos de menina. E deixou um gosto de incumprimento de uma promessa, de uma fraude da vida, de uma expectativa gorada. A culpa? Pois, essa, não há. E se houver, será, indubitavelmente, minha. Sempre minha, porque ainda espero. Sempre minha, porque ainda acredito. Sou assim, serei assim até ao meu fim.- Até prova em contrário, tudo (e todos) são verdadeiros e sãos. - Crédula? Ingénua? Talvez… sim … serei.

E hoje vejo-te, levando a tua bolha, vogando nas ondas da vida, nos ventos dos acontecimentos e nas marés das sementes que vais semeando, e nas ceifas do que já frutificou. E eu vejo-te, de longe, quando achei poder estar perto. E eu vejo-te, com um peso no coração, e uma lágrima na alma. Mas, apenas e só, porque me iludo, porque espero, porque creio ser possível não viver somente na minha bolha. A vida faz sentido se as nossas paredes não forem estanques, se soubermos rasga-las e deixar que “outras bolhas” toquem, penetrem, se fundam nas nossas. Depois, quando a vida me confronta com a realidade; dura, crua e desapiedada, dói. Uma dor de desalento e de sementes que não vingaram. De esperança pequenina defraudada. Uma dor estranha pela estranheza do que não foi vivido, apenas idealizado, sonhado, esperado.

Mente humana de tamanhos mistérios.
Ainda bem que esta carta não tem destinatário! Irias dizer que sou louca. Mas, sabes? Não sou. Sou apenas uma alma aberta, uma alma que acredita no Bem, que mantém aquela candura de menina, ainda que a vida tenha sovado, bem sovada, a massa de que sou feita. Não, não sou louca. Apenas um coração que bate e que, por muito que seja maltratado, continua a bater. A bombear esperança e sonho nos passos deste caminho.

Sigo, com esta estranheza na alma, esta sensação de ficar à porta, mas sigo. Sabes? Tenho uma “bolha” para levar por diante. Desejo que sejas feliz na tua pequena-grande bolha, que a vida te sorria e dê tudo o que desejas e anseias.  Desejo que os teus sonhos se concretizem, os teu projectos avancem. Mas, acima de tudo, desejo-te o “suficiente de tudo”.

Não entendes?  Pois… acredito. Mas desejo-te o melhor.



Até sempre


Lágrimas de lua

APENAS UM DIA....

Melodia que passa, como chuva singela de verão, refrescando o peso do calor da desilusão. Acordes que volitam como andorinha...