quarta-feira, março 28, 2018

"HÁ LODO NO CAIS"

Calei a manhã que nascia, no olhar.
Esfumei as brumas do desejo na aragem
que do poente se levanta, breve, doce,
como caricia de flores, de folhagem,
de rosas escondidas em outono precoce.
Calei a mágoa vazia que crescia, a torturar.
Toquei o infinito, a eternidade que dura um momento,
que tem forma de água e alma de vento,
que se veste, como nova pele, como um prolongamento
de mim para fora de mim, num silencioso lamento.
Lancei-me no verde inventado para lá de um mar
que já não navego.  Ondulante de sonhos desamados,
ou de amados sonhos para sempre amordaçados.
Vesti-me de brumas, enfeite-me das utopias dos desarmados,
dos pobres e dos ricos, dos que da vida foram enjeitados.
Amei um amor que não existe, amei até não saber mais amar.
Dilui as sombras em profundas águas azuis, amarrei o barco no cais,
onde o lodo é branco e as pedras longas despedidas de partir.
De partir sem voltar, de voltar sem sair, de nau sem estais.
Pintei uma tela de encanto, oca de vida, um eterno mentir.
Lancei-me num caleidoscópio de inicio e fim a pelejar.
E voltei ao nascer, e corri ao morrer, e fui pássaro e bruma,
fui hoje e ontem, mas jamais o amanhã; esse, a Deus pertence,
não á humana vontade. E cresci e perdi. Arrojei-me à espuma
de cada dia que passa, e nos teus olhos desenho a dor que vence,
a dor que verga, o vazio que preenche, e o sonho que adormece


como o “Lodo no cais

Lágrimas de lua






terça-feira, março 13, 2018

91 - TANTA SAUDADE...







Hoje, em especial, um beijo que chegue para lá das nuvens, de onde te peço continues a velar por mim.


Lágrimas de lua

sexta-feira, março 09, 2018

VESTIDO DE NOIVA




Imagem da net



Branca e florida, engrinaldada de orvalho,
povoada de sonhos secretos por cumprir,
caminha a eterna noiva em brusco desagasalho,
entre espinhos de rosas ainda por descobrir.
Branca, como neve imaculada, caminha sem destino,
leva nas mãos violetas, nos pés alma de peregrino.
Cinge-lhe a fronte o eterno, sonhado, jamais tocado,
vislumbrado, bordado por anquilosada mão
ás rendas do alvo vestido. O véu, de destino imaculado,
envolve-lhe as formas de menina; orquídea em botão.

Branca e encoberta vai a noiva, descalça pela vida
que sonha, de jasmins e magnólias povoada.
Eleva a alma às fimbrias do infinito, nele consolida
a sua certeza de ser - para sempre – e em voz embargada
murmura solene prece;
- Amar-te-ei sem tempo, sem limite, como a mão que tece,
certeira, os fios de uma vida de tempestades e acalmias-.
Caminha tolhida de verdes musgos e heras imemoriais,
morreram aos poucos os sonhos, as roseiras tornaram-se bravias,
os passos tropeçam nas rendas empoeiradas, intemporais.

Branca e orvalhada morre a noiva, em leito de violetas tardias….


quinta-feira, março 01, 2018

EXCOMUNGADAS SENTINELAS


Como se elevam as encapeladas ondas do vazio,
para onde arrostam esta corpórea alma de negras vestes?
Um dia abri uma janela sem tempo e olhei ao largo
em busca de um navio sem mastros nem velas.

Um dia desaguei num espalhafatoso Estio,
onde o sol era lua e a lua um monte de cristais agrestes.
Ainda ontem te olhei nos olhos; apenas vi o embargo
com que pintaste uma tela de frases, esquecidas nas vielas.

E as ondas, de vida plena, esmurram os mandos do bailio,
que governa as horas do sonho. Entrópicas, as estepes
plantadas um dia, como farpas de assinado encargo
que carrego na alma, nos olhos; enevoadas janelas.

Ainda ontem te embalei os medos, aconcheguei do frio
que inundava as horas. Foi ontem, em noite de ciprestes,
que inventei palavras novas, abri as veias ao veneno amargo
de um amor sem nome, cego, pleno. Excomungadas sentinelas

de um tempo que o tempo enviesou, torceu, esmaeceu, como pavio
de esfarelada vela. As encapeladas ondas, deste manto de celestes
encantos, esfumam-se pela brecha de um esquecimento que alargo
ao futuro, ao passado e encastoo numa lágrima de aguarelas.


Como se encapelam as ondas, como rugem os mares,
 como choram as gaivotas.... nas praias do fim do mundo.



Lágrimas de lua

Imagem retirada da net

segunda-feira, fevereiro 19, 2018

MÊS APÓS MÊS - O CÉU

E o tempo passa, escorre e esvai-se 
pelo rasgão que se abre, sem dó, neste mar.
Nesta distância que não se encurta,
nesta ausência que não desiste de gritar,
que não desiste de doer e se furta
ao balsamo do tempo a resvalar.

E as memórias, que vestem a alma,

são frágeis véus de fosca neblina,
são pinceladas de um pintor louco,
são os passos de uma criança franzina.
São olhos quebrando a pouco e pouco
desdobrando a saudade que se amotina.

E as nuvens encobrem as estrelas, lá no alto,
lá em cima, brilhando em harmonia,
faça sol, venha a chuva, sopre o vento,
elas olham, velam, em silenciosa sintonia.
Mas o tempo, passando, continua avarento,
trancando em si a paz, em murmurada litania.

O tempo, passa, escorre e esvai-se, pelo rasgão de uma vida.

(às minhas estrelas)


Lágrimas de lua



Imagem da net



segunda-feira, fevereiro 05, 2018

PERDIDA DO PARAÍSO


Do piano, que não sei tocar, arranco as notas
de uma melodia estranha. Quem me inspirou a alma?
Um alquimista? Um poeta maior? Um anjo louco?
Não sei. Apenas trilho um ritmo, novas rotas,
como navio fantasma sem âncora nem leme, na palma
da minha mão. Buscando o oblívio, a solidão ou o arroubo
de um amor tardio e vagabundo: sem rota nem rumo,
caindo para o horizonte, para o vazio, onde me banho e perfumo
de jasmins, rosas, violetas e flor de laranjeira.


E a breve melodia ecoa nas teclas do piano que não toco,
escorre pelas paredes de brancas lembranças,
como garças; como gaivotas ancoradas no frio.
Soltam-se sons de névoas e brumas de um baú barroco,
onde guardo as memórias enfeitadas de esperanças:
vãs esperanças. Vagas esperanças, fluindo como um rio
onde me perco e me encontro. Onde mergulho e não respiro.
E a melodia ecoa, como espinhos aguçados onde me firo.

Ao piano, que não sei tocar, a minha alma repousa inteira.

Lágrimas de lua

Imagem retirada da net


sábado, janeiro 20, 2018

MINHA AVE DO PARAÍSO

A ave perde as belas penas; uma a uma devagar,
caem como lágrimas de um olhar que já não é.
Perdeu o voar, perdeu o doce cantar.
Apenas respira, débil, entre soluços de infinito,
num limbo flutuante sem cor, nem odor, nem forma.
A ave perde, uma a uma, as doces penas,
gastou as forças no caminho, gastou as cores na viagem.

Viu montes e vales, viu rios e mares, viu sóis e luas,
montanhas e abismos. Subiu ao cume, desceu às margens
de um rio que navegou com garra. Gastou os risos,
gastou as lágrimas, gastou os olhares e as mãos abertas.
Agora é apenas a ave; de regresso ao início, às origens,
à sua casa de partida, e de chegada. É ave de despedida,
perdendo as penas a uma e uma, como lágrimas de olhar sem ver.

É somente uma ave em cansado adeus.
(Mãe)







Lágrimas de lua

SAUDADES....

Saudades! Um sentimento agridoce que marca, que assola com a força de um vulcão. Saudades! Sentimos do que foi bom; abar...