terça-feira, setembro 24, 2019

COORDENADAS POLARES




















De olhos cerrados ao ruído da vida, parti!
Parti de mim e dos outros… apenas fluí.
Senti o sopro do vento agreste, e o sal; duro,
de um mar que envolve e abraça; ninho seguro
de uma alma em viagem, de um ser em busca,
de um corpo que respira e sonha e em si rebusca
todos os acordes de uma muda melodia.
De olhos cerrados sigo ao som de uma fantasia.
Num pólo que não tem avesso nem direito,
lanço todos os silêncios, escuto o coração no peito,
ganho olhos de milhafre, e alma de pomba amável,
vogo em concha de perdido nautilus palpável,
da vida contorcida em partos sem retorno.
É um caleidoscópio de verde, e um abismo moreno,
rodopio de insustentável leveza sobre um olhar sereno.
De olhos cerrados ao ruído da vida, mergulhei
nesta viragem de polares agitações, e pintei
uma tela de involuções em verdes intemporais.

Lágrimas de lua



sexta-feira, setembro 06, 2019

APENAS UM DIA....






Melodia que passa, como chuva singela de verão,
refrescando o peso do calor da desilusão.
Acordes que volitam como andorinhas sem rumo,
como gotas de orvalho, em folhagem que esfumo
entre as neblinas da memória.
Entre as linhas de uma qualquer história,
sons que gravitam com flores em cachos perenes,
vida que passa em furiosa corrida, em passos solenes.
Rubras bocas de beijos por nascer,
vazias mãos de desejos a fenecer.
Melodia que passa como desfigurada alucinação,
por entre os dedos, como água de azul tentação,
como sonegado sonho de menino em cais de espera.
Como sopro de uma esquecida Primavera.


Lágrimas de lua

terça-feira, agosto 27, 2019

SAUDADES....





Saudades!
Um sentimento agridoce que marca,
que assola com a força de um vulcão.
Saudades!
Sentimos do que foi bom; abarca
sonhos, desejos, risos; vida em profusão.
Saudades!
Não as quero calar, mas não as quero dizer,
quero que sejam passado, arrumado sem magoar.
Saudades!
Que sejam apenas memórias, num canto do viver,
como águas passadas de um longo caminhar.
Saudades!
Apenas as temos do que foi bom.
Cala-las? Não! Arruma-las para a eternidade,
sinal de que a vida teve o seu dom,
vibrou, cresceu, deu-se e calou-se na desigualdade.
Saudade? saudade…  saudade…

Lágrimas de lua

segunda-feira, agosto 05, 2019

PALAVRAS AO VENTO






Escrevo no sopro do vento norte
palavras de destino e esperança,
como quem vislumbra nova sorte,
novos rumos, auroras de mudança.
Dias de paz e solidão.
Dias de dourado perdão.
Escrevo na brisa do vento suão;
olhares de tenebrosa ausência,
lágrimas de distante ilusão,
de ingénua e mordente consciência.
Dias de calado coração.
Dias de antiga desolação.
Escrevo nos alvores da primavera,
o que, no inverno, o céu chorou,
e o outono fez sonho e quimera.
E o verão aqueceu e fermentou.
Dias de inebriante emoção.
Dias de insano amor e paixão.


Lágrimas de lua

quarta-feira, julho 24, 2019

NO IR E VIR DOS INSTANTES....





Somos, na vida, um ir e vir constante.
Nem sempre luz nem sempre sombra,
nem sempre amado, nem sempre amante.
Guardamos o caminho que ensombra
e o que desvenda o mais longe, mais além.
Somos gigantes e anões, o carrasco e o refém.
Somos a noite e o dia, num sim e não infernal,
somos o génio e o monstro, mudando a cada instante,
somos a paz e a guerra, somos gente e animal.
E somos o querer e o não querer gritante,
somos o que dizemos e calamos,
o que expomos e guardamos…
Somos tão só viajantes, presos na dualidade
dos passos que dando, não damos,
em busca de eternidade.

Lágrimas de lua

segunda-feira, julho 08, 2019

RENASCER


Nasceu o dia com negrume no céu azedo,
como se os anjos, revoltados, virassem costas,
arreganhassem as nuvens carregadas.
Nasceu o dia, com grilhetas de um degredo
que o coração quebrará, entregando as respostas
que a alma pede, em mansas suplicas caladas.
Olhando o dia que cresce, olhando a vida que se faz,
deixando que flua o AMOR, essência de fogo invisível,
aprenderei a dar passos de infinito.
E o dia regressa à beleza que cada aurora sempre traz.
E a paz inunda a caminhada como um toque sensível,
como beijo de flor, de ave, como a certeza que habito.
Inunda-me uma manhã de cinzas e luz, de serena aceitação,
de alma renascida, de casa recém-lavada.   
Inunda-me uma manhã de paz sem tempo,
correndo suave como bruma numa qualquer viração,
fiz das feridas roupa nova, fiz da dor força renovada,
percorri a minha vereda sem horas nem contratempo.
Esta luz baça que escorre, ténue, pela vidraça
traz-me as estrelas que brilham no céu,
e as que habitam o mar; o meu céu, o meu mar,
onde ecoa uma melodia doce que perpassa
pelos côncavos do meu coração, qual balsamo ou véu,
qual afago de maternal mão, beijo de paternal amar.
hoje o dia acolheu-me na concha de um nautilus perdido,
vogando, tonto, pela corrente desta vida deslizante,
e o horizonte tornou-se palpável, tangível.
O que foi; passou, o que vem; virá renascido,
de novas cores enfeitado. Só o presente; vibrante,
é certeza de vida, é caminho perceptível.
Hoje, das nuvens carregadas, nasceu um sol inextinguível.

Lágrimas de lua







segunda-feira, junho 03, 2019

SOBREVIVÊNCIA







Guardo a capacidade de sobreviver ao que fere,
ao que mata e destrói.
Guardo a força de olhar mais longe, para o que difere
do caminho que não constrói.
Guardo a capacidade da aceitação, sem revolta,
sem resistência ou controvérsia.
Guardo-me na caminhada sem guarda nem escolta,
e sigo, no movimento e na inércia.
Guardo cada partida e cada chegada,
cada perda e cada abandono.
Guardo cada inevitabilidade na alvorada
de um novo dia sem retorno.
Guardo a capacidade de sobreviver ao imponderável,
porque a vida é apenas um sopro de infinito.


                                                                                                                                                                                                                                         Lágrimas de lua


SILÊNCIO ENSURDECEDOR

Por entre as palavras mordidas e os silêncios demorados, decorrem os dias. Escorrem as horas e passam os anos. Moldam-se a...