quarta-feira, setembro 24, 2014

SEGUNDO DE AMOR

A vida é um segundo de amor, efémero e suspenso.
A vida é uma gota de orvalho que o sol seca impiedoso.
A vida é um breve e estranho momento, intenso,
a um tempo doce e amargo, alegre e pesaroso.

A vida é um segundo de amor, tão ténue e tão fugaz,
que se dilui na voracidade dos dias, na horas vazias,
na ausência feroz, na luta rude e audaz.
A vida é um segundo de amor, de noites sombrias.

A vida é um grito sem som, é uma lágrima sufocada,
é uma alma sem cor e amordaçada.
A vida é uma aridez de deserto, é um vento suão.
É uma ferida profunda, um abismo, um tufão.

A vida é um passo a cada a dia pisando a dor,
pendurando em cada árvore a lembrança sem cor,
calando a mágoa, esquecendo a memória,
olhando a estrada ingrata e inglória.

A vida é um segundo de amor, cego, surdo, espezinhado.
A vida é um segundo de amor, que se viveu e perdeu,
que passou no vórtice do tempo acelerado.

A vida é um segundo de amor… Que não ficou e se desvaneceu. 


quarta-feira, setembro 17, 2014

TUDO SE ESVAI...

Tudo é efémero e breve, tudo passa, tudo se esfuma
no correr dos tempos, no virar dos dias enevoados
e sombrios.
Tudo é sombra de uma realidade que me defuma
os passos, que me embota a alma e os olhos toldados
fugidios.

Tudo passa deixando o seu rasto qual vibrante cometa,
riscando um céu de sonhos e perdas, de desalento.
Tudo se diluirá no incomensurável tempo que me remeta
para um mundo qualquer de estagnamento.
Tudo é efémero, tudo tem principio e fim,
tudo passa, tudo muda a seu tempo, nada é eterno
nem permanente.

Tudo é apenas imagem reflectida, distorcida, de mim.
O caminho estende-se enigmático e averno,
tão dolorosamente.
Tudo passa...Tudo é efémero ...Esfumado.
Tudo se esvai... Inexplicado. 

domingo, setembro 14, 2014

NUVENS NUM CÉU ESTIVAL












As nuvens negras escondiam um sol ainda estival que se atrevia de quando em vez a espreitar tímido por entre as suas rivais e grossas oponentes. Uma ligeiríssima brisa agitava os cabelos ainda mal penteados da figura que, muito quieta, olhava o céu. O leve camisão que lhe cobria o corpo maduro, não escondia as formas, nem as revelava na totalidade, apenas insinuava o corpo meio reclinado no cadeirão de repouso que naquela manhã, silenciosamente, olhava o espectáculo que sobre a sua cabeça corria. Ao sabor das nuvens carregadas iam os seus pensamentos, igualmente grossos, negros, tristes e desolados. Parecia que a vida já não tinha sabor, era uma imensidão de dias sucedendo a dias, perfazendo semanas a suceder a semanas e meses a meses. Sorria, brincava, vivia, mas o seu coração e alma eram tão negros e chuvosos, como aquelas nuvens que ameaçavam o poder e força do sol de verão. Calava e seguia.  Plena de memórias, plena de tristeza pelo tempo que sabia jamais voltaria a viver. Mas a vida não se compadece de amores e desamores. A vida tem um rumo, tem uma meta e um caminho, compete a cada um seguir o seu por mais duro que seja... É o seu.
Mas aquele momento em que a natureza aninhava nos seus braços e ao de leve tocava aquela alma dorida, quase colocava um sorriso, ainda que fugidio, no rosto que olhava as nuvens e sem se aperceber pedia ao sol que tivesse força para as furar e vibrar alegre e quente no céu. O astro rei por vezes fazia-lhe a vontade e de manso vinha beijar-lhe o rosto, aquecer o corpo, tocar-lhe os pés nus acariciar-lhe as formas. De olhos semicerrados nesses breves momentos as memórias eram céleres. percorriam-na velozes como bravios cavalos correndo à desfilada;
 - Um outro sol quente e bem alto num céu azul, uma brisa do mar que lhe enchia as narinas de maresia e sal. Almoços, jantares, caminhadas e risos, momentos de paz e comunhão. E outros céus onde o cinzento imperara e a chuva se fizera sentir, os cheiros do campo orvalhado pelas manhãs de outono. Os cheiros das cidades, o bulício das ruas, a pressas das horas. A urgência das noites, a calma das manhãs de preguiça sem horários para cumprir...
O sol escondeu-se envergonhado de ter provocado tamanha dor naquele rosto por onde agora escorriam dois regatos salgados de memórias magoadas que jamais voltariam a repetir-se. As nuvens negras rebentaram soltando as suas gotas, acompanhando num súbito silencio da natureza os ligeiros soluços que sacudiam o corpo agora dobrado sobre si mesmo.

A chuva caía finalmente, a dor fluía finalmente sem restrições, jorrava como ferida aberta naquele coração destroçado e alma sem cor. Em uníssono ambos choravam um amor perdido.

SEM AMARRAS ... SEM CHÃO...

Quando as amarras que nos predem ao chão, nada mais são que laças cordas sem vida, nós esgotados, rasgadas velas, farrapos em ferida. ...