segunda-feira, setembro 10, 2012

ULTIMO ACTO






Desce a cortina devagar sobre o ultimo acto
de uma qualquer peça sem história, desarticulada,
sem jeito, sem cor, sem memória. Com o frio fiz um pacto,
de noite negra me vesti, e saindo caminhei, desencontrada.
Desencontrada de mim, despida de luz, de vida e cor.
Errante, pelos caminhos que trilhei um dia na crédula ilusão
de que a vida é bela, que tudo é possível, que vencerá o amor.
Cada passo é um turbilhão de sentimentos, um duro grilhão
em cada sonho desfolhado. Uma furtiva lágrima de desilusão.
Desceu o pano sobre o ultimo acto de uma peça qualquer,
desce mansamente a aveludada cortina, parece que quer
amordaçar todas as dores, afogar a solidão...

Mas não...Apenas põe um fim a um coração.

sexta-feira, agosto 31, 2012

A MINHA SECRETA JANELA

Abri a minha janela perdida;
Deixei entrar um dia o sol de Verão,
voguei em todas as galáxias,vivi todas as estrelas,
percorri todos os mares, naveguei a ilusão.

Abri a minha janela ingénua;
Pintei a vida de mil cores em muitas telas,
entreguei-me, amando, sem restrições.
Fui pássaro, borboleta, fui vulcão em convulsões.

Abri a minha janela confiante;
Acreditei no sonho, na paciência,
na força imensa de um coração.
Acreditei e perdi toda a existência.

Abri a minha janela escondida;
Desdobrei-me nos cantos da paixão.
Amei, amando sem tempo nem limite,
descobri o que a vida não permite,
e fechei chorando a minha triste e vazia janela de solidão. 

sábado, agosto 25, 2012

A MINHA NOITE

A noite cai, triste fria e roxa. A noite veste-se de negRo manto e sai à rua...Deambulante percorre a vida, entrega-se a cada esquina ao abraço dorido do vento norte, ao gélido bafo da invernia.
A noite desce e percorre os trilhos da solidão, da desilusão, vai de pés nus sobre as agudas pedras, vai de mãos vazias e olhos molhados. Vai sem rumo...Vai sem norte...Vai sem nada.
A noite cresceu e adensou-se nas horas vazias e ocas, como conchas mortas na areia de uma praia qualquer.

A noite, a bela e aveludada noite é uma dama solitária, um peão num tabuleiro de xadrez, uma folha dançando ao vento.
A noite, a acolhedora noite, é companheira de viagem, é o ombro nunca negado, o peito aberto para todas as lágrimas, a noite é o espaço de todas as angustias, de todos os tormentos e de todas as desilusões.

A noite, caiu uma vez mais...Vestiu o seu vestido de quieta solidão, pôs o negro manto de veludo espesso e... De novo saiu à rua pelos trilhos vazios da vida.  E eu....Eu sigo-lhe os passos ... Silenciosamente.


sexta-feira, agosto 17, 2012

NOVO CAMINHO..DESERTO

Ao bater das badaladas pela noite escura,
ecoa, a cada uma delas, um momento,
uma imagem, um desejo.
Ao rodar das horas na aridez e secura
de um deserto de fogo e desalento,
ergue-se um breve lampejo
de racionalidade.
Quase imoralidade.
Passo a passo, dia a dia, recomeço.
E os dias vão nascer e morrer,
como sempre.
Sois e luas passam, e adormeço
nos braços do vazio a crescer,
sempre....sempre.
Ao bater das surdas badaladas,
abriu-se a noite calada e fria.
Aninhou-me no seu seio deserto,
deu-me duas mãos engadanhadas
na luta renhida deste novo dia,
em que procuro o caminho certo.

domingo, agosto 05, 2012

NOITE DE ABANDONO

O galo cantou as matinas. O gato esticou o ágil corpo,
a vida pulsou lá fora, o sol elevou-se no cálido céu.
Mas o escuro manto não abandonou o meu corpo,
o pesado silencio foi ainda e sempre o meu véu.
Noiva do passado, esposa da solidão, agrilhoada ao presente.
Como pássaro engaiolado, cantando a mesma melodia, tristemente.
Perdi-me nas vielas verdes e humidas da névoa dos tempos,
criei raizes como frondosa árvore, emudeci.
Apenas dos meus olhos de Faia secular jorram os lamentos
feitos lágrimas de seiva. Nelas me traduzi,
nelas me retratei, me desdobrei e de novo me recolhi.
Lá fora o galo já cantou as matinas...Aqui, a noite permance.

quinta-feira, julho 19, 2012

SOMBRAS DE VIDA

Rasga-se o céu de sombrias pinceladas,
cinzentas aveludadas.
Rasga-se o véu que sobre os meus olhos habita,
e o coração palpita,
as mãos procuram um rumo, incerto, estranho,
sem nexo, insano, sem jeito ou tamanho.
O tempo não é tempo, a luz é escuridão,
o caminho não tem fim, nem principio,
não tem meio...Não tem nada. Solidão
acesa no mais fundo do ser, princípio
dos princípios e fim dos fins.
Rasgam-se os céus, e os véus, rasga-se a vida,
rasga-se o peito vazio de tudo. Dividida,
sem pátria nem leito, 
sem rumo nem jeito.
Rasga-se...Rasga-se....Rasga-se...a carne em desalento! 

sábado, junho 30, 2012

PUZZLE DE PALAVRAS

Escrevo como se tivesse uma tesoura mágica nas mãos. Escrevo as letras recortadas do abecedário, juntando as vogais e as consoantes formando palavras com sentido, crescendo em frases que fazem o meu discurso, que traduzem os meus pensamentos, que espelham as minhas memórias feitas de muitos momentos, aos quais recorro muitas vezes. Recorto-as suavemente com a minha imaginária tesoura para que não se estragarem e transcrevo-as para um pequeno caderno. Colo-as com a cola de quem sente e vive, de quem riu e chorou, de quem apenas contemplou e quem activamente participou. Essas linhas já vividas são a escrita da minha própria vida, são o meu percurso traçado a tesoura e cola, como se fosse uma manta de retalhos, um desenho de criança, um puzzle que se vai construindo aos poucos.
A minha escrita é um pedacinho de mim, uma extensão de mim. Escrevo as memórias dos risos, das lágrimas, da gargalhada despreocupada e juvenil, escrevo o sonho e a realidade, a desilusão e a poesia. Assim, se a minha memória me falhar, as minhas recordações mais bonitas e também as menos bonitas, estão todas bem recortadas pela minha  magica tesoura e protegidas nas folhas únicas daquele caderno, fechado a 7 chaves onde só eu posso entrar. E mesmo as memórias menos bonitas prefiro guarda- las só para mim. São tão pessoais e tão minuciosamente recortadas da minha alma, escritas com tanta precisão, que as preservo de olhares e mãos que possam  estragar este trabalho maravilhoso que uma simples caneta um dia soube repassar para as folhas brancas do livro da minha vida.
Esse trabalho de artesão pacientemente elaborado; recorta uma letra, cola, recorta outra e cola, e ainda mais outra e mais outra…E colando, colando sempre, vai fazendo palavra após palavra, frase após frase, compondo a ideia, descrevendo o lugar, dando enfase à situação. Umas vezes ligeira e brincalhona, outras carregadas de dor e tristeza. Mas é a minha escrita, retrato de mim, como se de repente todas as fotografias tivessem sido recortadas aos pedacinhos e as fosse compondo em harmonia numa gigantesca tela colando aqui a praia e as cores de verão, ali as férias de inverno e os agasalhos, os presentes de Natal e a expectativa de criança, depois as expressões de alegria no convívio da escola, as brincadeiras e as arrelias, os amores e desamores de uma vida feita de poeira e infinito, de escolhos e lutas, de bons e maus moemntos, de decisões e indecisões, e no meio das imagens vou escrevendo pequenas notas, datas, pensamentos, frases ouvidas e ditas. Componho aos poucos a minha tela.
Olho-a depois de pronta e interrogo-me; “E agora? Que outras peças vão caber aqui no resto dos anos?” A minha tesoura mágica de momento descansa, tapei o tubo da cola, mas a minha escrita será sempre dividida entre eles. Toda a escrita é feita de pedaços cortados de um imenso painel que a vida nos propõe e coladas nas nossas telas pessoais.

O TEMPO PERDIDO NÃO SE RECUPERA

As palavras lançadas não voltam atrás, o tempo perdido já não tem retorno e a vida esvai-se, no silêncio voraz. Fica o caminho, diluído, sem...