quinta-feira, abril 25, 2013

UM BEIJO


Como rosa por desabrochar,
como nuvem ténue no reverberante azul.
Como pássaro em inebriante voar,
como alva garça em escuro paul.
Um beijo, apenas um beijo.

Como risonha criança em berço dourado,
como cristalinas águas em frescos requebros.
Como o segredo ciosamente guardado,
como descoberta de iluminados cérebros.
Um beijo, somente um beijo.

Como o sol que não se toca,
como a lua que não se atinge,
como a vida que se escoa.
Como um fuso sem roca,
como um tecido que se tinge
com negra tinta que magoa.

Um beijo, apenas um beijo, tão somente...Um beijo que flutua

terça-feira, março 19, 2013

É TARDE....É TARDE!



É tarde!
É tarde porque me esqueci do amanhecer,
porque permiti que o meu olhar se perdesse.
É tarde!
E a vida resvala por mim a correr, 
a manhã definhou sem que me apercebesse.
É tarde, tão tarde!
O sol vai alto, o chão escureceu, um cão latiu
no fundo da sua tristeza
o mar em soluçado crescendo, rugiu,
espraiando toda a sua rude beleza.
Mas é tarde!
Eternamente tarde para ter pés de criança,

asas de pássaro e olhos de anjo.
É tarde!
É tarde para um sonho que não se alcança

sexta-feira, março 08, 2013

CAMINHO...SOMENTE

Virei o ano, virei a esquina, virei o porto de abrigo.
Caminhei descalça pelas pedras frias do caminho,
olhei o céu e vi-o abrir-se e fechar-se, rir e chorar,
desmanchar-se em lágrimas de anjo, e iluminar-se de sol.

Virei o silencio, virei o medo, virei o destino comigo.
Esfolei os joelhos, dilacerei os pés em duro espinho,
abri as mãos vazias e deixei-as somente tombar
frias, sombrias, arquejantes, perdidas sem farol.

Virei a página de mais um livro,
virei o sonho de mais um vazio,
virei a mordaça e o crivo
das minhas palavras no frio
de uma manhã sem rumo....


quinta-feira, novembro 01, 2012

MAGIA DOS SIMPLES


Na magia cálida de uma violeta do campo, tímida, singela.
Na perfeição das cores de uma abelha de flor em flor,
na intensidade das marés vivas em praia deserta envolta em nevoeiro.

Na extasiante beleza de um  magnifico sincelo que tudo gela,
na intemporalidade das diáfanas asas de libelinhas sem cor,
e na intangível perfeição das cores do frio luar de Janeiro.

Na beleza silenciosa de mil flocos brancos caindo do céu,
na pureza desnudada de um raio de sol sobre o orvalho,
na imensidão do trovão longínquo rasgando o negrume.

Na suavidade das primeiras chuvas caindo como um véu
de poalha doce, ensopando cada pétala, cada galho.
No mistério idílico de um pequeno vaga-lume....

Se encontra a força e a magia dos simples.

sexta-feira, outubro 26, 2012

VELUDO NOCTURNO


Há na noite o veludo do segredo e o desespero da imensidão.
Há na voz do mar o eco do tempo que passou e do que se perdeu,
há nas mãos abertas o vazio por preencher e a dolorosa vastidão
por terminar, por entender, há a ânsia do dia que não nasceu.
Há na lua prateada a frieza do brilho refulgente e distante,
há nas horas mortas a vida que pulsa intensa e incessantemente.
Há em cada olhar a profundidade de um sonho latente,
um secreto desejo docemente guardado no fundo do ser,
há o beijo adiado, a amor incumprido, a ferida permanente,
a dor silenciosamente navegada, abraçada mesmo sem se querer.
Há na noite o vestígio de mais um dia, passado, vivido, cumprido
como um dever, como uma obrigação sem razão, só percorrido.
Sem qualquer justificação... Há na noite....Tanto por caminhar...

sábado, setembro 22, 2012

ALMA PELA NOITE

Os sons do mundo lá fora entram pela janela aberta,
o ar fresco da noite embala as cortinas docemente.
Tenho a alma incolor, inodora, fria e silenciosamente deserta,
e o coração bombeia o sangue como sempre, compassadamente.
O mundo "pula e avança" nas palavras do poeta,
o mundo jaz moribundo, atirado a uma qualquer praia deserta.
O mundo é a bola colorida entre as mãos de uma criança,
o mundo é uma amalgama de destroços onde fenece a esperança.
Mas ruge e agita-se o mundo, sem cessar, sem rodeios,
preso, agrilhoado, o que for! mas vibra a cada momento.
E a minha alma soçobra devagar, cai de mansinho sem devaneios,
apaga as luzes ténues de uma inocente credulidade, sem um lamento.
Pela minha janela aberta, chegam os sons do mundo, incoerentemente.
Pela minha janela aberta sai a minha alma fria e apagada, tristemente.

segunda-feira, setembro 10, 2012

ULTIMO ACTO






Desce a cortina devagar sobre o ultimo acto
de uma qualquer peça sem história, desarticulada,
sem jeito, sem cor, sem memória. Com o frio fiz um pacto,
de noite negra me vesti, e saindo caminhei, desencontrada.
Desencontrada de mim, despida de luz, de vida e cor.
Errante, pelos caminhos que trilhei um dia na crédula ilusão
de que a vida é bela, que tudo é possível, que vencerá o amor.
Cada passo é um turbilhão de sentimentos, um duro grilhão
em cada sonho desfolhado. Uma furtiva lágrima de desilusão.
Desceu o pano sobre o ultimo acto de uma peça qualquer,
desce mansamente a aveludada cortina, parece que quer
amordaçar todas as dores, afogar a solidão...

Mas não...Apenas põe um fim a um coração.

O TEMPO PERDIDO NÃO SE RECUPERA

As palavras lançadas não voltam atrás, o tempo perdido já não tem retorno e a vida esvai-se, no silêncio voraz. Fica o caminho, diluído, sem...