sexta-feira, maio 17, 2013

VOGANDO




Vogo na fímbria sombria de um sonho acordado,
resvalando mansamente para um abismo que desconheço
e não temo.
Vogo como folha perdida em vendaval encarniçado,
como alva espuma em maré viva onde envelheço
mas não tremo.
Deslizo sem ruído pelas dobras desta vida,
ora vou, ora venho...Ora estou, ora fui,
olho sem ver, sonho se sonhar, quero sem querer.
Desejo sem desejar, acredito sem acreditar no amanhecer.
Empurrada, puxada, repartida e dividida,
passo a passo trilho o caminho que se dilui.
Deslizo na imensidão dos pálidos dias sem rumo,
como desfolhada margarida em agreste invernia,
como encanecido carvalho que perdeu o prumo
e se vergou silencioso à gelada ventania....

sábado, maio 04, 2013

CRISTALIZADO PRANTO


A ave branca e doce eleva-se breve na manhã de purpura e ouro.
O adejar suave das asas translucidas é uma promessa de amor,
um ardente desejo em coração inocente, puro e encantado.
Os matinais raios de luz são como espigas de trigo maduro e louro.
A brisa morna embala todos os corações em secretíssimo fulgor,
e o voar liberto da branca ave risca o azul do céu enamorado.

As areias quentes ondulam sob os dedos escaldantes do sol,
como pele desnudada sob mãos de amante.
Lá no alto, a breve ave lança uma doce aragem ao passar.
As agruras cá na terra quase que se tornam uma massa mole
que se molda e desmancha. Uma nuvem errante...
Um rio manso que cantando se precipita no imenso mar.

A doce ave branca desce mansa sobre a terra ressequida e dura,
trás no bico uma rubra rosa a sangrar, nas patas trás um punhal.
Dos seus olhos escorrem lágrimas de cristal e mágoa pura, 
da sua alva plumagem resta apenas um sonho intemporal...
Uma quimera na qual pôs toda a sua alma de pássaro branco.
A areia emudeceu,
o sol escureceu,
o amor morreu,
apenas a ave permanece alva em cristalizado pranto.


quinta-feira, abril 25, 2013

UM BEIJO


Como rosa por desabrochar,
como nuvem ténue no reverberante azul.
Como pássaro em inebriante voar,
como alva garça em escuro paul.
Um beijo, apenas um beijo.

Como risonha criança em berço dourado,
como cristalinas águas em frescos requebros.
Como o segredo ciosamente guardado,
como descoberta de iluminados cérebros.
Um beijo, somente um beijo.

Como o sol que não se toca,
como a lua que não se atinge,
como a vida que se escoa.
Como um fuso sem roca,
como um tecido que se tinge
com negra tinta que magoa.

Um beijo, apenas um beijo, tão somente...Um beijo que flutua

terça-feira, março 19, 2013

É TARDE....É TARDE!



É tarde!
É tarde porque me esqueci do amanhecer,
porque permiti que o meu olhar se perdesse.
É tarde!
E a vida resvala por mim a correr, 
a manhã definhou sem que me apercebesse.
É tarde, tão tarde!
O sol vai alto, o chão escureceu, um cão latiu
no fundo da sua tristeza
o mar em soluçado crescendo, rugiu,
espraiando toda a sua rude beleza.
Mas é tarde!
Eternamente tarde para ter pés de criança,

asas de pássaro e olhos de anjo.
É tarde!
É tarde para um sonho que não se alcança

sexta-feira, março 08, 2013

CAMINHO...SOMENTE

Virei o ano, virei a esquina, virei o porto de abrigo.
Caminhei descalça pelas pedras frias do caminho,
olhei o céu e vi-o abrir-se e fechar-se, rir e chorar,
desmanchar-se em lágrimas de anjo, e iluminar-se de sol.

Virei o silencio, virei o medo, virei o destino comigo.
Esfolei os joelhos, dilacerei os pés em duro espinho,
abri as mãos vazias e deixei-as somente tombar
frias, sombrias, arquejantes, perdidas sem farol.

Virei a página de mais um livro,
virei o sonho de mais um vazio,
virei a mordaça e o crivo
das minhas palavras no frio
de uma manhã sem rumo....


quinta-feira, novembro 01, 2012

MAGIA DOS SIMPLES


Na magia cálida de uma violeta do campo, tímida, singela.
Na perfeição das cores de uma abelha de flor em flor,
na intensidade das marés vivas em praia deserta envolta em nevoeiro.

Na extasiante beleza de um  magnifico sincelo que tudo gela,
na intemporalidade das diáfanas asas de libelinhas sem cor,
e na intangível perfeição das cores do frio luar de Janeiro.

Na beleza silenciosa de mil flocos brancos caindo do céu,
na pureza desnudada de um raio de sol sobre o orvalho,
na imensidão do trovão longínquo rasgando o negrume.

Na suavidade das primeiras chuvas caindo como um véu
de poalha doce, ensopando cada pétala, cada galho.
No mistério idílico de um pequeno vaga-lume....

Se encontra a força e a magia dos simples.

sexta-feira, outubro 26, 2012

VELUDO NOCTURNO


Há na noite o veludo do segredo e o desespero da imensidão.
Há na voz do mar o eco do tempo que passou e do que se perdeu,
há nas mãos abertas o vazio por preencher e a dolorosa vastidão
por terminar, por entender, há a ânsia do dia que não nasceu.
Há na lua prateada a frieza do brilho refulgente e distante,
há nas horas mortas a vida que pulsa intensa e incessantemente.
Há em cada olhar a profundidade de um sonho latente,
um secreto desejo docemente guardado no fundo do ser,
há o beijo adiado, a amor incumprido, a ferida permanente,
a dor silenciosamente navegada, abraçada mesmo sem se querer.
Há na noite o vestígio de mais um dia, passado, vivido, cumprido
como um dever, como uma obrigação sem razão, só percorrido.
Sem qualquer justificação... Há na noite....Tanto por caminhar...

O TEMPO PERDIDO NÃO SE RECUPERA

As palavras lançadas não voltam atrás, o tempo perdido já não tem retorno e a vida esvai-se, no silêncio voraz. Fica o caminho, diluído, sem...