Como a asa de uma gaivota que perdeu o rumo,
como o fumo de um navio que passou ao largo.
Passou o meu tempo….
Como a gaveta aberta onde alinho e arrumo
as memórias que vogam num mar triste e amargo.
Passou o meu tempo…
Como o beijo aflorado, o desejo ancorado na praia deserta,
como a água que por entre os dedos se esvai incerta.
Passou o meu tempo….
Do tempo que não para nem se acerta, do tempo que sobra
do tempo que chora, do tempo que ri e soçobra.
Passou o meu tempo…
E ficou o espaço oco e enevoado, como manhã de outono,
como barco fantasma, como lágrima cristalizada em puro abandono.
Passou o meu tempo…
Nas mãos abertas vazias, nos olhos fechados em sonhos perdidos,
no corpo usado e despido, em todos os despertos sentidos.
Passou o meu tempo….
Na espera de um novo tempo, sentado à beira do abismo,
oscilando entre o cá e o lá, entre a luz e a escuridão, perfeito antagonismo!
Passou o meu tempo…
Nas palavras murmuradas, nas juras apenas sonhadas e nas que foram juradas
entre o soluço e o grito de solidão. Nas frases de paixão apenas sussurradas.
Passou o meu tempo…
Na ilusão de um momento, efémero, precioso, vivido e ambicionado,
mas o tempo apenas passou sem se ater a nada. Passou desvairado!





