sexta-feira, fevereiro 24, 2017

NAS MÃOS NÃO TRAGO ROMÃS


imagem retirada da net












Nas mãos não trago romãs, nem fruta de paixão,
nos olhos não trago o ódio, nem a raiva ou a exaltação.
Nos lábios não trago palavras duras e finas como punhais.
Apenas trago no corpo cicatrizes intemporais.

Nos cabelos entrancei a dor com flores de perdão,
calcei sapatos de penas, debruados de solidão.
Teci um véu de esperanças, bordei-lhe estrelas e sonhos,
sonhei madrugadas suaves: embarquei em navios tristonhos.

Se hoje o dia não nascesse e o vento esmorecesse
cansado de tanto soprar....
Se a minha alma esquecesse e na boca morresse
esta forma de amar....

Restariam apenas as mágoas de um passado que passou,
de um fruto que foi singelo e que o tempo estiolou.
Restariam somente farrapos, apenas e só, as memórias
de um amor que morreu: somente um punhado de escórias.


Nas mãos não trago romãs, nem fruta de paixão,
nos olhos não trago o ódio, nem a raiva ou a exaltação.
Nos lábios não trago palavras duras e finas como punhais,
apenas trago no corpo cicatrizes intemporais.





quarta-feira, fevereiro 22, 2017

EM NÓS DE BRANDAIS... A VIDA.

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imagem retirada da net

Uma estrada, um mar, uma nau catrineta de brincar:
nos olhos as brumas de um sedento sonhar, 
e nas mãos o leme - firme - de um rumo por mapear.
Uma estrela - cadente - de perdido mar, vem confiante e doce
no meu peito habitar. Deixa que o coração bata e esboce
um novo alento, um novo alvorecer na iniciada aceitação.

Deixo o cais de ensombrados desalentos e dolorosos punhais,
abro as velas aos ventos, enfrento ondas e marés sem arrais.
Da mágoa fiz uma âncora, amarrei a tristeza com duros nós de brandais.
Olho as estrelas, de enfarruscado céu, e a lua - lá do alto -, brilha,
como um luzeiro de fogo frio e distante: é a minha cartilha
nesta viagem sem início nem fim - viagem de paz e perdão.

Levo nos olhos um astrolábio de mundos a florir,
nas mãos um mapa de um tesouro ainda por descobrir,
e no corpo tatuei a palavra - amor -, apenas para me punir.
E a minha nau catrineta navega afoita em verdes mares,
enquanto ofereço uma muda prece em todos os altares,
em cada ermida de sonhos, esfumados e perdidos na imensidão.

Uma estrada, um mar, uma prece, uma nau catrineta de brincar....Apenas a vida a passar.

sexta-feira, janeiro 27, 2017

ENTRE JASMINS E POESIA

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Deixei cair o véu da penumbra de uma manhã de outono,
despi-me da bruma da mágoa e soltei os cabelos de poesia.
Inalei os orvalhos e os mostos, névoas de maresia.
Misturei jasmins e rosas, canela e açafrão,
violetas inquietas: de musgos atapetei o meu chão.

Deixei pérolas salgadas suspensas em despida faia,
percorri, de pés descalços, todos os cais desta vida,
busquei respostas e sonhos: sentei-me só e dividida,
estendi braços indolores sobre terra e sobre mar,
apaguei todos os traços de uma tela por acabar.

Rasguei todos os meus pedaços: lanceio-os ao vento norte,
embarquei em nau sem rumo, naveguei em sal sem mar;
Trouxe do mar uma concha de nacarado palpitar
e enfeitei com ela os cabelos - negros de esperar -,
entrancei de novo a vida, em silencio; Devagar.

Deixei cair o véu do desencanto e o vestido do penar,
calcei sapatos de sonho, enfeitei de novo o brando olhar.
Peguei nas sobras e nas dobras enterrei-as no verbo amar.
E de novo fui com o vento, com a chuva: delicado madrigal
de esp’ranças semeadas em fecundo sonho virginal.

Assim renascem os olhos, assim florescem as mãos,
assim se bordam os sonhos em lenços de branco acenar,
e assim se constroem os ninhos dos corações a recomeçar.
Embarco em nau de desconhecido timoneiro,
entrego-lhe a vida que sobra, adenso-me no nevoeiro

e sigo sem olhar para trás. A vida por lá ficou perdida.
Oscilando em cada maré enfrento um novo ondular,
Adamastor se levanta com voz de fúria, a troar;
Os medos, as mágoas e o frio, ficaram no vazio cais;
Grita Adamastor, bem forte! Eu dobro o Cabo sem arrais!

Nada me verga, nada me quebra; Só o vento me levará
onde houver campos e flores: novos cheiros novos chãos.
Onde criarei novas raízes, onde terei de novo plenas mãos
de eterna poesia e sonho. E olhos de criança encantada
e risos de menina em flor; E a serenidade de cada madrugada.

lágrimas de lua

quinta-feira, janeiro 19, 2017

O FRIO DE UM INVERNO QUE PASSA




Invade-me uma ânsia desconhecida
que corrói até ao fundo da alma,
um querer não querendo, uma ferida,
que sangra  numa mágoa calma.
O chão perde-se em espinhos agudos
e o ar, rarefeito de desencanto, suspira
por paz e harmonia: meus escudos
contra a dor que a mim se atira.
Invade-me este sentir sem sentir,
um destino sem estrada, sem chão,
este limbo de ir e não partir;
Ficar. Oca, e vegetar em vão.
Invade-me o suceder dos dias,
 o perpassar das noites escuras.
Todas as imensas memórias frias
que foram vulcões de mil juras
e nada mais são que negra escória.
Voaram as borboletas de uma luz desconhecida,
partiram as gaivotas em memória
de um tempo passado; Vida vivida.
Invade-me um pomar de orvalhos,
que chove em brandos raios de luar,
vou jogando e misturando os baralhos
das cartas que ainda tenho para jogar.
Invade-me uma desinvasão de Ser,
um Eu que já não sou, nem tenho:
passa a vida por mim a acontecer,
e eu parto…  Não me detenho.
Invade-me este vazio de invernia,
 a alma recolhe-se em sintonia.



quinta-feira, janeiro 12, 2017

AO SABOR DO VENTO - LAVAS DE DESTINO




A vida corre ao sabor das horas, ao sabor do vento
e das marés que os anjos, e os demónios, tecem sem parar.
Entre o aqui e o lá vai uma ponte de desejos por cumprir,
um mar de rosas por florir,  uma águia astuta em voo lento.
E a vida corre, salta, pula, brinca e foge para nos desafiar.
Por entre vendavais e bonanças a vida esvai-se - em pleno peito,
em amenos risos, em amargas lágrimas, em sonhado leito.

A vida corre pelas colinas dos sonhos, que se abrumam nos olhos,
de quem se atreve a desenhar caminhos por percorrer e trilhar.
Entre o cá e o aí estende-se um trilho de pedras: negras - escolhos -,
que a vida se encarrega de construir, de engrandecer, de enredar.
E a vida faz-se;  E a vida semeia-se em corações calados,
em olhos saudosos, em amores mordentes e acicatados.

A vida arroteia-se, lavra-se, semeia-se. A vida enfrenta-se: dura.
E entre o cá e o lá constrói-se um castelo de areia, um desejo,
um sonho ou quimera - saudade - agreste, que o tempo apura.
Correm as nuvens por céus e mares, por brumas que sinto: e vejo,
que me abraçam gélidas; Dormências, despidas, num Aqueronte
sem principio nem fim. Até que um novo sonho acorde, desponte.

A vida corre; Ao sabor das horas - pelas colinas de sonho -,
ao sabor do vento, a desenhar caminhos onde me escrevo e deponho.



sábado, janeiro 07, 2017

SEM ETERNIDADE NEM TEMPO

Eternidade é um segundo de sol doirado,
é uma lágrima mais sentida num sonho acabado.
Eternidade é a maré sem oceano nem ondas,
onde mergulho as mãos sem sentir frio ou calor.
Eternidade é um não cá - nem lá - para além do desamor.

Eternidade toca-se com a ponta dos dedos e perde-se
com um piscar de olhos: ainda que atentos; Perde-se.
Eternidade é uma sombra que se esconde em cada suspiro,
e se apaga, a cada anoitecer, nas dobras do manto aveludado
de um oblívio quase etéreo. Como anjo a ouro encastoado.

Eternidade é um momento - suspenso - num tempo sem tempo.


domingo, janeiro 01, 2017

CARTA A UM ALGUÉM III


Terras de Prata



Minha sombra de alguém, o tempo passa, o tempo corre - e morre - e ressuscita num novo dia; Este dia. Dedilhei as horas e penteei os verdes prados, embalei mares de cobalto nos meus braços de satélite da vida. Gravitei pelo dia: que não para. Saltei barreiras de interrogações e certezas só para estar contigo - sombra de alguém. A noite cai, mais uma noite de mantos de veludo, a arrastar uma cauda de estrelas: cadentes, incandescentes. Só mais uma noite.
E tu continuas o teu caminho de sombra, não sei se paralelo ao meu. Não sei se cruzando o meu. No fundo nada sei de ti, minha sombra de alguém, sei apenas o que sinto se te penso; Sei apenas o que sonho, se te sonho - o que me invade - se te procuro. E hoje procuro-te, sabes? Procuro-te no ténue cair do dia, quando se desdobram as sombras e as penumbras, quando os pintores posam os pincéis e embrulham as tintas. Procuro-te na brisa que escorre da serra e se amadurece no mar. Procuro-te nas palavras - na melodia de cada uma delas -, nas imagens, nas luzes que acordam nas ruas, nos lares, no céu. Sim, procuro-te neste final de dia - já é noite - e não te sinto. Não te vejo: não te toco, nem a tua afável sombra me segue, nem se prende nos meus passos. Desapareceste - sombra de alguém.
A noite agigantou-se no tempo, as doze badaladas estão prestes a soar. Há no ar um vazio de vida, um vazio de palavras, de cores, de mundo. Onde estás sombra de alguém? Foste para o teu secreto espaço, onde só as sombras habitam? Foste ver o ano passar lá para o alto, bem perto do céu? Onde podes ver o mundo a teus pés - sem te sujares nas humanas figuras. Fico a sentir as horas passarem...

7...6...5....4...3...2...1....... Saltamos o ano.

Sombra de alguém - onde quer que estejas - que tenhas um novo ano de paz; Mesmo que a tua companhia não se faça sentir em mim, no meu prateado e espinhoso caminho. Mesmo que o teu sombreado toque não me toque mais, nem o teu perfume de escuro me inunde mais. Ainda que não seja mais capaz de pintar telas de sonhos com as cores com que me preenches a vida, desejo-te um ANO bem NOVO. Porque os Natais e Anos Novos da vida são aquilo que nós quisermos que sejam.

Feliz Ano Novo minha querida sombra de alguém.




O TEMPO PERDIDO NÃO SE RECUPERA

As palavras lançadas não voltam atrás, o tempo perdido já não tem retorno e a vida esvai-se, no silêncio voraz. Fica o caminho, diluído, sem...