sexta-feira, novembro 26, 2010

PENDULO


Balanço, balanceando na corda da ilusão,

balanço, menina louca, nesta imensa indecisão.

Balança criança adulta, na esperança de uma certeza,

balança mulher ingénua, lutando na aspereza

do caminho que traçaste.

Balanço, balanceando na certeza do pouco espaço,

balanço cambaleando, no tempo que é sempre escasso.

Balança, balança sem fim, dolente e sem pensar,

balança no rodopio do espaço por conquistar.

Tropeça naquilo porque lutaste.

Balanço, balanceando deixando que me fira

o balanço desta mágoa, este mar da eterna ira.

Balanço, balanceando contra a outra que sou eu.

domingo, novembro 21, 2010

ALVA VELA

Tenho tudo arrumado no gavetão

do "não quero pensar".

Tenho tudo organizado no eterno chavão;

"O que for se verá".

Hoje acho que consigo tudo e, se tentar,

até consigo antever o que se dirá.

Hoje sou dona do que sinto, porque não sinto.

Apenas calo, apenas guardo, apenas pinto

de cores neutras a minha imensa tela.

Tenho tudo empacotado lá no meu sotão

empoeirado de esquecimento e solidão.

Tenho tudo adormecido, de onde não brotam

imagens, nem sons, memórias ou mágoas,

se eu não pensar e não querer. Se fechar a mão

e nela esconder todas as tarefas árduas

que já vivi e vivo, largando-as na minha alva vela

como uma neutra pintura de uma batalha perdida.


domingo, outubro 17, 2010

VENDAVAL

Pés nus sobre o rochedo
assolado pelos vendavais,
cabelos ao vento no degredo
do silencio agonizante dos mortais.
Eleva-se bem alto a luz do sonho,
como um halo de santa benevolencia,
transfigura-se o sorriso tristonho
em gargalhada de inocencia.

Batida pelos ventos em des-harmonia
rasgada pela espera em lenta agonia.
Sacudida pelo sopro da certeza,
firmando os pés na clareza
do caminho que se abre rectilíneo
traçado pelo esquadro do destino
em passos medidos de declineo,
como se o mundo fizesse o pino
e às avessas corresse a maré-cheia.
E à lua numa dança louca e breve
se juntasse o sol em melopeia,
o meu olhar morrendo ainda se atreve
a cravar bem alto um agudo grito
como se de um pacto ou desvairado rito
dependesse a vida ou negra morte.
De pés nus sobre o rochedo
assolado pelos mais fortes vendavais,
abandonado somente à sua sorte
resiste à noite e ao medo,
resiste à dor e aos silêncios intemporais.


quinta-feira, setembro 23, 2010

PALAVRAS DE LONGAS SOMBRAS


Há palavras que soam como laminas cortantes

e abrem fundos poços de áridos desertos.

Há palavras que soam a ódios gritantes

manchando tudo à sua volta. Deixando incertos

os caminhos, perdidas as memórias,

vãs a dádivas e os sonhos, cada luta,

cada passo; Perdem-se as histórias,

os risos, perdem-se os laços na labuta

por uma insana certeza, uma sombra...

Há palavras que pairam quais rapinas,

gladiadores de encarniçada guerra.

Há palavras duras como o sol nas salinas

de garras afiadas como uma fera.

Há palavras.

segunda-feira, setembro 20, 2010

CINZELADO OUTONO


Olhei o céu de cinzelado tom,

ouvi a chuva que mansa tombava

e deixei meu sonhos à desfilada.

Abri a janela da minh'alma ao som

da outonal chuva que tamborilava

nas minhas vidraças, à desgarrada

com o bater certo do coração errante.

Este eterno sonhador titubeante

que se vai dando em brandos enganos,

em arrobos de instáveis esperanças

e desesperados medos.

A chuva caía lavando os desenganos,

arreigando as certezas mansas,

agrilhoando mais e mais os degredos

da alma que já não acredita mas luta,

por uma qualquer obra do destino, escuta

a voz do coração que ainda bate

ao tom cinzelado do céu outonal.


segunda-feira, setembro 06, 2010

PRATEADO RAIO DE LUAR

Um raio de luz sobre o lago parado,

um feixe prateado de luar

banhando o coração estagnado

cansado de se manter a lutar.


Uma noite de suaves perfumes

e sons de encantado de Verão,

uma ténue luminosidade de vaga-lumes

numa teia dançarina de solidão.

Um raio prateado de dulcíssimo Agosto

num lago de escuras águas pesarosas,

e o majestoso silencio do desgosto

em ondas breves de noites harmoniosas.

Um raio de luz paira sobre o meu lago parado...

terça-feira, agosto 31, 2010

RESUMO DE UMA PALAVRA


Tudo se resume a uma palavra,

a um sentir sem sentimentos,

é como um incêndio que lavra

derrubando em mil tormentos

tudo à sua passagem.

E é nessa dura derrapagem

que as palavras se confundem,

se misturam com a vida.

Pintam a nova roupagem

e quase que nos iludem

mostrando-nos uma saída.

Tudo se resume a uma palavra,

que não tem dono nem norte,

não tem regra e se alarga

como o espectro de uma morte.

O TEMPO PERDIDO NÃO SE RECUPERA

As palavras lançadas não voltam atrás, o tempo perdido já não tem retorno e a vida esvai-se, no silêncio voraz. Fica o caminho, diluído, sem...