segunda-feira, junho 17, 2013

O SOM DO SILENCIO

Acordei ao som do silencio, num quarto vazio de vida,
vazio de mim.
Acordei pela mão enganosamente doce da ausência dividida,
do caminho do fim.
Hoje a madrugada foi mais negra e a aurora mais dura.
Hoje acordei sem acordar.
A manhã entrou pelo quarto com um sopro de secura,
como um vento glaciar.
Acordei ao som do silencio, do vazio a ressoar
a escorrer pelas paredes de um quarto oco a vibrar.

Hoje vesti-me de esquecimento e elevei-me no ar,
e deixei que o mistral me levasse.
Hoje olhei sem ver esta vida, passando só por passar,
e deixei que o mar me molhasse.
Pedi ao tempo que abrandasse o seu eterno correr
para me deixar respirar.
Pedi à minh'alma forças para acreditar e querer
continuar a caminhar.
Mas apenas o silencio me responde, profundo a magoar.
Pesadamente marcando cada passo do meu andar.

quinta-feira, maio 30, 2013

SUPENSO SEGUNDO



Deixa-me apenas viver o segundo em que respiro,
nada mais que este suspenso segundo em que nada importa,
nem o riso, nem a lágrima, nem o sol nem a lua.
Deixa-me apenas absorver a vida neste suspiro,
neste brevíssima nota que nada mais comporta;
Nem sonhos, nem desejos, nem sensatez nem loucura.
Deixa-me apenas vogar, intemporal, neste segundo,
neste limbo perdido entre o cá e o lá,
entre o querer e o não querer, amar e desesperar.
Deixa  o meu arroxeado olhar desvanecer-se no mundo
que de braços abertos me aguarda em hora boa ou má.
Deixa-me apenas ser um suavíssimo respirar,
sem tempo, sem rumo, sem norma ou finalidade.
Deixa-me somente afundar na dura realidade
que é este breve segundo do meu respirar.....

sexta-feira, maio 17, 2013

VOGANDO




Vogo na fímbria sombria de um sonho acordado,
resvalando mansamente para um abismo que desconheço
e não temo.
Vogo como folha perdida em vendaval encarniçado,
como alva espuma em maré viva onde envelheço
mas não tremo.
Deslizo sem ruído pelas dobras desta vida,
ora vou, ora venho...Ora estou, ora fui,
olho sem ver, sonho se sonhar, quero sem querer.
Desejo sem desejar, acredito sem acreditar no amanhecer.
Empurrada, puxada, repartida e dividida,
passo a passo trilho o caminho que se dilui.
Deslizo na imensidão dos pálidos dias sem rumo,
como desfolhada margarida em agreste invernia,
como encanecido carvalho que perdeu o prumo
e se vergou silencioso à gelada ventania....

sábado, maio 04, 2013

CRISTALIZADO PRANTO


A ave branca e doce eleva-se breve na manhã de purpura e ouro.
O adejar suave das asas translucidas é uma promessa de amor,
um ardente desejo em coração inocente, puro e encantado.
Os matinais raios de luz são como espigas de trigo maduro e louro.
A brisa morna embala todos os corações em secretíssimo fulgor,
e o voar liberto da branca ave risca o azul do céu enamorado.

As areias quentes ondulam sob os dedos escaldantes do sol,
como pele desnudada sob mãos de amante.
Lá no alto, a breve ave lança uma doce aragem ao passar.
As agruras cá na terra quase que se tornam uma massa mole
que se molda e desmancha. Uma nuvem errante...
Um rio manso que cantando se precipita no imenso mar.

A doce ave branca desce mansa sobre a terra ressequida e dura,
trás no bico uma rubra rosa a sangrar, nas patas trás um punhal.
Dos seus olhos escorrem lágrimas de cristal e mágoa pura, 
da sua alva plumagem resta apenas um sonho intemporal...
Uma quimera na qual pôs toda a sua alma de pássaro branco.
A areia emudeceu,
o sol escureceu,
o amor morreu,
apenas a ave permanece alva em cristalizado pranto.


quinta-feira, abril 25, 2013

UM BEIJO


Como rosa por desabrochar,
como nuvem ténue no reverberante azul.
Como pássaro em inebriante voar,
como alva garça em escuro paul.
Um beijo, apenas um beijo.

Como risonha criança em berço dourado,
como cristalinas águas em frescos requebros.
Como o segredo ciosamente guardado,
como descoberta de iluminados cérebros.
Um beijo, somente um beijo.

Como o sol que não se toca,
como a lua que não se atinge,
como a vida que se escoa.
Como um fuso sem roca,
como um tecido que se tinge
com negra tinta que magoa.

Um beijo, apenas um beijo, tão somente...Um beijo que flutua

terça-feira, março 19, 2013

É TARDE....É TARDE!



É tarde!
É tarde porque me esqueci do amanhecer,
porque permiti que o meu olhar se perdesse.
É tarde!
E a vida resvala por mim a correr, 
a manhã definhou sem que me apercebesse.
É tarde, tão tarde!
O sol vai alto, o chão escureceu, um cão latiu
no fundo da sua tristeza
o mar em soluçado crescendo, rugiu,
espraiando toda a sua rude beleza.
Mas é tarde!
Eternamente tarde para ter pés de criança,

asas de pássaro e olhos de anjo.
É tarde!
É tarde para um sonho que não se alcança

sexta-feira, março 08, 2013

CAMINHO...SOMENTE

Virei o ano, virei a esquina, virei o porto de abrigo.
Caminhei descalça pelas pedras frias do caminho,
olhei o céu e vi-o abrir-se e fechar-se, rir e chorar,
desmanchar-se em lágrimas de anjo, e iluminar-se de sol.

Virei o silencio, virei o medo, virei o destino comigo.
Esfolei os joelhos, dilacerei os pés em duro espinho,
abri as mãos vazias e deixei-as somente tombar
frias, sombrias, arquejantes, perdidas sem farol.

Virei a página de mais um livro,
virei o sonho de mais um vazio,
virei a mordaça e o crivo
das minhas palavras no frio
de uma manhã sem rumo....


O TEMPO PERDIDO NÃO SE RECUPERA

As palavras lançadas não voltam atrás, o tempo perdido já não tem retorno e a vida esvai-se, no silêncio voraz. Fica o caminho, diluído, sem...