Um local tranquilo onde os raios de lua, feitos palavras, lançam feitiços e enxugam lágrimas
segunda-feira, outubro 20, 2014
NO SILENCIO DA NUDEZ
No silencio de um quarto vazio, nascem as horas arrastadas
e dolentes.
Nascem as lágrimas, a dor, o medo, nascem....devastadas
e incongruentes.
No silencio de quatro paredes, caem as máscaras, os sonhos,
fica a nudez,
atacam as ausências, revoltam-se as mágoas e nos abrolhos
fica a aridez.
No silencio das minhas profundezas, mordo a angustia,
mato as certezas, rasgo os caminhos incertos e sem rumo
agarro o meu magma em ebulição.
No silencio de mim, olho o mundo exterior com empatia,
estico as mãos para o vazio e para o abismo a prumo
das minhas falhas sem contemplação.
No meu silencio gritante, dispo as roupagens da vida,
entrego a nudez do que sou,
espero o inverno, ou o verão, espero sempre dividida,
naquilo que faço, penso e dou.
No silencio..Neste meu eterno silencio, grita uma alma
que odeia e ama, que se debate e revolta.
No silencio...Neste meu silencio apaga-se a calma
cresce a incerteza, a dor, e em cada volta
o actor regressa, coloca a máscara e sobe ao palco.
No silencio da plateia da vida é a mim que recalco.
No silencio, neste silencio, no vazio...
Neste duro e negro estio....
quarta-feira, outubro 01, 2014
AMANHEÇO SOLIDÃO
perco os passos numa vida sem sentido,
olho sem ver, canto sem voz...Sou fumo.
Sou ave negra de negro destino perdido.
Trilho um deserto sem cor, e um poente lilás,
deixo as minhas pegadas soluçadas para trás,
e teimo em seguir em frente sem saber porquê.
Amanheço solidão e dela me visto,
silenciosamente sem que nada me dê
vamos lado a lado e eu, calada, não insisto
em saber porque se cola à pele a solidão,
porque se abate sobre mim como um furacão.
Amanheço solidão e adormeço sem futuro,
caminho pela beira do abismo fundo
e deixo abertas as portas do meu imaturo
sonhar, das memórias desfeitas deste mundo.
Amanheço solidão e com ela caminho....Sem fim
quarta-feira, setembro 24, 2014
SEGUNDO DE AMOR
A vida é um segundo de amor, efémero e suspenso.
A vida é uma gota de orvalho que o sol seca impiedoso.
A vida é um breve e estranho momento, intenso,
a um tempo doce e amargo, alegre e pesaroso.
A vida é um segundo de amor, tão ténue e tão fugaz,
que se dilui na voracidade dos dias, na horas vazias,
na ausência feroz, na luta rude e audaz.
A vida é um segundo de amor, de noites sombrias.
A vida é um grito sem som, é uma lágrima sufocada,
é uma alma sem cor e amordaçada.
A vida é uma aridez de deserto, é um vento suão.
É uma ferida profunda, um abismo, um tufão.
A vida é um passo a cada a dia pisando a dor,
pendurando em cada árvore a lembrança sem cor,
calando a mágoa, esquecendo a memória,
olhando a estrada ingrata e inglória.
A vida é um segundo de amor, cego, surdo, espezinhado.
A vida é um segundo de amor, que se viveu e perdeu,
que passou no vórtice do tempo acelerado.
A vida é um segundo de amor… Que não ficou e se desvaneceu.
quarta-feira, setembro 17, 2014
TUDO SE ESVAI...
Tudo é efémero e breve, tudo passa, tudo se esfuma
no correr dos tempos, no virar dos dias enevoados
e sombrios.
Tudo é sombra de uma realidade que me defuma
os passos, que me embota a alma e os olhos toldados
fugidios.
Tudo passa deixando o seu rasto qual vibrante cometa,
riscando um céu de sonhos e perdas, de desalento.
Tudo se diluirá no incomensurável tempo que me remeta
para um mundo qualquer de estagnamento.
Tudo é efémero, tudo tem principio e fim,
tudo passa, tudo muda a seu tempo, nada é eterno
nem permanente.
Tudo é apenas imagem reflectida, distorcida, de mim.
O caminho estende-se enigmático e averno,
tão dolorosamente.
Tudo passa...Tudo é efémero ...Esfumado.
Tudo se esvai... Inexplicado.
no correr dos tempos, no virar dos dias enevoados
e sombrios.
Tudo é sombra de uma realidade que me defuma
os passos, que me embota a alma e os olhos toldados
fugidios.
Tudo passa deixando o seu rasto qual vibrante cometa,
riscando um céu de sonhos e perdas, de desalento.
Tudo se diluirá no incomensurável tempo que me remeta
para um mundo qualquer de estagnamento.
Tudo é efémero, tudo tem principio e fim,
tudo passa, tudo muda a seu tempo, nada é eterno
nem permanente.
Tudo é apenas imagem reflectida, distorcida, de mim.
O caminho estende-se enigmático e averno,
tão dolorosamente.
Tudo passa...Tudo é efémero ...Esfumado.
Tudo se esvai... Inexplicado.
domingo, setembro 14, 2014
NUVENS NUM CÉU ESTIVAL

As nuvens negras escondiam um sol ainda estival que se atrevia de quando em vez a espreitar tímido por entre as suas rivais e grossas oponentes. Uma ligeiríssima brisa agitava os cabelos ainda mal penteados da figura que, muito quieta, olhava o céu. O leve camisão que lhe cobria o corpo maduro, não escondia as formas, nem as revelava na totalidade, apenas insinuava o corpo meio reclinado no cadeirão de repouso que naquela manhã, silenciosamente, olhava o espectáculo que sobre a sua cabeça corria. Ao sabor das nuvens carregadas iam os seus pensamentos, igualmente grossos, negros, tristes e desolados. Parecia que a vida já não tinha sabor, era uma imensidão de dias sucedendo a dias, perfazendo semanas a suceder a semanas e meses a meses. Sorria, brincava, vivia, mas o seu coração e alma eram tão negros e chuvosos, como aquelas nuvens que ameaçavam o poder e força do sol de verão. Calava e seguia. Plena de memórias, plena de tristeza pelo tempo que sabia jamais voltaria a viver. Mas a vida não se compadece de amores e desamores. A vida tem um rumo, tem uma meta e um caminho, compete a cada um seguir o seu por mais duro que seja... É o seu.
Mas aquele momento em que a natureza aninhava nos seus braços e ao de leve tocava aquela alma dorida, quase colocava um sorriso, ainda que fugidio, no rosto que olhava as nuvens e sem se aperceber pedia ao sol que tivesse força para as furar e vibrar alegre e quente no céu. O astro rei por vezes fazia-lhe a vontade e de manso vinha beijar-lhe o rosto, aquecer o corpo, tocar-lhe os pés nus acariciar-lhe as formas. De olhos semicerrados nesses breves momentos as memórias eram céleres. percorriam-na velozes como bravios cavalos correndo à desfilada;
- Um outro sol quente e bem alto num céu azul, uma brisa do mar que lhe enchia as narinas de maresia e sal. Almoços, jantares, caminhadas e risos, momentos de paz e comunhão. E outros céus onde o cinzento imperara e a chuva se fizera sentir, os cheiros do campo orvalhado pelas manhãs de outono. Os cheiros das cidades, o bulício das ruas, a pressas das horas. A urgência das noites, a calma das manhãs de preguiça sem horários para cumprir...
O sol escondeu-se envergonhado de ter provocado tamanha dor naquele rosto por onde agora escorriam dois regatos salgados de memórias magoadas que jamais voltariam a repetir-se. As nuvens negras rebentaram soltando as suas gotas, acompanhando num súbito silencio da natureza os ligeiros soluços que sacudiam o corpo agora dobrado sobre si mesmo.
A chuva caía finalmente, a dor fluía finalmente sem restrições, jorrava como ferida aberta naquele coração destroçado e alma sem cor. Em uníssono ambos choravam um amor perdido.
domingo, agosto 31, 2014
NOITE DE VENTANIA
Sopra um vento frio de outono na noite de um verão estranho,
como estranho é este vazio louco onde o silencio clama em brados.
Sopra um vento, desolado vento, bramindo num rugido tamanho
que assusta a noite, que assusta o riso e a lágrima e os mantém calados,
amarfanhados e doridos, pequenos, efémeros e desvalidos.
E sempre o vento grita em duros rugidos!
Sopra pela noite esta ventania, grita, agita-se, raivosa e louca,
contrasta com o mortal silencio da sala sem cor nem luz.
Lá fora a luta bruta e desmedida, aqui a falsa calma mortalmente oca.
Sopra a ventania nesta noite escura onde só a dor reluz.
Pode o vento traduzir um coração despedaçado?
Pode ser ele a voz de um amor amordaçado?
Sopra um vento frio de outono nesta aveludada noite de verão,
as estrelas são luzeiros longínquos no manto celeste de azul profundo,
tudo se agita sob as mãos agrestes do vento sem tréguas nem compaixão.
Aqui grita o vento mordendo este silencio duro com o peso do mundo,
com o peso da vida. Aqui estrebucha o vento em derradeira agonia,
como se a vida já tivesse sido vivida em demasia.
Sopra um vento agreste e duro nesta noite de negro e desolado verão.
Sopra um vento glaciar dentro deste coração.
terça-feira, agosto 19, 2014
MUSGOS DO TEMPO

Há sombras roxas no olhar de quem espera,
e há cordas que amarram o coração dorido.
Há memórias contidas que o tempo desespera,
e vazios loucos nos sentimentos feridos.
Há estrelas que se apagam no céu nocturno
vestido de negro e macio veludo.
Há sonhos que fenecem neste tom taciturno
que nada altera, apenas se mantém mudo.
Há uma estátua de sal crestada pela ausência
que nada mais faz que estimular a dormência
dos dias que passam sem tom nem vida.
Há uma luz ténue que já não é dividida,
e que teima em agitar as dobras do esquecimento,
como se fosse um sussurrado lamento.
Há muros cobertos de musgo verde,
que rego com lágrimas de salgada dor.
Há névoas esvoaçantes onde o olhar se perde
como se quisesse recobrar a cor.
Há lamentos suspensos, calados,
nos lábios secos de beijos por trocar.
Há passos morrendo em caminhos cansados
de todas as dores, de todas as mágoas a torturar.
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