sexta-feira, novembro 28, 2014

UMA MANHÃ DE INVERNO

A manhã nasceu encolhida no frio de um Inverno que se avizinha. Um sol desmaiado e tímido espreitava, quase a medo, pelas negras nuvens que o encobriam. Na folhagem amarelecida do velho castanheiro saltitava um  arrepiado passarito em busca de algo para carregar para o ninho. Fossem materiais de construção ou alimento, o facto é que a azáfama era grande naquele tronco escuro e escorregadio das chuvas torrenciais dos últimos dias.
Prendeu-me a atenção a pequenina ave e dei comigo, meio vestida, meio despida, a pensar...
Nós corremos o tempo todo tentando gerir a nossa vida e mantê-la nos limites do razoável, do controlado e do confortável para nós próprios. E tantas vezes simplesmente não temos tempo para fazer tudo o que queríamos, ou o que precisávamos. Não temos tempo para parar e dizer aos nossos; Sabes que te amo? Sabes o quanto és importante e significas para mim? 
Não temos tempo para nos deixarmos tocar pela aurora, pelo ocaso, pelo marulhar das ondas em praia deserta e mergulhada no silencio das vozes humanas e na liberdade do grito das gaivotas.
Não temos tempo para ouvir os pingos de chuva a escorregarem singelamente para a relva verde e húmida que atapeta a base do tronco da vetusta ´"senhora da floresta", nem tão pouco damos atenção á minúscula aranha que tece laboriosamente a sua finíssima teia - Se olhássemos, oh se olhássemos!!
Veríamos uma renda ímpar que jamais alguém conseguiu igualar! Não temos tempo para dar um passo fora rotina, para quebrar uma amarra, não temos tempo para sentar e somente olhar o céu, observar as nuvens e beber o ar...Tão simples! E no entanto...Tão complicado para nós!
Fiquei ali na janela a sentir nos braços e no peito o ar frio da manhã, e a olhar embevecida para o meu amigo de penas que me mostrava uma das mais bonitas formas de dizer "Bom dia Dia! Bom dia Vida! Bom dia nova manhã!". Ali, esqueci-me das horas, esqueci-me que era dia de trabalho, que o transito ia tolher os meus esforços para chegar a horas e arrumar o carro. Esqueci-me do frio que arrepiava a minha pele nua, esqueci-me de que as lágrimas haviam brotado dos meus olhos como regatos não muitas horas antes, e do quanto a tristeza tinha amarfanhado o meu coração, e desfeito a alma em mil estilhas. esqueci-me que a vida por vezes é tão dura que rasga tudo à sua passagem. 
Ali, apenas me deixei tocar por aquele corpinho emplumado e tufado saltitando feliz e despreocupado em busca de algo que diligente e atento se esforçava por encontrar. Mas sem a pressão que caracteriza as buscas humanas, sem as caras feias que tantas e tantas vezes fazemos e pior, brindamos os outros sem culpa alguma.  Sem a força bruta que pomos nas acções e que arrasam, sem nos darmos conta umas vezes, sabendo o que fazemos outras, os que nos rodeiam. Não, nada disso... Ali estava a leveza da natureza na sua expressão mais pura, mais doce, mais simples. Ali estava o exemplo que devíamos ser capazes de seguir todos os dias, a todas as horas e em cada momento.
O quadro idílico desta manhã fria onde as cores iam  ganhando brilho e luz, inundava-me de paz e da certeza que os meus passos, quando me decidisse a da-los, iam ser mais brandos, mais pensados e mais calmos. Quanto mais não fosse em homenagem ao meu amiguinho de penas que, na sua vida de pássaro, acabava de me mostrar mais uma vez. A minha manhã ia ser com os olhos plenos de suavidade e beleza, de paz e de dar, ou pelo menos tentar, aos outros o que de melhor em mim ainda habita. Sem olhar ao que pensam, dizem ou fazem. Apenas porque sim.
Enregelada mas de coração risonho, fechei a janela e ....comecei o meu dia.



terça-feira, novembro 11, 2014

MEIO CAMINHO

A meio caminho entre o principio e o fim,
a dois passados do passado e outros dois do futuro,
olho a estrada nos dois sentidos  partindo apenas de mim.
E nas sombras aniladas está um caminho obscuro
que  trilhei, andei, suei, e bem ou mal já percorri.

A meio caminho entre o ido e o que está para vir,
está uma vida meio desfeita, meio perdida, meio esfumada
e dividida. Estão os erros e as lições, está um vazio a ferir.
Está a vontade de seguir e o desejo de ceder, extenuada.
No meio da estrada da vida o que foi que já vivi?

A meio caminho do fim olho em frente o infinito,
e apenas vejo o passado projectado para a frente.
Está lá o anil nas sombras, e o vazio, negro retinto,
estão lá os ecos passados reflectindo-se obstinadamente
nessa estrada longa e fria. O passado e o futuro estão aqui.

Tocam-se no meu corpo desnudado no fio da meia estrada,
no frio da meia vida, na solidão do atrás e do à frente.
Parada no caminho árido e escuro, como árvore seca e descarnada.
Olho o passado com nostalgia e o futuro amargamente.
O passado e o futuro chocam-se e fundem-se em mim.




terça-feira, novembro 04, 2014

ESPERANDO POR UM AMANHECER



Inunda-me um calor meigo que aconchega mas que calo,
porque não posso extravasar. Inunda-me a força da vida
que em mim repousa a pulsar. Este silencio onde falo,
sem sons, para não perturbar.  É estar assim dividida
entre temer e amar. Entre sentir-me rebentar de tanto ter para dar.

Inunda-me um sentimento doce preso por duras amarras
que somente quero quebrar. Inunda-me um periclitante vulcão
que está prestes a rebentar. Em mim trinam as guitarras
que o fado não sabe cantar. E a voz perde-se nesta solidão
de quem não pode falar. Com o coração alagado de um mundo para doar.

Como se calam os sentimentos que a voz não pode demonstrar,
que o corpo não pode entregar e alma tem que sufocar?
Como se trava a pressa e se anda com calma paciente e mansa,
quando tudo nos empurra para essa louca dança
de quem tem um mundo de vida para entregar?

segunda-feira, outubro 20, 2014

NO SILENCIO DA NUDEZ










No silencio de um quarto vazio, nascem as horas arrastadas
e dolentes. 
Nascem as lágrimas, a dor, o medo, nascem....devastadas
e incongruentes.
No silencio de quatro paredes, caem as máscaras, os sonhos,
fica a nudez,
atacam as ausências, revoltam-se as mágoas e nos abrolhos
fica a aridez.
No silencio das minhas profundezas, mordo a angustia,
mato as certezas, rasgo os caminhos incertos e sem rumo
agarro o meu magma em ebulição.
No silencio de mim, olho o mundo exterior com empatia,
estico as mãos para o vazio e para o abismo a prumo
das minhas falhas sem contemplação.
No meu silencio gritante, dispo as roupagens da vida,
entrego a nudez do que sou,
espero o inverno, ou o verão, espero sempre dividida,
naquilo que faço, penso e dou.
No silencio..Neste meu eterno silencio, grita uma alma
que odeia e ama, que se debate e revolta.
No silencio...Neste meu silencio apaga-se a calma
cresce a incerteza, a dor, e em cada volta
o actor regressa, coloca a máscara e sobe ao palco.
No silencio da plateia da vida é a mim que recalco.
No silencio, neste silencio, no vazio... 
Neste duro e negro estio....

quarta-feira, outubro 01, 2014

AMANHEÇO SOLIDÃO





Amanheço solidão e caminho sem rumo,
perco os passos numa vida sem sentido,
olho sem ver, canto sem voz...Sou fumo.
Sou ave negra de negro destino perdido.
Trilho um deserto sem cor, e um poente lilás,
deixo as minhas pegadas soluçadas para trás,
e teimo em seguir em frente sem saber porquê.
Amanheço solidão e dela me visto,
silenciosamente sem que nada me dê
vamos lado a lado e eu, calada, não insisto
em saber porque se cola à pele a solidão,
porque se abate sobre mim como um furacão.
Amanheço solidão e adormeço sem futuro,
caminho pela beira do abismo fundo
e deixo abertas as portas do meu imaturo
sonhar, das memórias desfeitas deste mundo.
Amanheço solidão e com ela caminho....Sem fim

quarta-feira, setembro 24, 2014

SEGUNDO DE AMOR

A vida é um segundo de amor, efémero e suspenso.
A vida é uma gota de orvalho que o sol seca impiedoso.
A vida é um breve e estranho momento, intenso,
a um tempo doce e amargo, alegre e pesaroso.

A vida é um segundo de amor, tão ténue e tão fugaz,
que se dilui na voracidade dos dias, na horas vazias,
na ausência feroz, na luta rude e audaz.
A vida é um segundo de amor, de noites sombrias.

A vida é um grito sem som, é uma lágrima sufocada,
é uma alma sem cor e amordaçada.
A vida é uma aridez de deserto, é um vento suão.
É uma ferida profunda, um abismo, um tufão.

A vida é um passo a cada a dia pisando a dor,
pendurando em cada árvore a lembrança sem cor,
calando a mágoa, esquecendo a memória,
olhando a estrada ingrata e inglória.

A vida é um segundo de amor, cego, surdo, espezinhado.
A vida é um segundo de amor, que se viveu e perdeu,
que passou no vórtice do tempo acelerado.

A vida é um segundo de amor… Que não ficou e se desvaneceu. 


quarta-feira, setembro 17, 2014

TUDO SE ESVAI...

Tudo é efémero e breve, tudo passa, tudo se esfuma
no correr dos tempos, no virar dos dias enevoados
e sombrios.
Tudo é sombra de uma realidade que me defuma
os passos, que me embota a alma e os olhos toldados
fugidios.

Tudo passa deixando o seu rasto qual vibrante cometa,
riscando um céu de sonhos e perdas, de desalento.
Tudo se diluirá no incomensurável tempo que me remeta
para um mundo qualquer de estagnamento.
Tudo é efémero, tudo tem principio e fim,
tudo passa, tudo muda a seu tempo, nada é eterno
nem permanente.

Tudo é apenas imagem reflectida, distorcida, de mim.
O caminho estende-se enigmático e averno,
tão dolorosamente.
Tudo passa...Tudo é efémero ...Esfumado.
Tudo se esvai... Inexplicado. 

O TEMPO PERDIDO NÃO SE RECUPERA

As palavras lançadas não voltam atrás, o tempo perdido já não tem retorno e a vida esvai-se, no silêncio voraz. Fica o caminho, diluído, sem...