quarta-feira, novembro 06, 2013

NA MARGEM... À MARGEM

Na margem olhando a imensidão das águas lívidas, desertas,
como deserto e lívido está o coração estremecendo no peito,
asa perdida em céu negro de nuvens carregadas e inquietas.
Como barco encalhado no lodo de um cais abandonado sem jeito.
Somente na margem olhando o espelho gélido beijado pela lua
fria e distante, branca e arrogante, branca e sobranceira espreitando nua.
Na margem despida de mim, despida de fogo e de neve, de amor e ódio,
despida da vida e da morte. Apenas na margem perdida sem rumo,
a meus pés as águas paradas e brilhantes são o silencio feito nó górdio,
são o caminho dos caminhos, são o equilíbrio num fio de prumo.
Na margem da vida, na margem do amor, na margem do sonho... Só,
Inteiramente só, lividamente só, perdidamente só, com asas feitas de pó,
de um pó luminoso e efémero onde apenas habita o vazio descolorado
E infinito. E na margem as águas mansas repousam embalando a vida,
embalando a morte, embalando o sonho perdido e desagregado.
Sobre as prateadas águas vogam memórias, desejos e uma alma dividida.
Na margem, apenas na margem da vida...

domingo, outubro 13, 2013

CASTELOS DE SOLIDÃO



Somos um feixe de pontas soltas...Umas tocam-se, outras não.
Somos um punhado de risos e lágrimas que atravessam a vida,
umas vezes pelo deserto, outras pelo mar sem fim outras pela multidão.
Somos o que somos, dando, recebendo, tirando...Somos um junco de partida.

Hoje somos o calor do verão, amanhã a neve da invernia,
hoje sabemos o caminho que queremos, amanhã tropeçamos sem rumo.
Hoje temos a vida pulsante no coração em festa, em louca euforia,
amanhã somos o nada, somos o pó sem futuro, somos débeis sem aprumo.

Hoje rimos como crianças, despreocupados, insanos,
amanhã caem as lágrimas de tantos duros desenganos.
Hoje damos as mãos num amor intemporal e único,
amanhã cortamos amarras do cais podre e antagónico.

Somos cabeça e coração, lógica e sentimento, amor e ódio,
ressentimento e perdão.
Somos o "nós" e o "eu", somos tantas vezes o "tu, o ele, o ela",
no fundo somos apenas um castelo de solidão.


sábado, setembro 14, 2013

ADAGA





Há nesta noite um mar de silencio que se abate sobre a alma,
como ave de rapina sobre a indefesa presa que descuida de si.
Há um punhal de realidade absurda e de incongruente calma
enterrado no mais profundo do meu ser, abrindo mesmo ali
no coração um lenho dorido, uma ferida jamais sarada,
jamais consertada, remendada. Jamais calada ou reparada.
Há nesta noite um raio de luar prateado que me transporta
para bem longe daqui. Para um lugar mágico e encantado
onde tudo para e paira , tudo flutua. Um lugar que comporta
o sonho, o desejo, o riso e a lágrima, o segredo mais guardado.
E há esta adaga que me acorda, me desperta de devaneios,
não me permite perder-me em sonhos, e me acorda sem rodeios
para a dura realidade - Este silencio rapace que devora esta alma,
que consome o coração, que obriga ao grito magoado e mudo
que na garganta veio morrer, como um pranto que se acalma
em lágrimas de intensa dor. Como um sacrílego tributo
a um moribundo amor

quinta-feira, agosto 29, 2013

É A HORA!


É hora de recolher as velas e deixar o barqueiro descansar,
é hora de esquecer a maré deixando o barco bolinar.
É hora de fechar os olhos, negros gastos de tanto procurar.
É hora de permitir ao corpo simplesmente relaxar.
É hora de chamar os deuses que imperam no grande mar
e com eles orquestrar uma nova sinfonia.
É hora de calar fundo toda esta horrenda agonia
em que mergulho de cabeça, sem sequer poder pensar.
É hora de querer e não querer, hora do sim ou do não,
é hora de ser o que sou, apenas e só mulher.
É hora de arrancar esta pele, e esta máscara se puder,
é hora de arrumar todo o medo, de pedir e dar perdão.
É hora de beber o cálice, seja de fel ou de absinto,
seja do mais puro e doce néctar ou seja de suavíssimo mel.
É hora, minha vida, é hora! é hora de percorrer cada aurora,
alcançar cada poente, dançar louca pela estrada fora
despojada de preconceitos, de normas e leis de papel.
É hora de abrir todas as portas dar largas ao que sinto.
 
 
É hora de recolher as velas e deixar a noite flutuar…..

sábado, agosto 10, 2013

PASSOU O MEU TEMPO.....DESVAIRADO


Como a asa de uma gaivota que perdeu o rumo,
como o fumo de um navio que passou ao largo.

Passou o meu tempo….
Como a gaveta aberta onde alinho e arrumo
as memórias que vogam num mar triste e amargo.

Passou o meu tempo…
Como o beijo aflorado, o desejo ancorado na praia deserta,
como a água que por entre os dedos se esvai incerta.

Passou o meu tempo….
Do tempo que não para nem se acerta, do tempo que sobra
do tempo que chora, do tempo que ri e soçobra.

Passou o meu tempo…
E ficou o espaço oco e enevoado, como manhã de outono,
como barco fantasma, como lágrima cristalizada em puro abandono.

Passou o meu tempo…
Nas mãos abertas vazias, nos olhos fechados em sonhos perdidos,
no corpo usado e despido, em todos os despertos sentidos.

Passou o meu tempo….
Na espera de um novo tempo, sentado à beira do abismo,
oscilando entre o cá e o lá, entre a luz e a escuridão, perfeito antagonismo!

Passou o meu tempo…
Nas palavras murmuradas, nas juras apenas sonhadas e nas que foram juradas
entre o soluço e o grito de solidão. Nas frases de paixão apenas sussurradas.

Passou o meu tempo…
Na ilusão de um momento, efémero, precioso, vivido e ambicionado,
mas o tempo apenas passou sem se ater a nada. Passou desvairado!


 

quinta-feira, julho 04, 2013

LUA CHEIA



Uma lua prateada projecta-se na noite escura como breu
As sombras, são anjos negros alados de doirado sonho,
e as memórias flutuam soltas, libertas sem fronteira e sem margem.
A lua lança no meu leito vazio um poder inebriante que é seu,
tão seu! Tão único, tão dolorosamente belo e medonho.
E pela janela entreaberta o perfume da terra mistura-se na aragem.
Uma enorme lua prateada cobre o meu corpo de orvalho luminoso,
beija a minha alma com o ardor da solidão, num desejo majestoso
de ser fogo, e ar e água, de ser o tudo e o nada, o hoje e o amanhã.

 
Ah longínqua lua prateada cobre toda a mágoa gritante, esconde-me ate ser manhã.





segunda-feira, junho 17, 2013

O SOM DO SILENCIO

Acordei ao som do silencio, num quarto vazio de vida,
vazio de mim.
Acordei pela mão enganosamente doce da ausência dividida,
do caminho do fim.
Hoje a madrugada foi mais negra e a aurora mais dura.
Hoje acordei sem acordar.
A manhã entrou pelo quarto com um sopro de secura,
como um vento glaciar.
Acordei ao som do silencio, do vazio a ressoar
a escorrer pelas paredes de um quarto oco a vibrar.

Hoje vesti-me de esquecimento e elevei-me no ar,
e deixei que o mistral me levasse.
Hoje olhei sem ver esta vida, passando só por passar,
e deixei que o mar me molhasse.
Pedi ao tempo que abrandasse o seu eterno correr
para me deixar respirar.
Pedi à minh'alma forças para acreditar e querer
continuar a caminhar.
Mas apenas o silencio me responde, profundo a magoar.
Pesadamente marcando cada passo do meu andar.

O TEMPO PERDIDO NÃO SE RECUPERA

As palavras lançadas não voltam atrás, o tempo perdido já não tem retorno e a vida esvai-se, no silêncio voraz. Fica o caminho, diluído, sem...