sexta-feira, maio 04, 2018

MAREANDO TODAS AS MARÉS


Pisa o chão aguado como quem beija as nuvens,
nos olhos leva agulhas de esperança calada
presas nos cílios, vibrantes como borboletas.
Percorre as ruas, como mensageira alada
de “boas novas” obsoletas.
Serena, como anjo sem sexo nem idade,
leva no coração um navio, na alma o sonho,
nas mãos leva a Cruz de Cristo; farol na escuridão.
Vestida de espumas e algas, no tempo enfadonho
de quem não tem tempo, nem rumo, apenas a imensidão
de um caminho a percorrer, de um prazo a cumprir.

Pisa o chão como quem ama por dentro,
como quem doa tudo o que tem, tudo o que é.
Olha a vida como se dela fosse o húmus, o centro.
E caminha no caos com carta de marear toda a maré.
É um ser sem rei nem roque, sem norte nem sul,
é mulher, criança, amante?
É o que começa e termina, dia e noite, ir e vir,
estar e partir. Maga? Bruxa? Cartomante?
Ou apenas nebulosa perdida em tormenta de sentir?
Pisa o chão como quem beija a vida,
Vive a vida como quem beija o chão que a acolhe,
Segue, glauca, sem casa de partida,
Sem meta, sem tempo, sem bote e sem molhe.

Pisa o chão como que pisa a vida… de partida.

Lágrimas de lua


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sexta-feira, abril 20, 2018

PAREDES ESBURACADAS

Apesar das paredes, o frio arreganha-se no corpo,
apesar das janelas, a noite embrenha-se nos olhos,
apesar do querer, o vazio instala-se sem escolhos,
como caminho de verdes silêncios e ocres madrugadas.
Apesar dos botões, as flores mantêm-se enrugadas
no limbo da vida, que se encontra suspensa, em espera.
Apesar do nascente sol, a lua renasce, como rainha: impera.
Apesar dos passos, das mãos, do desejo, a vida corre,
respira suavemente, como quem sonha, como quem morre,
como quem passa, como quem fica, como quem parte
deixando um rasto de estrelares memórias. Meu baluarte
de guerreiras sombras, onde me entrincheiro; guerreira-amante,
mendiga, descalça nas pedras de um cais obsidiante,
de onde partem navios sem mastro. Botes sem leme,
sonhos sem fundo, onde o salgueiro treme
nas vagas de vento, soltas em brados, em euforia.
Apesar das paredes, o frio entranha-se em correria.
Amortalha o corpo, enfeitiça a alma, veste o coração.
Apesar das paredes: a "casa" permanece em esburacada desilusão.



Lágrimas de lua

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quarta-feira, abril 04, 2018

LONGÍNQUA VALSA



Imagem retirada da net

Subi ao eterno para te contemplar,
das etéreas nuvens, beijar a sombra que em mim ficou.
Subi ao mais alto dos céus para implorar,
que tudo se apague, esfume, que se dissolva o que sobrou.
Marioneta sem jeito, presa por fios de gastos luares,
olhos de andorinha sem beirado, asas quebradas de vento
suão. Boneca de trapos numa cadeira sem tempo nem vagares.
Folha arrancada a uma árvore sem nome que suspira num lamento:
De onde vem o vento norte? Que navios traz encurralados nas vagas?
Que sonhos espreme pelos caminhos de arrepiado desalento?
E que novas, em amarelecidas cartas, contam diletantes sagas?
Subi ao eterno para te contemplar,
de longe, do meu silêncio; dura clausura de monja, descalça
nas negras pedras, de um caminho ainda por caminhar.
Subi ao mais alto dos céus; dancei uma longínqua valsa
de desconcertado piano, desafinada ortografia, patética melodia.

Subi ao celestial azul para te olhar
e derramei, sem querer, pérolas de um longo penar.


Lágrimas de lua



Imagem retirada da net






quarta-feira, março 28, 2018

"HÁ LODO NO CAIS"

Calei a manhã que nascia, no olhar.
Esfumei as brumas do desejo na aragem
que do poente se levanta, breve, doce,
como caricia de flores, de folhagem,
de rosas escondidas em outono precoce.
Calei a mágoa vazia que crescia, a torturar.
Toquei o infinito, a eternidade que dura um momento,
que tem forma de água e alma de vento,
que se veste, como nova pele, como um prolongamento
de mim para fora de mim, num silencioso lamento.
Lancei-me no verde inventado para lá de um mar
que já não navego.  Ondulante de sonhos desamados,
ou de amados sonhos para sempre amordaçados.
Vesti-me de brumas, enfeite-me das utopias dos desarmados,
dos pobres e dos ricos, dos que da vida foram enjeitados.
Amei um amor que não existe, amei até não saber mais amar.
Dilui as sombras em profundas águas azuis, amarrei o barco no cais,
onde o lodo é branco e as pedras longas despedidas de partir.
De partir sem voltar, de voltar sem sair, de nau sem estais.
Pintei uma tela de encanto, oca de vida, um eterno mentir.
Lancei-me num caleidoscópio de inicio e fim a pelejar.
E voltei ao nascer, e corri ao morrer, e fui pássaro e bruma,
fui hoje e ontem, mas jamais o amanhã; esse, a Deus pertence,
não á humana vontade. E cresci e perdi. Arrojei-me à espuma
de cada dia que passa, e nos teus olhos desenho a dor que vence,
a dor que verga, o vazio que preenche, e o sonho que adormece


como o “Lodo no cais

Lágrimas de lua






terça-feira, março 13, 2018

91 - TANTA SAUDADE...







Hoje, em especial, um beijo que chegue para lá das nuvens, de onde te peço continues a velar por mim.


Lágrimas de lua

sexta-feira, março 09, 2018

VESTIDO DE NOIVA




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Branca e florida, engrinaldada de orvalho,
povoada de sonhos secretos por cumprir,
caminha a eterna noiva em brusco desagasalho,
entre espinhos de rosas ainda por descobrir.
Branca, como neve imaculada, caminha sem destino,
leva nas mãos violetas, nos pés alma de peregrino.
Cinge-lhe a fronte o eterno, sonhado, jamais tocado,
vislumbrado, bordado por anquilosada mão
ás rendas do alvo vestido. O véu, de destino imaculado,
envolve-lhe as formas de menina; orquídea em botão.

Branca e encoberta vai a noiva, descalça pela vida
que sonha, de jasmins e magnólias povoada.
Eleva a alma às fimbrias do infinito, nele consolida
a sua certeza de ser - para sempre – e em voz embargada
murmura solene prece;
- Amar-te-ei sem tempo, sem limite, como a mão que tece,
certeira, os fios de uma vida de tempestades e acalmias-.
Caminha tolhida de verdes musgos e heras imemoriais,
morreram aos poucos os sonhos, as roseiras tornaram-se bravias,
os passos tropeçam nas rendas empoeiradas, intemporais.

Branca e orvalhada morre a noiva, em leito de violetas tardias….


quinta-feira, março 01, 2018

EXCOMUNGADAS SENTINELAS


Como se elevam as encapeladas ondas do vazio,
para onde arrostam esta corpórea alma de negras vestes?
Um dia abri uma janela sem tempo e olhei ao largo
em busca de um navio sem mastros nem velas.

Um dia desaguei num espalhafatoso Estio,
onde o sol era lua e a lua um monte de cristais agrestes.
Ainda ontem te olhei nos olhos; apenas vi o embargo
com que pintaste uma tela de frases, esquecidas nas vielas.

E as ondas, de vida plena, esmurram os mandos do bailio,
que governa as horas do sonho. Entrópicas, as estepes
plantadas um dia, como farpas de assinado encargo
que carrego na alma, nos olhos; enevoadas janelas.

Ainda ontem te embalei os medos, aconcheguei do frio
que inundava as horas. Foi ontem, em noite de ciprestes,
que inventei palavras novas, abri as veias ao veneno amargo
de um amor sem nome, cego, pleno. Excomungadas sentinelas

de um tempo que o tempo enviesou, torceu, esmaeceu, como pavio
de esfarelada vela. As encapeladas ondas, deste manto de celestes
encantos, esfumam-se pela brecha de um esquecimento que alargo
ao futuro, ao passado e encastoo numa lágrima de aguarelas.


Como se encapelam as ondas, como rugem os mares,
 como choram as gaivotas.... nas praias do fim do mundo.



Lágrimas de lua

Imagem retirada da net

O TEMPO PERDIDO NÃO SE RECUPERA

As palavras lançadas não voltam atrás, o tempo perdido já não tem retorno e a vida esvai-se, no silêncio voraz. Fica o caminho, diluído, sem...