domingo, dezembro 27, 2009

TEMPESTADE


Há uma ventania que enfuna a vela solta
da pequena barca perdida e já sem rumo,
singra a custo contra a maré revolta
tentando manter a rota, manter o prumo.

Mas o mar teimoso, encapelado e duro
açoitando os flancos desagastados
corrói a madeira, destrói esse muro
que separa as almas dos desgraçados.
E o vento enchendo a vela bamba
empurra, torce, geme grita e rodopia,
sob a sua gritaria a barquinha camba
arrastando as vidas em agonia.
A ventania cresce enrugando as águas,
tragando as almas frágeis num turbilhão,
entrechocam-se as ondas de encontro às fraguas
e as lágrimas descem mansas na solidão.


quarta-feira, dezembro 23, 2009

FESTAS FELIZES

A LUZ, fez-se pequena estrela para iluminar os caminhos dos homens todos os dias das suas vidas.
O AMOR, desceu à terra no choro indefeso de uma criança para que os homens tivessem a VIDA que jamais tem fim.
No NATAL apenas relembramos com mais intensidade tudo isto. Hoje chega-nos mais um NATAL, façamos dele um hino de Glória, Vida, Amor e PAZ.

FELIZ E SANTO NATAL

quarta-feira, dezembro 16, 2009

VERÃO


Acabara de acordar.
Pela janela entrava o sol em jorros luminosos e fortes, embora o dia mal tivesse também acordado, adivinhava-se um belíssimo dia de verão, quente, luminoso, resplandecente e alegre., Espreguiçando-se deleitada e mole da noite bem dormida, descobre o corpo nu e salta da cama, encaminhando os passos para um revigorante duche matinal.
Mas o sol chama-a pela vidraça, descalça e de cabelos em desalinho vai colar o rosto ao vidro já quente, piscando á intensidade luminosa. Pelo jardim corre o melro atrevido que todas as manhãs vem buscar as migalhas que ela lhe deixa cada noite, os pardalinhos reboludos saltitam de migalha em migalha fugindo em piados estridentes do negro e grande melro de vibrante bico amarelo, que reclama o seu quinhão do festim. Duas borboletas brancas dançam o seu bailado de corte nupcial dando um toque de magia á manhã. A verde relva já pede água para manter o seu habitual frescor, mas lança o seu apelo mudo ao rosto que a observa de janela do quarto.
Esquecendo-se das horas, planos, projectos e trabalho, enfia o transparente camisão que usa normalmente sobre o fato de banho e lança-se escada abaixo, abre a porta das traseiras e vai sentar-se sobre o manto verde que cobre o jardim, as mãos afagam as ervas e aos poucos vai deixando descair o corpo, ficando deitada de barriga para cima, olhos fechados apenas sentindo o calor do sol matutino invadi-la aos poucos, as pernas já morenas, os pés nus, as coxas que sob a túnica espreitam, o peito que sobe e desce cadenciado ao ritmo da respiração, e que, mal escondido se evidencia redondo, sob o tecido leve. Os cabelos espalhados pelo chão, tudo é doçura e silêncio.
Um outro rosto contempla da mesma janela, em igual quietude e de respiração suspensa a imagem da mulher que se recorta a seus pés. Aos poucos um sorriso vai-se abrindo no rosto ainda por barbear e com os traços de uma noite tão bem dormida quanto a dela.
Lançando sobre o corpo um roupão leve desce as escadas e entra na cozinha, põe a chaleira ao lume e desce de manso em direcção ao local onde ela permanece de olhos fechados, meio sorriso nos lábios e perfeitamente imóvel.
Sem querer quebrar o idílico momento, estende-se devagar ao seu lado e passa-lhe um braço sobre o corpo, fazendo descer sobre o rosto calmo o seu, para depositar um beijo suave nos lábios entreabertos.
É o Verão, que acolhe aqueles dois corpos vibrantes e plenos de energia, a terra será o leito, e o perfume que dela se eleva mistura-se com um outro não menos forte; O amor feito vida.
Lá do alto o sol lança os seus raios quentes com maior intensidade, penetrando fundo no solo sedento de calor.
As aves espreitam o jardim silencioso, vibrante e transbordante de vida, troca e amor.

quinta-feira, dezembro 10, 2009

INVASÃO DO VAZIO


Um sopro de ar vindo da alma

do mais profundo do ser,

lança nesta aparente calma

a saudade do querer,

a invasão do vazio que morde

pela madrugada.

Cada momento é um acorde

de uma guitarra quebrada

em estranha melodia.

Tão oca sinfonia!

Um sopro de fria verdade

evade-se do fundo do ser,

vem de manso, sem alarde,

vem matando e a morrer.

Notas quebradas de vida

que a vida já esqueceu,

e na fúria da alma sofrida

entregou as armas e morreu.

Acordes vindos do nada

rasgando a alma à desfilada!