quarta-feira, dezembro 30, 2015

TELA INACABADA


Calam-se os pincéis na pressa das horas
que medeiam entre o nascer e o ocaso.
Cala-se a solidão onde ainda moras
e onde me perco tropeçando ao acaso
nas pedras das memórias e dos sonhos perdidos.
Nos trilhos das saudades e de beijos esquecidos.




Calam-se as cores da minha tela inacabada 
que o vazio veio pintar de negros tons.
Cala-se a lembrança e a esperança ansiada,
morrem aos poucos todos os sons
das promessas implícitas e afloradas,
das promessas toscas, balbuciadas.

Calam-se as horas que arrastam o virar do ano,
e calam-se os sonhos que perderam a cor.
Cala-se o mundo mas o tempo corre profano
e nada parece calar esta dor
que me grassa no peito e perturba a calma,
que me invade sombria e me rasga a alma.

Calam-se os pincéis na minha tela inacabada
e a vida esvaí-se por um ferida profanada.

sábado, dezembro 26, 2015

PRINCESA DA LUA










- Olá princesa da lua! 
Onde estão os teus cabelos de argêntea luz?
E o teu olhar de embevecida paixão?

 - Olá princesa da lua!
Onde escondes a dor da tua cruz?
E o peso do engano e da desilusão?

 - Olá nuvem que passas breve,
enevoando o sol nascente
com as tuas brumas de salgado sabor.

 - Olá nuvem que passas breve,
os cabelos levou-os um vazio dormente
e o olhar perdeu-se num dia sem cor.
A dor é o adorno que me enfeita a fronte
e o engano e a desilusão são barca de Caronte
que me leva por inusitado mar.

 - Olá princesa da lua!
Onde guardas o teu coração, gelado de acreditar?
E os teus sonhos onde pairam? Onde vogam?

 - Olá princesa da lua!
Porque choram os teus olhos de prateado luar?
Derramando diamantes que te derrogam.

 - Olá nuvem que passas breve.
deixando no céu o teu odor,
o meu coração levou-o o mar em maré de invernia.
E os meus sonhos guarda-os um amor
que foi grande e forte, que foi vida e cor um dia.
Deixa que chore diamantes, são pedaços de alma nua.
São os restos de uma vida para que a vida flua.

 - Adeus princesa da lua de olhos de eterno luar...
 - Adeus nuvem de brumas leves em céus limpos a flutuar...

sexta-feira, dezembro 25, 2015

ESVAZIADO CASULO

Mero invólucro de carne e ossos consumado
onde os sonhos perderam o norte e o sentido.
Os olhos ainda vêm as auroras e os ocasos,
os lábios ainda se arrepiam num sorriso apagado,
mas o mundo parece vago, escuro e tão despido.
Um mero invólucro o meu para que não haja atrasos
nos caminhos por percorrer, nas madrugadas por nascer, 
apenas um casulo feito de brumas e desenganos.
Nas mãos os farrapos de uma vida esfumada,
nos olhos um lírio roxo de longo padecer.
No coração um vazio que se fez ao longo dos anos
e se colou à pele camada após camada, após camada.
Mero invólucro esta minha concha vazia
onde os sentidos se perdem e diluem devagar,
onde os dias são noites e as noites são luas a morrer.
Onde do limbo espreita  um olhar de dorida agonia
e do vazio a voz rouca de um passado por enterrar.
E os dias passam, arrasta-se a vida por mim a escorrer.
Mero invólucro de perdida alma de negras brumas
enfeitada de vazios e ocos enganos... Mero invólucro!



CONCHA VAZIA


O sol já subiu no céu de mais uma manhã de inverno,
o frio invade cada fibra de uma alma despida, nua,
tão nua, tão sofrida, tão vazia.
E o sol brilha lembrando que ainda há luz no inferno,
e esperança na concha vazia de uma verdade crua,
desesperadamente dura e fria.

Os sorrisos enfeitam as almas, os rostos as vidas,
as mãos ainda se dão e os beijos ainda são beijos
de um sonho que ficou por cumprir.
Ainda há dias de brumas mágicas e antigas
e fadas nos bosques, e amores e desejos,
Ainda há corações doridos a sucumbir.

Há uma concha abandonada em praia deserta
e um caminho escuro por percorrer,
há passos incertos em trilhos inseguros, 
E ondas de dor em ferida aberta.
Há sois e há luas e há sonhos a morrer.
O sol já subiu no céu, mas não quebra os muros
que envolvem um coração vestido de brumas.

sábado, dezembro 19, 2015

ESTE ANO...


Este ano....
as estrelas estão mais longe
o calor partiu para rumo incerto.
Este ano....
sou grão de areia, sou monge
sou ave perdida em rubro deserto.
Este ano....
não brilha o lume no peito,
apenas um sorriso envergonhado.
Este ano....
nada tem cor, nem sabor nem jeito,
passa o tempo, desajustado.
Este ano...
fecho o livro devagar, sem reler as minhas páginas,
sem me prender em sonhos vãos.
Este ano...
É mais um ano que passa, só mais um...a passar.... 

quarta-feira, dezembro 09, 2015

CORDAS DA MINHA VIDA


Dedilho as cordas da minha vida para lhe ouvir os sons
que da distância me lembram que tive uma vida...Um dia.
Olho pelo denso nevoeiro os meus passos marcados pelos tons
de uma melodia estranha, quase profana, que me arrepia
e coloca neve nos cabelos, sulcos no rosto, lágrimas no olhar.
Tudo deveria ser simples. Tudo deveria não custar a passar.

Dedilho as cordas das minhas memórias para me lembrar
que. um dia fui mulher, flori. Sorria como borboleta estonteada,
louca, prenhe de sonhos, de desejos, de vida, de amor para dar.
Olho pelas brumas matinais que me envolvem inebriada
e me vestem de liquida agonia, de calada e profunda dor.
Tudo deveria ser manso e meigo, Tudo deveria ser AMOR.

Dedilho as cordas da minha guitarra quebrada,
da minha alma negra, dolorosamente marcada.
Dedilho as cordas de uma torturante agonia
que me inunda e profana, que me percorre à porfia.