quinta-feira, maio 30, 2013

SUPENSO SEGUNDO



Deixa-me apenas viver o segundo em que respiro,
nada mais que este suspenso segundo em que nada importa,
nem o riso, nem a lágrima, nem o sol nem a lua.
Deixa-me apenas absorver a vida neste suspiro,
neste brevíssima nota que nada mais comporta;
Nem sonhos, nem desejos, nem sensatez nem loucura.
Deixa-me apenas vogar, intemporal, neste segundo,
neste limbo perdido entre o cá e o lá,
entre o querer e o não querer, amar e desesperar.
Deixa  o meu arroxeado olhar desvanecer-se no mundo
que de braços abertos me aguarda em hora boa ou má.
Deixa-me apenas ser um suavíssimo respirar,
sem tempo, sem rumo, sem norma ou finalidade.
Deixa-me somente afundar na dura realidade
que é este breve segundo do meu respirar.....

sexta-feira, maio 17, 2013

VOGANDO




Vogo na fímbria sombria de um sonho acordado,
resvalando mansamente para um abismo que desconheço
e não temo.
Vogo como folha perdida em vendaval encarniçado,
como alva espuma em maré viva onde envelheço
mas não tremo.
Deslizo sem ruído pelas dobras desta vida,
ora vou, ora venho...Ora estou, ora fui,
olho sem ver, sonho se sonhar, quero sem querer.
Desejo sem desejar, acredito sem acreditar no amanhecer.
Empurrada, puxada, repartida e dividida,
passo a passo trilho o caminho que se dilui.
Deslizo na imensidão dos pálidos dias sem rumo,
como desfolhada margarida em agreste invernia,
como encanecido carvalho que perdeu o prumo
e se vergou silencioso à gelada ventania....

sábado, maio 04, 2013

CRISTALIZADO PRANTO


A ave branca e doce eleva-se breve na manhã de purpura e ouro.
O adejar suave das asas translucidas é uma promessa de amor,
um ardente desejo em coração inocente, puro e encantado.
Os matinais raios de luz são como espigas de trigo maduro e louro.
A brisa morna embala todos os corações em secretíssimo fulgor,
e o voar liberto da branca ave risca o azul do céu enamorado.

As areias quentes ondulam sob os dedos escaldantes do sol,
como pele desnudada sob mãos de amante.
Lá no alto, a breve ave lança uma doce aragem ao passar.
As agruras cá na terra quase que se tornam uma massa mole
que se molda e desmancha. Uma nuvem errante...
Um rio manso que cantando se precipita no imenso mar.

A doce ave branca desce mansa sobre a terra ressequida e dura,
trás no bico uma rubra rosa a sangrar, nas patas trás um punhal.
Dos seus olhos escorrem lágrimas de cristal e mágoa pura, 
da sua alva plumagem resta apenas um sonho intemporal...
Uma quimera na qual pôs toda a sua alma de pássaro branco.
A areia emudeceu,
o sol escureceu,
o amor morreu,
apenas a ave permanece alva em cristalizado pranto.