quarta-feira, dezembro 31, 2014

ANO NOVO - Esperança





Tragam nos olhos a centelha da esperança,
por mais louca que pareça.
Tragam nas mãos a temperança
por mais improvável que aconteça.
Tragam no coração o amor,
por mais ausente que seja,
tragam na alma o calor
por mais fria que ela esteja.
Tragam na vida a força do querer sem ter limites.
Tragam na vida a coragem de ultrapassar todos os trâmites.
Tragam os sonhos, sem medo, as alegrias também,
tragam a tristeza e a dor porque a vida as contém.
Mas tragam os passos concretos, que marcam a vida a passar,
tragam os braços abertos prontos para abraçar,
nos lábios as suaves palavras que dão alento a quem chora
e nas mãos a coragem presente para dar p'la vida fora.

Tragam nos olhos a esperança, por mais louca que pareça!
E no coração o amor sem deixar que se desvaneça.


Desejo-vos a todos um FELIZ E EXCELENTE 2015

quinta-feira, dezembro 18, 2014

FESTAS FELIZES

Veio o frio, veio a chuva, veio o cheiro de Natal.
Veio o pinheiro, o presépio e a mesa...Tudo igual...

Veio a ausência, o olhar perdido, veio o vazio sem fim,
veio a mão aberta sem rumo, sobre a mesa, só assim...

Mas Natal é tempo de sorrisos, de calor e alegria,
de alma plena e coração ardendo sem tanta "fantasia".

Desejo a todos que este Natal se deixem tocar pelo que realmente importa, realmente conta e faz sentido; Que nos "sapatinhos" possam encontrar em abundância

A M O R 
          P R E S E N Ç A
                                E S P E R A N Ç A
                                                          S A Ú D E
                                                                        P A Z



FESTAS FELIZES


sexta-feira, novembro 28, 2014

UMA MANHÃ DE INVERNO

A manhã nasceu encolhida no frio de um Inverno que se avizinha. Um sol desmaiado e tímido espreitava, quase a medo, pelas negras nuvens que o encobriam. Na folhagem amarelecida do velho castanheiro saltitava um  arrepiado passarito em busca de algo para carregar para o ninho. Fossem materiais de construção ou alimento, o facto é que a azáfama era grande naquele tronco escuro e escorregadio das chuvas torrenciais dos últimos dias.
Prendeu-me a atenção a pequenina ave e dei comigo, meio vestida, meio despida, a pensar...
Nós corremos o tempo todo tentando gerir a nossa vida e mantê-la nos limites do razoável, do controlado e do confortável para nós próprios. E tantas vezes simplesmente não temos tempo para fazer tudo o que queríamos, ou o que precisávamos. Não temos tempo para parar e dizer aos nossos; Sabes que te amo? Sabes o quanto és importante e significas para mim? 
Não temos tempo para nos deixarmos tocar pela aurora, pelo ocaso, pelo marulhar das ondas em praia deserta e mergulhada no silencio das vozes humanas e na liberdade do grito das gaivotas.
Não temos tempo para ouvir os pingos de chuva a escorregarem singelamente para a relva verde e húmida que atapeta a base do tronco da vetusta ´"senhora da floresta", nem tão pouco damos atenção á minúscula aranha que tece laboriosamente a sua finíssima teia - Se olhássemos, oh se olhássemos!!
Veríamos uma renda ímpar que jamais alguém conseguiu igualar! Não temos tempo para dar um passo fora rotina, para quebrar uma amarra, não temos tempo para sentar e somente olhar o céu, observar as nuvens e beber o ar...Tão simples! E no entanto...Tão complicado para nós!
Fiquei ali na janela a sentir nos braços e no peito o ar frio da manhã, e a olhar embevecida para o meu amigo de penas que me mostrava uma das mais bonitas formas de dizer "Bom dia Dia! Bom dia Vida! Bom dia nova manhã!". Ali, esqueci-me das horas, esqueci-me que era dia de trabalho, que o transito ia tolher os meus esforços para chegar a horas e arrumar o carro. Esqueci-me do frio que arrepiava a minha pele nua, esqueci-me de que as lágrimas haviam brotado dos meus olhos como regatos não muitas horas antes, e do quanto a tristeza tinha amarfanhado o meu coração, e desfeito a alma em mil estilhas. esqueci-me que a vida por vezes é tão dura que rasga tudo à sua passagem. 
Ali, apenas me deixei tocar por aquele corpinho emplumado e tufado saltitando feliz e despreocupado em busca de algo que diligente e atento se esforçava por encontrar. Mas sem a pressão que caracteriza as buscas humanas, sem as caras feias que tantas e tantas vezes fazemos e pior, brindamos os outros sem culpa alguma.  Sem a força bruta que pomos nas acções e que arrasam, sem nos darmos conta umas vezes, sabendo o que fazemos outras, os que nos rodeiam. Não, nada disso... Ali estava a leveza da natureza na sua expressão mais pura, mais doce, mais simples. Ali estava o exemplo que devíamos ser capazes de seguir todos os dias, a todas as horas e em cada momento.
O quadro idílico desta manhã fria onde as cores iam  ganhando brilho e luz, inundava-me de paz e da certeza que os meus passos, quando me decidisse a da-los, iam ser mais brandos, mais pensados e mais calmos. Quanto mais não fosse em homenagem ao meu amiguinho de penas que, na sua vida de pássaro, acabava de me mostrar mais uma vez. A minha manhã ia ser com os olhos plenos de suavidade e beleza, de paz e de dar, ou pelo menos tentar, aos outros o que de melhor em mim ainda habita. Sem olhar ao que pensam, dizem ou fazem. Apenas porque sim.
Enregelada mas de coração risonho, fechei a janela e ....comecei o meu dia.



terça-feira, novembro 11, 2014

MEIO CAMINHO

A meio caminho entre o principio e o fim,
a dois passados do passado e outros dois do futuro,
olho a estrada nos dois sentidos  partindo apenas de mim.
E nas sombras aniladas está um caminho obscuro
que  trilhei, andei, suei, e bem ou mal já percorri.

A meio caminho entre o ido e o que está para vir,
está uma vida meio desfeita, meio perdida, meio esfumada
e dividida. Estão os erros e as lições, está um vazio a ferir.
Está a vontade de seguir e o desejo de ceder, extenuada.
No meio da estrada da vida o que foi que já vivi?

A meio caminho do fim olho em frente o infinito,
e apenas vejo o passado projectado para a frente.
Está lá o anil nas sombras, e o vazio, negro retinto,
estão lá os ecos passados reflectindo-se obstinadamente
nessa estrada longa e fria. O passado e o futuro estão aqui.

Tocam-se no meu corpo desnudado no fio da meia estrada,
no frio da meia vida, na solidão do atrás e do à frente.
Parada no caminho árido e escuro, como árvore seca e descarnada.
Olho o passado com nostalgia e o futuro amargamente.
O passado e o futuro chocam-se e fundem-se em mim.




terça-feira, novembro 04, 2014

ESPERANDO POR UM AMANHECER



Inunda-me um calor meigo que aconchega mas que calo,
porque não posso extravasar. Inunda-me a força da vida
que em mim repousa a pulsar. Este silencio onde falo,
sem sons, para não perturbar.  É estar assim dividida
entre temer e amar. Entre sentir-me rebentar de tanto ter para dar.

Inunda-me um sentimento doce preso por duras amarras
que somente quero quebrar. Inunda-me um periclitante vulcão
que está prestes a rebentar. Em mim trinam as guitarras
que o fado não sabe cantar. E a voz perde-se nesta solidão
de quem não pode falar. Com o coração alagado de um mundo para doar.

Como se calam os sentimentos que a voz não pode demonstrar,
que o corpo não pode entregar e alma tem que sufocar?
Como se trava a pressa e se anda com calma paciente e mansa,
quando tudo nos empurra para essa louca dança
de quem tem um mundo de vida para entregar?

segunda-feira, outubro 20, 2014

NO SILENCIO DA NUDEZ










No silencio de um quarto vazio, nascem as horas arrastadas
e dolentes. 
Nascem as lágrimas, a dor, o medo, nascem....devastadas
e incongruentes.
No silencio de quatro paredes, caem as máscaras, os sonhos,
fica a nudez,
atacam as ausências, revoltam-se as mágoas e nos abrolhos
fica a aridez.
No silencio das minhas profundezas, mordo a angustia,
mato as certezas, rasgo os caminhos incertos e sem rumo
agarro o meu magma em ebulição.
No silencio de mim, olho o mundo exterior com empatia,
estico as mãos para o vazio e para o abismo a prumo
das minhas falhas sem contemplação.
No meu silencio gritante, dispo as roupagens da vida,
entrego a nudez do que sou,
espero o inverno, ou o verão, espero sempre dividida,
naquilo que faço, penso e dou.
No silencio..Neste meu eterno silencio, grita uma alma
que odeia e ama, que se debate e revolta.
No silencio...Neste meu silencio apaga-se a calma
cresce a incerteza, a dor, e em cada volta
o actor regressa, coloca a máscara e sobe ao palco.
No silencio da plateia da vida é a mim que recalco.
No silencio, neste silencio, no vazio... 
Neste duro e negro estio....

quarta-feira, outubro 01, 2014

AMANHEÇO SOLIDÃO





Amanheço solidão e caminho sem rumo,
perco os passos numa vida sem sentido,
olho sem ver, canto sem voz...Sou fumo.
Sou ave negra de negro destino perdido.
Trilho um deserto sem cor, e um poente lilás,
deixo as minhas pegadas soluçadas para trás,
e teimo em seguir em frente sem saber porquê.
Amanheço solidão e dela me visto,
silenciosamente sem que nada me dê
vamos lado a lado e eu, calada, não insisto
em saber porque se cola à pele a solidão,
porque se abate sobre mim como um furacão.
Amanheço solidão e adormeço sem futuro,
caminho pela beira do abismo fundo
e deixo abertas as portas do meu imaturo
sonhar, das memórias desfeitas deste mundo.
Amanheço solidão e com ela caminho....Sem fim

quarta-feira, setembro 24, 2014

SEGUNDO DE AMOR

A vida é um segundo de amor, efémero e suspenso.
A vida é uma gota de orvalho que o sol seca impiedoso.
A vida é um breve e estranho momento, intenso,
a um tempo doce e amargo, alegre e pesaroso.

A vida é um segundo de amor, tão ténue e tão fugaz,
que se dilui na voracidade dos dias, na horas vazias,
na ausência feroz, na luta rude e audaz.
A vida é um segundo de amor, de noites sombrias.

A vida é um grito sem som, é uma lágrima sufocada,
é uma alma sem cor e amordaçada.
A vida é uma aridez de deserto, é um vento suão.
É uma ferida profunda, um abismo, um tufão.

A vida é um passo a cada a dia pisando a dor,
pendurando em cada árvore a lembrança sem cor,
calando a mágoa, esquecendo a memória,
olhando a estrada ingrata e inglória.

A vida é um segundo de amor, cego, surdo, espezinhado.
A vida é um segundo de amor, que se viveu e perdeu,
que passou no vórtice do tempo acelerado.

A vida é um segundo de amor… Que não ficou e se desvaneceu. 


quarta-feira, setembro 17, 2014

TUDO SE ESVAI...

Tudo é efémero e breve, tudo passa, tudo se esfuma
no correr dos tempos, no virar dos dias enevoados
e sombrios.
Tudo é sombra de uma realidade que me defuma
os passos, que me embota a alma e os olhos toldados
fugidios.

Tudo passa deixando o seu rasto qual vibrante cometa,
riscando um céu de sonhos e perdas, de desalento.
Tudo se diluirá no incomensurável tempo que me remeta
para um mundo qualquer de estagnamento.
Tudo é efémero, tudo tem principio e fim,
tudo passa, tudo muda a seu tempo, nada é eterno
nem permanente.

Tudo é apenas imagem reflectida, distorcida, de mim.
O caminho estende-se enigmático e averno,
tão dolorosamente.
Tudo passa...Tudo é efémero ...Esfumado.
Tudo se esvai... Inexplicado. 

domingo, setembro 14, 2014

NUVENS NUM CÉU ESTIVAL












As nuvens negras escondiam um sol ainda estival que se atrevia de quando em vez a espreitar tímido por entre as suas rivais e grossas oponentes. Uma ligeiríssima brisa agitava os cabelos ainda mal penteados da figura que, muito quieta, olhava o céu. O leve camisão que lhe cobria o corpo maduro, não escondia as formas, nem as revelava na totalidade, apenas insinuava o corpo meio reclinado no cadeirão de repouso que naquela manhã, silenciosamente, olhava o espectáculo que sobre a sua cabeça corria. Ao sabor das nuvens carregadas iam os seus pensamentos, igualmente grossos, negros, tristes e desolados. Parecia que a vida já não tinha sabor, era uma imensidão de dias sucedendo a dias, perfazendo semanas a suceder a semanas e meses a meses. Sorria, brincava, vivia, mas o seu coração e alma eram tão negros e chuvosos, como aquelas nuvens que ameaçavam o poder e força do sol de verão. Calava e seguia.  Plena de memórias, plena de tristeza pelo tempo que sabia jamais voltaria a viver. Mas a vida não se compadece de amores e desamores. A vida tem um rumo, tem uma meta e um caminho, compete a cada um seguir o seu por mais duro que seja... É o seu.
Mas aquele momento em que a natureza aninhava nos seus braços e ao de leve tocava aquela alma dorida, quase colocava um sorriso, ainda que fugidio, no rosto que olhava as nuvens e sem se aperceber pedia ao sol que tivesse força para as furar e vibrar alegre e quente no céu. O astro rei por vezes fazia-lhe a vontade e de manso vinha beijar-lhe o rosto, aquecer o corpo, tocar-lhe os pés nus acariciar-lhe as formas. De olhos semicerrados nesses breves momentos as memórias eram céleres. percorriam-na velozes como bravios cavalos correndo à desfilada;
 - Um outro sol quente e bem alto num céu azul, uma brisa do mar que lhe enchia as narinas de maresia e sal. Almoços, jantares, caminhadas e risos, momentos de paz e comunhão. E outros céus onde o cinzento imperara e a chuva se fizera sentir, os cheiros do campo orvalhado pelas manhãs de outono. Os cheiros das cidades, o bulício das ruas, a pressas das horas. A urgência das noites, a calma das manhãs de preguiça sem horários para cumprir...
O sol escondeu-se envergonhado de ter provocado tamanha dor naquele rosto por onde agora escorriam dois regatos salgados de memórias magoadas que jamais voltariam a repetir-se. As nuvens negras rebentaram soltando as suas gotas, acompanhando num súbito silencio da natureza os ligeiros soluços que sacudiam o corpo agora dobrado sobre si mesmo.

A chuva caía finalmente, a dor fluía finalmente sem restrições, jorrava como ferida aberta naquele coração destroçado e alma sem cor. Em uníssono ambos choravam um amor perdido.

domingo, agosto 31, 2014

NOITE DE VENTANIA


Sopra um vento frio de outono na noite de um verão estranho,
como estranho é este vazio louco onde o silencio clama em brados.
Sopra um vento, desolado vento, bramindo num rugido tamanho
que assusta a noite, que assusta o riso e a lágrima e os mantém calados,
amarfanhados e doridos, pequenos, efémeros e desvalidos.
E sempre o vento grita em duros rugidos!

Sopra pela noite esta ventania, grita, agita-se, raivosa e louca,
contrasta com o mortal silencio da sala sem cor nem luz.
Lá fora a luta bruta e desmedida, aqui a falsa calma mortalmente oca.
Sopra a ventania nesta noite escura onde só a dor reluz.
Pode o vento traduzir um coração despedaçado?
Pode ser ele a voz de um amor amordaçado?

Sopra um vento frio de outono nesta aveludada noite de verão,
as estrelas são luzeiros longínquos no manto celeste de azul profundo,
tudo se agita sob as mãos agrestes do vento sem tréguas nem compaixão.
Aqui grita o vento mordendo este silencio duro com o peso do mundo,
com o peso da vida. Aqui estrebucha o vento em derradeira agonia,
como se a vida já tivesse sido vivida em demasia.

Sopra um vento agreste e duro nesta noite de negro e desolado verão.
Sopra um vento glaciar dentro deste coração.

terça-feira, agosto 19, 2014

MUSGOS DO TEMPO




Há sombras roxas no olhar de quem espera,
e há cordas que amarram o coração dorido.
Há memórias contidas que o tempo desespera,
e vazios loucos nos sentimentos feridos.

Há estrelas que se apagam no céu nocturno
vestido de negro e macio veludo.
Há sonhos que fenecem neste tom taciturno
que nada altera, apenas se mantém mudo.

Há uma estátua de sal crestada pela ausência
que nada mais faz que estimular a dormência
dos dias que passam sem tom nem vida.
Há uma luz ténue que já não é dividida,
e que teima em agitar as dobras do esquecimento,
como se fosse um sussurrado lamento.

Há muros cobertos de musgo verde,
que rego com lágrimas de salgada dor.
Há névoas esvoaçantes onde o olhar se perde
como se quisesse recobrar a cor.

Há lamentos suspensos, calados,
nos lábios secos de beijos por trocar.
Há passos morrendo em caminhos cansados
de todas as dores, de todas as mágoas a torturar.

segunda-feira, agosto 11, 2014

A TEMPESTADE E O PIANO...

    As notas caiam dos dedos ao piano como as bátegas de chuva lá fora naquele intenso fim de tarde. Eram chuvas de verão, o odor da terra encharcada chegava docemente às narinas fermentes e ansiosas, e o rosto oscilava entre as expressões de uma mágoa contida e um meio sorriso de boas memórias. Pela janela aberta o som da trovoada em aproximação combinava na perfeição com os acordes habilmente dedilhados nas teclas negras e brancas. A chuva ensopava a terra e lavava as dores e as tristezas, limpava o ar deixando-o com os perfumes adocicados das flores. E a composição à desfilada jorrava das mãos brancas e esguias como se a trovoada se tivesse abatido nelas e as obrigasse a compor, a saltitar de tecla em tecla, a não parar. Como se aquela música fosse o balsamo que faltava. Como se a música quisesse deixar beijos de perdão, de ternura e de mansidão nas nuvens altas e negras que entrechocavam rasgando-se em mil raios.
   O rosto da mulher ao piano encontrava espelho nas evoluções da natureza lá fora. Ora contrito como os relâmpagos que ribombavam no  ar pesado e abafado, ora leve como as gotas de chuva que pingavam do beiral. E a música, aquela doce e meiga música que embalava a alma, que punha cor nos céus, como se um pintor louco se atrevesse a dar rápidas pinceladas no negrume do crepúsculo. As lágrimas desciam suaves pelas faces já marcadas pelos anos, e molhavam as mãos imparáveis que acariciavam o piano. Nada parecia entrar ou quebrar este quadro, esta perfeita simbiose entre a musica e a tempestade, entre a dor e a natureza a purificar. A sala foi ficando mais escura, a chuva ora abrandava ora se intensificava, e a trovoada parecia não querer abandonar o local, e ao despique rivalizava em tom com as notas cristalinas arrancadas ao piano.
   Absorta nos seus pensamentos e na vida que fazia acontecer sob os dedos, a mulher oscila ao som que ela própria cria, entregue à sua dor, à sua mágoa e tristeza, vai-e deixando levar pela tempestade que a acompanha do lado de fora da janela... Agora os acordes são doces e mansos como se o temporal interior se estivesse a dissipar, a abrandar e a paz aos poucos tomasse conta daquele corpo, daquele coração e alma. Lá fora a trovoada dissipou-se, a chuva é apenas uma leve poalha odorosa. As mãos cansadas da luta que travaram, aos poucos vão-se abandonando e rendendo à calma e quase felicidade do momento. A chuva calou-se, e por entre as nuvens uma lua brilhante e redonda espreita a mulher adormecida sobre as teclas do piano, os cabelos soltos semi-escondem o rosto marcado pelos regatos que ainda escorrem dos olhos fechados...
   A tempestade de verão chegou ao fim e a noite silenciosamente tomou conta do espaço...



quinta-feira, agosto 07, 2014

ENTRE ÁGUAS






Escrevo à rédea solta, à desfilada, 
escrevo como cavalo louco em corrida desvairada.

Hoje eu sou a tempestade e a calmia,
assolam-me os trovões raivosos, as bátegas grossas
as lamas arrastadas pelo chão.
Hoje sou a chuva trespassante e fria,
sou o rio duro de memórias vossas.
Sou apenas mais uma folha, um grão.

Escrevo sem rumo, destino,
apenas deixo as palavras sem tino.

Hoje sou também a mansidão, a doçura,
sou o amor e a alma aberta,
o coração que transborda.
Hoje tudo faz sentido, tudo é candura,
como floresta misteriosa e deserta.
Hoje sou uma tensa corda,
que nenhuma mão dedilha.
Que nenhuma alma perfilha.

Escrevo entre o rugido e o sorriso,
entre a dor e a aceitação.
Escrevo entre a loucura e o juízo,
entre a mágoa e a rejeição.

sexta-feira, agosto 01, 2014

COR DO AMOR

Sabes de que cor é o amor?
Será vermelho como um por do sol de verão? Rubro, intenso, poderoso.
Será rosado como as faces de uma criança, de sorriso esplendoroso?

Sabes a cor do amor?
Diz-me se é violeta como os lírios do campo, como os olhos de quem chora.
Ou se é verde e azul, como as águas do mar profundo e onde a mágoa mora.

Sabes de que cor é o amor?
Será branco como a neve fria? cortante e pura, gélida e pérfida,
será negro como a noite dura? desolada, de língua bífida,
de onde o fel se solta como gotas de orvalho.
Como laivos de mágoa onde me afogo e batalho.

Sabes a cor do amor?
A paleta que o pinta tomba das mãos do pintor....
Já não tem cor o amor...


quinta-feira, julho 24, 2014

UMA PONTE











Estendo uma ponte entre o aqui e o aí,
sobre a ausência e a presença invisível,
estendo uma ponte sobre um abismo profundo,
sobre a distancia entre um sim e um não rotundo.
Construo cada pedaço com a realidade infalível,
esta que sei de cor, que já vivi e revivi.

Estendo uma ponte entre a noite e o dia,
entre o verão e o inverno, entre o calor e o frio.
Entre o querer e o esquecer, o viver e o lembrar.
Estendo uma ponte sem fim que permanece vazia,
no silencio da madrugada, fluindo como este rio
onde afogo cada lágrima, cada dor a dilacerar.

Estendo uma ponte despida entre o tu e o eu,
entre o daí e daqui, entre o fogo e a neve.
Estendo esta ponte que teço com cada pedaço meu,
com este estúpida ilusão que me sussurra ao de leve.

Estendo uma ponte....Uma ponte sem sentido!

sábado, julho 05, 2014

CARREGO UM CÉU DE INFERNO


Carrego o céu sobre os ombros e as ondas nos meus braços.
Recolho da vida os pequenos pedaços,
e a ela devolvo o que tenho e como tenho.
Por ela passo, passo-a-passo, e não me atenho.
Apenas deslizo como imponderável nuvem em céu de inverno.

É nesta vida, é nesta hora, é neste instante e neste inferno,
que finco os pés no meu inóspito rochedo,
que me penetra o frio agreste do medo,
que me assola a vastidão do desolado deserto
no aperto da ausência sem razão que ao peito aperto.

Passam os céus, os mares, passam as horas e os dias,
renascem luas, acordam sois, repicam sinos as ave-marias.
Crescem poemas, nascem canções, gritam-se hinos de emoções.
Juram-se amores, rasgam-se almas, vertem-se lágrimas nos corações,
correm os rios para um estranho mar.

Já não se sabe o verbo amar.


sexta-feira, junho 27, 2014

DESERTO









Ocas as horas e os dias, vãs as esperanças,
vazios os olhos sem rumo e as mãos sem par.
Pés que caminham sem saber bem para onde,
deixando-se arrastar por efémeras lembranças
de um tempo que se esgotou e dissolveu no ar.
Aos enganos e desenganos não há quem os sonde,
quem os entenda, os segure, os esgrima firmemente,
e deles fazemos mortalhas e deles fazemos repasto,
e deles nos agrilhoamos como eterno deserdado.
A estrada é longa e sinuosa, traiçoeira certamente,
o sol cresta sem piedade e o caminhar é duro e gasto.
A sombra projectada no caminho é de solitário condenado.

As horas correm ocas esvaziadas de sentido e de rumo,
as mãos deixaram de procurar outras mãos para prender,
os olhos morreram neste deserto que assumo
como cama e como lar, como história por viver.

quarta-feira, junho 18, 2014

O SOL...O HORIZONTE...O INFINITO... NOSTALGIA

Hoje fica apenas o astro rei como "lâmpada da terra"

Neblina como um sonho de criança, como algodão doce...



O ultimo beijo do dia...A morder de saudade

O esplendor de um entardecer de inverno, no horizonte...o infinito

Se eu tivesse braços para nadar até ti...

O verão despede-se no cair de mais um dia e o sol refresca-se nas águas brandas e frias...

segunda-feira, junho 16, 2014

ODOR DE SOLIDÃO

Paira no ar quente da tarde agreste  o odor da solidão.
Como víbora em contorções espasmódicas, aperta o cerco,
estrangula a voz, rasga a alma, dilacera o coração. 
É acre e intenso. Queima e destrói à sua passagem,
é como um pântano escorregadio onde me perco.
Paira o odor frio deste caminho onde a mensagem
se cola à pele como as gotas de orvalho matinal.

E as garras desta solidão cravam-se na carne desnudada
pelas palavras proferidas como cavalos à desfilada.

Paira nesta tarde quente o frio da solidão abismal,
como dedos de chuva escorrendo livremente
colhendo todos os frutos que o amor amadureceu,
e as bocas sedentas não tocaram, não provaram.
Paira como sede que água alguma dessedente,
como a aranha cuja teia ainda não teceu.
Paira como lágrimas que ainda não se choraram.

E as garras desta dolorosa solidão dilaceram a alma
sem dó nem piedade, vão-me rasgando silenciosas, com calma.

quinta-feira, junho 12, 2014

RE-ESCRITO


Porque o sim é quase sempre um não,
 e o tempo se escoa por brecha invisível,
os dias passam escorados numa inútil razão
numa torpe explicação inaudível.
E as mãos agarram o vazio escuro,
e o coração bate desordenado e decadente.
O olhar eleva-se para um céu ainda puro
em busca de um rumo que o oriente.


Se o sim fosse apenas sim sem mais pensar,
se a tristeza nada mais fosse que um breve momento,
se o vazio não fosse destruidor como um sismo,
a vida seria amena.

Ah se o pensamento fosse tão forte como o mar!
Se o desejo fosse tão imperioso como o vento,
se o amor fosse tão profundo como o abismo,
então a vida seria plena.

segunda-feira, junho 02, 2014

TÃO PROFUNDO COMO O MAR




Se o pensamento fosse tão forte como o mar,
se o desejo fosse tão imperioso como o vento,
se o amor fosse tão profundo como o abismo,
então a vida seria plena.

Se o sim fosse apenas sim sem mais pensar,
se a tristeza nada mais fosse que um breve momento,
se o vazio não fosse destruidor como um sismo,
a vida seria amena.

Mas o sim é quase sempre um não,
o tempo escoa-se por brecha invisível,
os dias passam escorados numa inútil razão
numa torpe explicação inaudível.
E as mãos agarram o vazio escuro,
e o coração bate desordenado e decadente.
O olhar eleva-se para um céu ainda puro
em busca de um rumo que o oriente.

quarta-feira, maio 21, 2014

CONTAGEM DECRESCENTE




Tens nos olhos o clarão de uma noite de tempestade,
e nas mãos a raiva incontida do mar revolto.
Tens na alma o rugido de uma guerra sem razão,
que te rasga sem dó nem piedade.
Tens o presente perdido no passado ignoto,
e os dias passam por ti apenas de raspão.

Tens no rosto os traços ternamente amados,
onde a razão se perde e se esconde,
onde a luz da consciência ora brilha ora se apaga,
deixando tudo e todos desarmados.
Tens ainda o riso, mas mesmo que o sonde
apenas encontro uma sombra amarga.

Tens na vida os dias que arrastas sem saber,
e deixas fundos sulcos de tristeza magoada e surda.
A impotência de quem sabe vai perder,
mais esta batalha por mais que seja absurda,
por mais desesperada que seja.

Que o céu te proteja...Eu...Não posso.

(para ti)

terça-feira, maio 13, 2014

SILENCIOSA TEMPESTADE


Ruge o céu plúmbeo de desespero. Ruge calado, sem som!
Grossas bátegas caem dos seus mil olhos de sombrio tom.
Na terra tudo é silencio e expectativa ao cair da chuva pesada,
e as nuvens rolam sobre a minha cabeça sem rumo, desnorteada.

As estrelas, envergonhadas, espreitam pelas nuvens negras,
mas não se vê a sua luz, o seu brilho não pontilha o céu desta noite,
só esta tempestade calada, dura, ribomba em clarões sem regras,
sem normas, sem pejo, sem medo, sem nada. Sem espaço que me acoite.
Olho o céu acobreado e cinza, como pássaro de morte de asas vazias,
de garras afiadas e dilacerantes, abatendo-se sobre mim sem dó.
Enterra as lancetas nas memórias, deixando-as esvaídas e frias,
brancas, soltas, esquecidas transformando-se somente me pó.

Ruge o plúmbeo céu sobre os meus passos tristes e tementes,
evolui a tempestade entre o silêncio das minhas dúvidas fermentes.
Da angústia sufocante como corda de enforcado apertando mais o nó.
Ruge em surda raiva de ironia, em baixo de olhos posto no céu, eu…Só!


domingo, janeiro 05, 2014

QUEM ÉS TU QUE ME OLHA?


Quem me olha do outro lado do espelho?
Que rosto é este onde não me reconheço?
Que traços o tempo estiolou no seu destrambelho…
Quantos sulcos e marcas que desconheço.
Quem és tu desse lado que me olhas?
Mortiça a expressão perdendo o vigor,
boca vincada, olhos sem rumo nem escolhas,
vazio o meio sorriso sem frescor.

Onde fiquei no passar dos anos?

Onde está o meu rosto de menina?

Quem és tu reflectida sem enganos,

que a imagem real é viperina!

Desconheço-me no espelho reflectida,

aquela mulher já não sou eu!

O tempo marcou a imagem invertida

e aquele rosto não é o meu.

Quem me olha do outro lado do espelho?

Olho, miro, busco um sinal em vão…

Aquele rosto é um vislumbre, um esgar velho

e uma vida esquecida na palma da mão.