sexta-feira, maio 27, 2011

MEIA VIDA



Aprendo a viver meia vida, como a vida permite,
com o coração dividido entre o querer e não querer,
nada é como se sonha, tão pouco como se admite.
A luta é um caminho sem luz por percorrer,
aprendo a viver meia vida, assim me deram sem escolha,
e oscilo qual baloiço de menina, entre o sim e o não.



Sou como a borboleta que, presa, através do casulo olha,
olha sem ver, sem esperar e a um tempo esperando em vão.
Aprendo a viver meia vida, nesta vida sem parar,
onde me esforço por não ver, não sentir e não pensar.
Aprendo a viver meia vida seguindo as pegadas do vento,
como folha sem rumo, como bruma ténue na alvorada
onde me perco, me embrulho e me sento,
onde vivo e me encontro sempre nesta encruzilhada
de viver apenas meia vida, caminhando dividida
entre o sonhar e o acreditar, e a esperança perdida.

quinta-feira, maio 26, 2011

COMO LÁGRIMAS




As nuvens encobrem o sol, os pingos descem como lagrimas.O cheiro a terra molhada eleva-se no ar matinal e acabado de acordar. As andorinhas esvoaçam e cantam fazendo voos razantes. O mundo parece ter-se levantado com uma paz morna e bela







Como é posssivel que tudo pareça tão belo e na realidade seja tudo tão estranhamente vazio?

segunda-feira, maio 09, 2011

MADALENA (cont)



A mentira de Madalena é sempre descoberta, é posta em cheque e apontada como mais uma falha sua. Lidar com os seus sentimentos é das coisas mais difíceis. Por um lado é o sabor do fracasso, por outro a revolta de ser controlada com coisas que são apenas e só suas. A sua vida é sua para viver, e tem que ter o espaço para contar ou não algo dela. Coisa que não é entendida; “A amizade é incondicional, porque não dizes as coisas, porque queres ter segredos? Sempre dissemos que entre nós contávamos tudo!”- esta e outras frases são constantes a cada novo trambolhão, a escalada de tentativas sucessivas de saber mais e mais da sua vida, de a obrigar a contar cada pormenor são um tormento entre as duas.

Uma tem medo de cada coisa que não conta ou inventa, a outra tem uma preocupação quase mórbida de a forçar a não sair do caminho.
A confiança de outrora morre. Madalena força-se a mudar a sua atitude, cai, levanta-se e volta a cair, não é fácil contrariara uma vida de fugas, mas essa amizade vale mais que tudo na vida. Esse grão pequenino que ambas um dia lançaram à terra e que germinou vale tudo. Num esforço que aos pouco vai tentando que seja menos esforço e mais normalidade, vai dando passos na tentativa de reconquistar o que perdeu por suas próprias mãos. O caminho não é fácil, até porque cada uma tem a sua personalidade e ambas são duras. Só mesmo a imensa amizade que as une tem forças para levar por diante a luta que travam. Uma por se manter fiel à sua promessa de não mentir e contar as suas coisas com naturalidade, a outra por deixar de querer saber tudo, por aceitar que há aspectos que não tem que saber, que há momentos que não lhe interessam, por ir perdendo a desconfiança que sempre salta ao mais pequeno sinal pouco normal, ou comum. Ambas se esforçam e lutam denodadas para que a sua amizade não morra e perdure….


A vida dará a resposta….Num futuro...

MADALENA



“Como se pode ser assim”?



Era esta a pergunta que ainda ecoava nos seus ouvidos à medida que seguia com cuidado as curvas apertadas da estrada, que fizera vezes sem conta. A precisão das voltas no volante obrigavam-na à concentração mas o seu cérebro corria a mil à hora pelos acontecimentos últimos a que estivera sujeita.Com uma história de vida complicada, senhora de uma vontade forte e de uma força que muitas vezes desconhecia, Madalena, refugiara-se havia muitos anos atrás numa mascara que jamais havia posto em causa, sempre utilizara e achara que tinha toda a razão de ser. Desde cedo a vida a empurrara para resolver problemas sozinha e apresentar soluções. As questões sobre como o fizera, como ficara e o que lhe fora exigido jamais haviam sido colocadas, e quando o eram a sua preocupação máxima era a de não mostrar o quão frágil era, e sempre pelo contrário mostrar a face de uma rapariga forte, com capacidade para aliviar os outros e seguir em frente sempre sem dúvidas, sem medos, apenas com certezas e boas resoluções. Aí começara sem que se apercebesse a sua faceta mentirosa. Mentia porque era insegura e não admitia, mentia porque não mostrava que precisava de ajuda e que era nova demais para ter aos ombros tamanho peso, mentia porque se mostrava sempre bem e no fundo cavava em sim um fosso que anos mais tarde iria ser um grave problema com o qual iria ter que lidar igualmente só. Cresceu, os anos passaram, as responsabilidades aumentaram e as exigências igualmente, o seu espaço pessoal era reduzido, mas a necessidade de o ter para se manter lúcida crescia com o rodar dos tempos. Mais uma vez sem se dar conta do que fazia, alargou a mentira, fê-la sua amiga para todas as ocasiões. Mentia porque precisava de explicação para alterar o seu horário, mentia porque a pressionavam com coisas que não queria fazer, mentia porque se intrometiam no espacinho minúsculo que aos poucos ia conseguindo. Mentia porque idealizava uma vida que jamais teria. Mentia aos outros mas muito mais a si própria. Um dia deixou entrar na sua vida alguém muito especial, alguém que a tocava profundamente e em quem suscitara um sentimento e uma entrega ideal que na vida jamais existe. Ninguém é totalmente claro, totalmente sincero e mostra tudo sem restrições de si próprio. No entanto ver uma criança crescer e dar-se inteiramente tem os seus riscos; Esse ser admira-a, faz dela o seu ídolo a pessoa ideal que quer ser quando crescer…”Quero ser como tu, mesmo!”. Um dia esse mundo de fantasia quebra-se, desmorona-se e torna-se um inferno entre ambas. A desconfiança permanente destrói uma e arrasa a outra. O relacionamento lindo, espontâneo, forte e doce, único e idílico perde toda a sua magia todo o seu encanto. A pressão que exerce sobre Madalena é cada vez maior e mais insuportável; Por um lado não quer destruir mais nada do que já destruiu, por outro a sua constante necessidade de fugir de não permitir que saibam nada de si, da sua vida que é complicada e estranha, das suas fraquezas e dos seus medos, das suas quedas, empurram-na sempre e mais para a mentira, umas após outras numa luta inglória para ter sossego, espaço para ser o que é. Uma mulher estranha, isolada e virada para si que se esconde na entrega aos outros para não pensar em si, nas suas coisas, na sua própria vida. O resultado é um desconforto e um relacionamento deteriorado a cada instante que passa. Dói-lhe a desconfiança da filha que adoptou, daquela mulher que a acompanha na vida e que viu crescer e desenvolver-se, de quem tem inúmeras provas de afecto de carinho de apoio, caminham juntas desde que ela nasceu conhecem-se na perfeição e isso tem duas faces. Por um lado ajuda nos momentos mais difíceis de ambas, por outro permite com muito pouco saberem o que se passa.

VERDADEIRO / FALSO

Verdade ou mentira?

O que é uma e outra, viagens entre o cá e o lá,


sonhos e fantasias que se querem reais e não são,


desejos que se ancoram ao coração vazio que dá



passos sem rumo, olha entre a bruma sempre em vão.

Verdade ou mentira?


Viver de mentiras ou arrastar as verdades pela vida.


Colorir o incolorivel, desejar o impossível,


abrir as mãos ao vazio da espera sempre dividida,


e acreditar que um dia, quem sabe, algo será mesmo possível.


Verdade ou mentira?


Mentira ou verdade?


Viver com ambas e perder-me na ambiguidade,


o que é mentira final? Onde está a verdade?


No escuro corredor apertado da moralidade,


no valor mais alto de quem julga a realidade?


Mas o que é a verdade, a mentira, a realidade,


a moralidade? O que é este grilhão a meus pés?


O que fiz dos meus caminhos de ansiedade,


que traços deixei na minha tela e o que fez


de mim o que sou?


Verdade ou mentira?


Ambas fazem parte da vida...


Respostas a um simples teste; V/F

sexta-feira, maio 06, 2011

UMA VIDA....




Há uma vida sem explicação


que corre pelo tempo à desgarrada.


Não pára, não espera, não vive sequer.


Flui ao sabor das horas, de cada empurrão


que sofre, segue sempre desvairada.


Não olha, não escuta, nem percebe o que quer.


Atrapalha-se, mistura-se, complica-se.


Repete-se, esquece-se. replica-se.


Há uma vida sem amanhã,


que corre pelo caminho às cegas.


Não sabe, não sonha, não espera mais nada.


Passam os dias e cada manhã


é igual à noite. Indiferente se afirmas ou negas.


É tudo água da mesma levada.


Há uma vida que corre louca


sem tempo, espaço, medida ou noção


Há um prece que já soa rouca


de tanto se rezar com devoção