quinta-feira, novembro 24, 2011

PÉS NUS

Sob os pés nus, as folhas mortas,

os sonhos rasgados e as esperanças perdidas.

As águas presas entre estanques comportas

debatem-se por liberdades incontidas,

por espaços abertos e margens verdejantes,

por correrem sem tempo saltitantes.

Sob os pés nus o vazio hiante,

o espaço deserto de um inverno escuro,

e a melodia desconsertada e sussurrante

de um trilho apertado, despido e duro.

Vazias as mãos abertas, despido o coração

sem cor. Só o espaço atapetado de imensidão.


Sob os pés nus a vida flui somente...

quinta-feira, novembro 17, 2011

DEIXA.....



Deixa que os olhos da minh'alma te sigam

no escuro aveludado da noite fria,

e que as minhas mãos sedentas se prendam

nas tuas, perdidas e sem sentido.

Deixa que os meus íntimos sonhos te digam

o que a minha boca cala e não cria

e que os meus olhos cansados se rendam

ao devaneio de um luar consentido.


Deixa que o negrume envolva a vida

aninhando-a no seu intemporal seio,

no seu manto de silenciosa perdição.

Deixa que a noite desça dividida

e guarde toda a tristeza que a rasga ao meio,

que a viola sem dó nem compaixão.

Deixa que te toque sem tocar,

permite que te tenha sem ter,

abre a porta eternamente fechada,

deixa-me somente entrar.

Deixa que sem agitar eu possa ser

um balsamo silencioso, uma pétala intocada.



sexta-feira, novembro 04, 2011

MADRUGADA POR ESCREVER

Rompe a tempestade que ruge com um beijo,
afaga os cabelos do desalento com uma carícia,
cobre a solidão com o corpo quente do desejo,
toca a escuridão com o olhar que vicia.
Acolhe no teu peito desnudado as lágrimas frias
de uma nuvem que se desfaz no vento norte.
Grita no silêncio bravio onde anuncias
a nova madrugada de uma incerta sorte.
Rompe a profunda noite emudecida de vida,
rasga a bruma desta lagoa perdida
envolta em tenebrosa perdição.
Solta as velas do novo dia por nascer ,
abraça amorosamente o sonho por escrever
na palma aberta da minha mão.
Rompe o negro mar em convulsão
desfazendo-se em alva e altaneira espuma,
prende forte, em funda caverna, a solidão,
ilumina a penumbra que se esfuma
no toque breve da tua madrugada.
Deixa que os véus da aurora se desfaçam
nos beijos meigos de uma efémera fada
de pés ligeiros e diáfanas asas que traçam
raios de rimas e poemas na pele suada
.