quarta-feira, julho 15, 2009

AVÓ (cont)


...Ela mostra-lhe a filosofia dos povos, a “alma” que se solta das vivências, ele mostra-lhe a geografia, a história, a humanidade, a realidade que conhece tão bem, e ambos fazem daquelas paragens o seu lar. Integram-se cada vez mais na mentalidade, sem contudo esquecerem as suas origens, sem contudo esquecerem o seu propósito e a missão que o governo do seu país lhes deu, mas o conhecimento aprofundado daquela terra ajudam-nos a cumprir muito melhor o seu trabalho e fazer benfeitorias inigualáveis. Inês inebria-se com as cores quentes de África, perde-se destemida nos mercados, que aprendeu a conhecer, deleita-se na mistura exótica dos aromas fortes das especiarias; Açafrão, Noz-moscada, Gengibre, Pimentas, ervas aromáticas que maneja como qualquer dona de casa africana, ao mesmo tempo que eleva a alma ao ritmo da filosofa asiática. Os artefactos de ambas as culturas co-habitam harmoniosamente no seu apartamento, e só lamenta não ter uma das mansões enormes dos sultões, ou dos emires, para poder dispor de espaço para tudo o que a cativa e quer ter ao seu lado. A biblioteca de Filipe é outro manancial e nos primeiros tempos sempre que lhe era permitido pelo trabalho, esquecia-se das horas naquele espaço calmo e sóbrio, onde colheu ensinamentos preciosos, bases para a sua vida por aquelas paragens. Aprendeu a flora e a fauna, aprendeu culinária, iniciou-se na língua e passou à escola para falar um árabe e um hindi fluentes, já que línguas eram o seu ponto forte, aprendeu história e geografia, embrenhou-se nas religiões e estudou os costumes, as filosofias que a fascinavam e lhe davam perspectivas que jamais conhecera ou se atrevera a desenvolver. Era Filipe quem muitas vezes a ia lembrar que no dia seguinte tinham que se levantar cedíssimo para o trabalho que os esperava, e era sempre com uma expressão de amuo ligeiro que arrumava os livros de novo nas prateleiras. Ao que ele rindo lhe dizia que os livros deviam de noite fazer um baile porque em anos nunca ninguém os consumira tanto como agora. O rosto alegre e atento da rapariga era cada vez mais insinuante na vida de Filipe, a presença e o trabalho de Joana desenvolviam-se a um ritmo certo que deixava o embaixador descansado e confiante nas capacidades por ela demonstradas. Viam-se resultados concretos das suas acções e empreendimentos graças ao trabalho e empenho de ambos, e ela mostrava uma faceta peculiar e inata que lhe emprestavam a graça que o tinha encantado no aniversário da afilhada. Muitas vezes ia espreita-la sem ruído só para lhe captar a expressão compenetrada e atenta, ou ouvir a gargalhada típica se era apanhado em flagrante.
Passaram-se os anos, e do pequeno apartamento restavam os artefactos habilmente recolocados no casarão que entretanto haviam comprado, as horas de biblioteca eram agora a dois, e os escritórios eram apenas um, tal como o empenho, amor, e apego aquelas paragens que haviam unido dois corações num só. África e Ásia, Joana e Filipe."
O olhar perdido num horizonte distante, nas terras vermelhas que tanto amou, no exotismo em que foi feliz, mulher e mãe. A mão que prende na sua traz-lhe as recordações dessa outra mão que há muito tempo trás envolvia a sua e lhe dava a certeza de que tinha escolhido o caminho certo. Avó Joana deixa que uma lágrima cristalina, qual gota de orvalho, se prenda delicadamente nas pestanas ainda compridas e fartas que, docemente, descaem sobre os olhos.


FIM

terça-feira, julho 14, 2009

AVÓ (cont)

....E o passeio continuou, mudando o rumo da conversa e passando de novo para a magia do continente vermelho, agora com as pinceladas alegres e vivas de um Filipe que parecia agigantar-se na tarde que ia caindo, alegre, solto e fluente de descrições animadas. Ora alegres, ora mais sombrias, ora cómicas ora tristes. As vivencia em paragens longiquas, em experiencias novas, prendia completamente a atenção de Inês, que se deixava embalar e a sua imaginação evoluir nas palavras e relatos de Filipe.
O lusco-fusco acabou por desperta-los e lembrar-lhes que havia horas tinham saído do salão e provavelmente tinham a família toda à sua procura. Rindo-se da situação, despediram-se de Bernardo que ficou a acenar dos portões de ferro do Roseiral, com um sorriso aberto na face. Apressaram o passo pelas veredas, rindo da situação e entraram sorrateiros por uma das portas ainda abertas de par em par. As luzes no exterior já estavam acesas, mas parecia que ninguém dera pela falta dos dois. Acercaram-se das mesas e continuando a conversa foram petiscando daqui e dali cada vez mais embrenhados em temas que eram de interesse comum. Filipe estava já tão à vontade com Inês que lhe travou o braço para a conduzir para um canto mais sossegado do salão instalando-a numa poltrona macia e indo buscar para perto dela uma mesinha baixa para onde trouxe comida e dois copos de vinho branco gelado, saído das caves dos seus compadres com o qual se deliciaram ambos. A hora da abertura do bolo de aniversário de Joana aproximava-se a passos largos e todos se reuniram para o tradicional “parabéns a você”, Inês e Filipe juntaram as suas vozes ao coro mais ou menos afinado dos convivas e comeram a meias uma fatia de bolo já que ambos não eram apreciadores dos inúmeros cremes que o cobriam. Fosse por essa fatia comida entre os dois, ou pela tarde que haviam passado a descobrir-se, fosse porque o destino se entretivesse a pregar partidas, essa noite marcou a viragem na vida de Inês.
Uma semana após os anos da amiga recebe um telefonema a solicitar que fosse à embaixada da Tunísia. Estupefacta pergunta o porquê do pedido e quem pretendia falar com ela e sobre que assunto, uma vez que jamais tivera fosse o que fosse com o país nem conhecia ninguém lá. A resposta foi breve; O embaixador pretendia falar com ela e fazer-lhe uma proposta. Sem saber o que fazer ou pensar, tenta falar com Filipe e perguntar o que deve fazer, mas o seu telefone permanece inacessível e assim vai à entrevista marcada com o coração mais pequeno que um bago de arroz. No dia marcado e à hora prevista apresenta-se no edifício, nervosa e apreensiva. O seu fato saia e casaco azul e a camisa branca, a sombra ténue que pôs nas pálpebras e o risco que traçou nos olhos, o conjunto de safiras, bem como os sapatos de salto que sempre usa, dão-lhe um ar a um tempo elegante e jovial, só o sorriso treme no rosto. É conduzida a uma antecâmara onde lhe é pedido que aguarde um pouco que a secretária do embaixador virá busca-la. O que acontece passados poucos minutos. Uma mulher de meia-idade baixa e de aspecto eficiente, com um sorriso indulgente no rosto leva-a até à porta forrada a carvalho que abre devagar anunciando a chegada da rapariga. Um sorriso de satisfação e um olhar atento, recebem-na no homem alto e impecavelmente vestido que apressa o passo para lhe pegar na mão e cumprimenta-la rindo com gosto da expressão de espanto e admiração gravada no rosto que para ele se eleva. Inês, esperava qualquer pessoa, menos Filipe em carne e osso. Achara muito estranho o telefonema, mas nem por um segundo lhe ocorrera pensar que a mão dele estava por trás de tudo. Deixa-se cair no cadeirão sem conseguir articular uma palavra. E quando os ânimos se acalmam ele explica-lhe o motivo do seu contacto.

Vai partir em breve pelo continente africano, as férias foram curtas e a missão de negócios com os países árabes e asiáticos continua. Tunísia a “sua” embaixada será a primeira paragem, depois é o périplo africano. Consultou, pediu e aprovou as credenciais dela, pediu aprovação superior e tem para lhe oferecer o cargo de o secretariar e acompanhar. A sua secretária ali não pode deslocar-se mais, porque se vai aposentar, e não tem saúde para o clima africano, já viveu muitos anos no estrangeiro, acompanhando os embaixadores chegara a hora de se retirar. Estaria Inês disposta a aceitar o desafio? Seria ela capaz de seguir Filipe? Concretizar um sonho, crescer, e desenvolver os seus dotes até então tão subaproveitados? Muda de espanto e com a cabeça a rodopiar, olha para ele sobre a secretária, tentando ordenar ideias, tomar decisões, e dar uma resposta coerente numa fracção de segundos que aos dois pareceu uma eternidade: - “Sim! Sim, claro que sim!”
Feitos os preparativos, tratada da documentação toda, chegava a hora da partida. À medida que o tempo se aproximava, as dúvidas assaltavam a jovem, os receios de se ter metido num voo alto demais para as suas pouco experientes asas. O medo de fracassar pondo em risco um país, acordos governamentais e o bom nome e figura de Filipe, deixavam-na noites sem dormir. E o dia finalmente despontou, radioso e ensolarado. As malas prontas, os documentos em ordem, as contas saldadas, os móveis cobertos, o carro na garagem dos pais de Joana, os peixes e a tartaruga entregues aos cuidados da amiga e na alma a esperança, o sonho, o desejo e a força de concretizar um projecto. Uma apitadela diz-lhe que é hora de elevar uma prece aos céus, fechar a porta atrás de si e embarcar numa nova vida. No carro o rosto alegre de Filipe, saúda-a e encoraja-a a olhar com força para o caminho que ele lhe oferece.
África, a misteriosa e bela África! Rende-se a seus pés. Dali em diante e enquanto não se familiarizar com o ambiente terá que aprender a confiar em Filipe, seguir Filipe, aprender de Filipe. Será como cego guiado pela mão, e que mão se estende para ela! Instalado no seu gabinete de sempre, instalada no espaço que aos poucos via fazendo seu também, aprende a ser senhora do mundo, livre como as aves, aprende costumes novos, descobre uma miríade de situações que tem que dominar, saber, perceber. É como esponja que se ensopa de água e cresce, dilata-se. Filipe vai aperceber-se que o seu palpite foi um tiro certeiro e que a escolha não podia ter sido melhor. Inês é uma fonte inesgotável de surpresas, adapta-se com a maior das facilidades aos salões muçulmanos, cumprindo sem erros os rituais, como aos bairros dos subúrbios onde as galinhas e os gatos, esgravatam o mesmo solo seco e árido, ou os souks de mil cores e cheiros, onde o dinheiro é lavado e o turista enganado. Ou ainda o agendamento correcto e meticuloso da agenda sempre carregada, sem que falhe uma recepção, um jantar, uma reunião, uma ida ao ginásio, ou uma partida de squash, ou a canoagem no fim-de-semana. Inês é eficiente e atenta e a terra africana exerce nela um fascínio que não sabe explicar. Sempre que pode, passeia, visita, estuda, faz amizade, e no círculo onde agora gravita fácil é encontrar quem lhe encaminhe os passos, quem a “eduque”.
Os cheiros, as cores, os mercados, as especiarias, a religião, a língua, os hábitos, os costumes, a maneira e viver, tudo se cola à pele, tudo a faz vibrar. Em breve se torna africana, árabe, muçulmana, multifacetada como a cultura. Viaja com Filipe para onde quer que ele vá em serviço e em breve é ele que não prescinde da sua companhia seja em que circunstancias for. No trabalho e no lazer. É assim que depois de conhecer os países em serviço fazem viagens de estudo, de turismo e aprendizagem.....
(Continua)

segunda-feira, julho 13, 2009

AVÓ

- “Avó…Conta uma história…”
- “ Estou cansada minha querida…” – De olhar perdido no verde do jardim a velha senhora acariciava distraída a cabeça morena que no seu colo repousava e deixava que as memórias se fizessem palavras e essas se apresentassem como histórias, onde o real e o imaginário se enlaçavam harmoniosamente. Muito lentamente a voz doce elevou-se na morna brisa da tarde embalando o sonho e despertando a imaginação:
- “ Há já muito tempo numa cidade grande e luminosa uma jovem determinada e sedenta de descobrir, iniciou uma caminhada que a levaria longe, muito longe. Ultrapassados os vinte anos havia alguns, a vida chamava-a com força, a aventura espicaçava-lhe o ânimo e o desejo de descobrir novos mundos era uma constante da sua vida. As culturas, os povos, os costumes, tudo o que fosse diferente a prendia e encantava, lhe lançava apelos mudos. A condição económica não era desafogada e como tal não se podia dar ao luxo de empreender viagens a seu belo prazer, tinha que se contentar com uma viagem grande por ano, quando podia, e escolher o melhor possível o seu destino de férias. Mas, a decisão era sempre tão difícil!
Já conhecia parte da Europa, a Ásia e a África continuavam a acenar-lhe de longe, o apelo intenso que sentia por aquelas culturas crescia a cada ano que passava, e dizia de si para si que não morreria sem ver, pisar o solo, perceber, experimentar, conhecer aquele mundo novo. Um dia, numa festa de aniversário de uma grande amiga, é-lhe reapresentado um familiar dela, o padrinho, um homem alto bem constituído, de rosto aberto e olhar penetrante, bem-falante e de sorriso sempre pronto nos lábios. Chegara havia horas de mais uma viagem de trabalho e viera directamente para os anos da afilhada que não via havia vários anos. Diplomata de profissão, as viagens e os contactos eram a sua vida. Depois de cumprimentar efusivamente a afilhada e os pais e de ter sido apresentado a uns quantos amigos destes, dos quais ela fazia parte como visita da casa, acabara por se ir sentar perto de uma das portas de acesso ao jardim a conversar com o compadre. As duas raparigas riam e conviviam com o grupo mais jovem e a tarde ia-se passando entre brincadeiras e jogos, entre memórias e musica, entre as escapadelas furtivas dos namorados pelo jardim. As mesas postas dentro e fora de casa, davam espaço para que as pessoas circulassem sem serem obrigadas a conviver e os grupos estavam formados entre agindo com graciosidade e à vontade.
O calor dentro de casa embora as janelas e portas estivessem abertas empurrava de quando em vez as pessoas para os bem cuidados jardins e para o lago. Deixando o seu copo sobre uma das mesas e aproveitando um momento de sossego, Inês desce ao jardim deleitando-se com a brisa morna e evitando os grupos ruidosos que por ali se espalham e os pares escondidos nas pérgulas bem cuidadas. Os seus passos no cascalho soavam cadenciados em direcção a um dos seus lugares favoritos, onde sempre que lhe era permitido, passava horas deliciosas; O Roseiral. Lá o velho jardineiro negro desfiava histórias de rosas e flores, de lágrimas e sorrisos, de outra vida de outro continente, de uma outra realidade que a deixava a sonhar. Para lá se dirigiu sem pressas aspirando o perfume dos lilazeiros e dos buchos bem aparados. O Roseiral tinha sido um presente pelo nascimento da amiga que o pai fizera à esposa, que adorava rosas, e por cada ano de vida da filha uma nova roseira de uma espécie diferente era plantada. Havia-as de todas as cores, trepadeiras, miniaturas, arbustos, exóticas e comuns. Era um espaço muito especial e mágico para Inês, que desde que se lembrava ia sempre ver qual a nova roseira que tinha sido plantada, ao contrário da amiga que não ligava nenhuma aquele espaço.

O velho Bernardo lá estava, dir-se-ia que à sua espera, de chapéu de palha nas mãos calosas e negras, e sorriso franco aberto no rosto, para prender nas suas mãos grandes as mãos da jovem macias e brancas e leva-la como se de uma menina se tratasse a visitar o seu palácio encantado, feito de pétalas e aromas delicados. Inês deixou-se conduzir, como sempre pelo velho negro e deixou-se embalar de cabeça nem sabia bem onde, pelas histórias. Numa volta de um dos caramanchões feito de rosas alaranjadas docemente perfumadas, dão de caras com o padrinho da amiga que em silêncio passeava pelo Roseiral. Bernardo cumprimenta o senhor com uma alegria estampada no enrugado rosto e explica que muitas das rosas que encantam e deliciam Inês foram por aquele senhor, que ele trouxera ao colo, enviadas e que sempre que visita a casa vai, tal como ela, visita-lo e o jardim.

Embaraçada e sem saber o que dizer, apanhada de surpresa, sorri sem dizer palavra, e continuam os três o passeio calmo ouvindo a voz quente e cadenciada do negro. De vez em quando o homem olha-a com admiração ao ouvi-la, já esquecida da sua inibição do inicio e mostrando a espontaneidade natural em si. De repente dirige-lhe a palavra para lhe dizer: - “Desculpe, mas não captei a sua graça”. - “Chamo-me Inês, Dr. Medeiros”. – “Por favor Inês, trate-me como todos nesta casa por Filipe! Posso fazer-lhe uma pergunta?” – “Claro que sim, diga…” – “ A Inês há quanto tempo conhece o Bernardo e a minha afilhada? Onde tem estado escondida estes anos todos que nunca a vi?” Com uma gargalhada das suas a rapariga responde-lhe: - “ Dr.…. Desculpe, Filipe, mas eu tenho estado sempre cá nos anos da Joana, sou visita da casa desde criança, nos últimos anos é que não estive presente enquanto estava a acabar o curso e em estágio, mas…Sempre estive por cá. Conheço o Bernardo desde menina e andei ao colo dele vezes sem conta…Recorda-se do burrinho russo que a Joana teve de presente e que tinha duas cestas? Pois eu e ela e o Bernardo claro para tomar contas das “marias rapaz”, éramos a carga do pobre animal durante as tardes de verão.” O olhar profundo bem nos seus olhos e a gargalhada cristalina estremeceram o ar naquele instante. – “ Pelo que percebo você tem uma sede imensa de saber. A Inês licenciou-se em quê?” – “Humanísticas e Línguas”. – “ E actualmente, para além das rosas e das histórias do Bernardo e dos anos da Joana, faz o quê, posso inquirir?” O sorriso foi morrendo aos poucos no rosto da jovem e Filipe apercebeu-se que não deveria ter feito a pergunta por isso apressou-se a dizer: - “Desculpe Inês, não queria de modo algum perturba-la e muito menos estragar-lhe o dia, esqueça por favor a pergunta.” – “ Não, não se preocupe, não tem mal algum. De momento procuro alguma coisa que seja mais próxima de mim, o emprego que tinha acabou e como tal estou em busca, mas agora, se me fosse possível, gostaria de ter hipótese de me «fazer crescer» se entende o que quero dizer.” Um aceno ligeiro de cabeça foi a resposta....

(Continua)