sexta-feira, setembro 30, 2016

NOS BRAÇOS DE UM MAR DESCONHECIDO







Adormeço nos braços do mar, cobrem-me o corpo as gaivotas
com penas de duro penar. Nos cabelos, verdes algas, escondem-se ilhas ignotas.
A lua veio embalar um sono de sonhos profundos,
e espalha docemente no ar, pó de estrelas, visões de novos mundos.
Adormeço nos lençóis da fantasia, como se menina ainda fosse,
como se a vida não houvesse traído os sonhos, amordaçado o coração,
quebrado as asas de uma andorinha perdida da Primavera precoce.
Embalado o coração dorido e a alma exangue, sigo no silêncio de uma oração
que da voz do mar se eleva. Sigo na concha de um nautilus aventureiro,
vou á deriva da maré. Vou á bolina do poema, vou como arrojado arpoeiro
que na proa se ergue sem medo. Vou como anjo ou demónio, pétala lançada ao vento.
Adormeço nos braços do mar, esqueço a vida, a dor, o pranto. Esqueço o desalento.

Apenas vou rumo ao infinito; borboleta de mil cores que das mãos do sonho se eleva.

quinta-feira, setembro 22, 2016

SER APENAS MULHER

Não quero ser o sorriso que morre lento no rosto,
nem a gargalhada oca que entulha a garganta,
falsa, de circunstancia, com sabor a fogo posto.
Não quero ser quem não sou; nem  rainha, nem infanta,
açafata ou meretriz. Nem rochedo, nem oceano,
nem demónio ou querubim, nem tão pouco vago arcano
porque a magia perdeu-se de mim.

Não quero ser a alegria que se cola e se força,
nem a tristeza eminente que veste a pele desnudada.
Não quero ser quem não sou; nem predador nem corça
acossada pelo medo. Nem águia ou andorinha voando tresloucada.
Nem rosa, jasmim ou verbena, nem faia, nem salgueiro,
nem folha perdida no vento, nem nuvens de aguaceiro.
Porque a magia perdeu-se de mim.

Quero ser somente a alma que pisa a estrada da vida,
que trilha o caminho deserto, empoeirado de tempo.
Quero ser apenas mulher entre o cá e o lá dividida,
pés nus carregando os anos como duro contratempo.
Quero ser somente o que sou, sem tintas nem adornos,
sem atavios ou jóias, sem enfeites ou esbatidos contornos.
Porque a magia perdeu-se de mim.

Quero ser a mulher que caminha, ainda que o sorriso morra
no rosto que se cansou de sorrir.
Quero ser a mulher que olha, ainda que olhar já não corra
sobre os prados a florir.
Quero ser a mulher que sou, ainda que o brilho esmoreça
nos anos que passam velozes.
Quero ser a  mulher que sou, ainda que a esperança apodreça
no cansaço de esperas atrozes.
Não quero ser o sorriso que morre amargo no rosto!



segunda-feira, setembro 05, 2016

PÕE-SE O SOL EM MAIS UM DIA


foto de arv



Há momentos que as palavras não dizem
e as almas não retêm. São grandes, grandes demais.
Há sentimentos que os olhos não traduzem
e as mãos não guardam.Não podem, são simples mortais.





foto de arv


E com o sol se deitam os sonhos e as dores,
se aconchegam a esperança e o querer.
No mar...O reflexo da alma e os odores
de um Verão doirado por entre os dedos a escorrer.







foto arv

É uma bola amarela que brinca nas mãos do céu.
Como se uma criança risonha lhe pegasse
e a fizesse brilhar.
São os sonhos que se deitam num mar ateu,
mas que rezam as "vésperas", para se purificar.






E o  sol se deita em águas de frescura,
e diz "boa noite" com um ar de ternura.
E os sonhos não morrem e os desejos não passam,
os homens são loucos e as estrelas não calam
o que grita nas almas e nas bocas caladas.

O sol deixa um rasto de doirado tom,
e o mar marulha na areia sem som,
cansada de um dia de Estio e calor.
Cansada de um dia de alegria e dor.
Cansada de mentiras de sombras alongadas.

foto arv