segunda-feira, julho 08, 2019

RENASCER


Nasceu o dia com negrume no céu azedo,
como se os anjos, revoltados, virassem costas,
arreganhassem as nuvens carregadas.
Nasceu o dia, com grilhetas de um degredo
que o coração quebrará, entregando as respostas
que a alma pede, em mansas suplicas caladas.
Olhando o dia que cresce, olhando a vida que se faz,
deixando que flua o AMOR, essência de fogo invisível,
aprenderei a dar passos de infinito.
E o dia regressa à beleza que cada aurora sempre traz.
E a paz inunda a caminhada como um toque sensível,
como beijo de flor, de ave, como a certeza que habito.
Inunda-me uma manhã de cinzas e luz, de serena aceitação,
de alma renascida, de casa recém-lavada.   
Inunda-me uma manhã de paz sem tempo,
correndo suave como bruma numa qualquer viração,
fiz das feridas roupa nova, fiz da dor força renovada,
percorri a minha vereda sem horas nem contratempo.
Esta luz baça que escorre, ténue, pela vidraça
traz-me as estrelas que brilham no céu,
e as que habitam o mar; o meu céu, o meu mar,
onde ecoa uma melodia doce que perpassa
pelos côncavos do meu coração, qual balsamo ou véu,
qual afago de maternal mão, beijo de paternal amar.
hoje o dia acolheu-me na concha de um nautilus perdido,
vogando, tonto, pela corrente desta vida deslizante,
e o horizonte tornou-se palpável, tangível.
O que foi; passou, o que vem; virá renascido,
de novas cores enfeitado. Só o presente; vibrante,
é certeza de vida, é caminho perceptível.
Hoje, das nuvens carregadas, nasceu um sol inextinguível.

Lágrimas de lua







segunda-feira, junho 03, 2019

SOBREVIVÊNCIA







Guardo a capacidade de sobreviver ao que fere,
ao que mata e destrói.
Guardo a força de olhar mais longe, para o que difere
do caminho que não constrói.
Guardo a capacidade da aceitação, sem revolta,
sem resistência ou controvérsia.
Guardo-me na caminhada sem guarda nem escolta,
e sigo, no movimento e na inércia.
Guardo cada partida e cada chegada,
cada perda e cada abandono.
Guardo cada inevitabilidade na alvorada
de um novo dia sem retorno.
Guardo a capacidade de sobreviver ao imponderável,
porque a vida é apenas um sopro de infinito.


                                                                                                                                                                                                                                         Lágrimas de lua


quinta-feira, maio 09, 2019

SUSTENIDA NEBLINA


Olho a bruma que da noite se desprende
como esfumado sonho, sem tempo nem hora,
deixo perder o olhar na sonata que acende
as memórias de saudoso futuro, que demora.
Mergulho na sustenida neblina odorosa,
permito que os seus dedos me devassem a alma,
me percorram o corpo em viagem silenciosa.
Entrego a vida na sua inebriante e fosca calma.
E, de olhos vendados, caminho segurando o Nada,
carregando o Tudo, como se o mundo tombasse,
como se tivesse asas, dotes de adivinhação traçada
na palma da minha mão. Como se enfeitiçasse
esta eterna vida de árida e nua caminhada.
Entro, bruma a dentro, para um mundo só meu,
onde desabrocha uma nova alma desnudada,
onde enfrento o meu primordial EU.





Lágrimas de lua

terça-feira, abril 23, 2019

PÁSSARO NEGRO


Abre as asas, pássaro negro, ensina-me o teu voo.
Acolhe-me, pássaro negro, no calor do teu ninho.
Desdobra o negro do teu voo em raios de luz e caminho,
em rotas de descoberta, em coragem e denodo.
Voa, pássaro negro, nas auroras de róseos ventos,
nas brumas de espuma ardente, adentrando-se no peito.
Paira, pássaro negro, sobre as sombras de amor feito,
derretendo na lonjura, de silenciados fragmentos,
de adormecidas palavras e gritados silêncios.
Abre as asas, pássaro negro, leva-me na tua viagem,
não temas ventos nem marés, ou a força da solidão,
Voa, pássaro negro, na tua ilha, tua rota de ilusão.
Lança-te no espaço sem retorno, faz-te ao sol e à aragem.
Olha, pássaro negro, à tua volta tudo é noite sem luar,
respira, pássaro negro, a singeleza da tua cor e leva-me no teu voar.

Imagem da net



Lágrimas de lua


segunda-feira, abril 15, 2019

MUNDO AO CONTRÁRIO



Imagem da net


O mundo ao contrário, do avesso, do outro lado,
rasguei um lenho no mundo para descobrir o infinito,
espreitei: criança curiosa, o desconhecido encantado,
para além do sonhado, imaginado, para além do que foi dito.

Vi aves rastejando no deserto, baleias rindo no céu,
vi vulcões de mansas águas e lagos de eriçadas lavas.
Vi dias nascendo como noites de agoirento breu,
e luas de brilhantes auras envoltas em chuvas alvas.

Vi sonhos, como espantalhos, em maduros trigais,
vi lágrimas, como orvalhos de impenetrável aridez,
vi crianças calejadas de desalentados brandais,
e amantes esquecidos em destroçada lucidez.

Vi navios de chegada acenado em dura partida,
num cais de brilhante e mágica neblina.
Vi os teus olhos magoando a distancia incontida,
e os beijos, como nuvens, pairando em surdina.

Mudei o rumo dos mares, empoei as madrugadas,
e, de cartolas vazias, fiz nascer um novo dia.
Neste mundo do avesso, as palavras enrugadas
rasgam como lancetas, espreitam em agonia,
por este lenho aberto, bem no coração do mundo, à porfia.

Lágrimas de lua



quinta-feira, março 28, 2019

CONTRACÇÃO TEMPORAL



Sob um céu de desencontros, a vida esvai-se,

a vida passa, corre e escorre, como revolto ribeiro.
As nuvens murmuram sonhos, o tempo contrai-se,
cristalizado em cinzentos e esfumado nevoeiro.
Como almofada de memórias, perdidas no vento,
deslizando como espuma em céu sem cor,
passam as horas, os dias, e a vida que enfrento
de mãos nuas, onde já se afogou a dor.
Sob um céu de aveludados sonhos,
que um dia foram caminho e vida,
deslizam tempos de sorrisos tristonhos,
perpassam cores de uma paleta esquecida,
Que o tempo não poupou.
Que o pintor abandonou.
Que a vida apagou,
e o poeta, em silêncios, amordaçou.


Lágrimas de lua



terça-feira, março 26, 2019

AINDA AQUI ESTOU ... ESTAREI?






Ainda estou aqui; na voragem dos tempos,
no rodopio das horas, dos dias, dos ocasos.
De todas as marés e algas de salgada cor.
Ainda estou aqui; a servir de passatempo
às nuvens, às letras, ao improvável e aos acasos
que a vida, ou o destino, me quiserem propor.
Ainda aqui estou; no fluir de todos os rios e chuvas,
de todos os temporais e estios, de azuladas preces.
Ainda aqui estou; nos lábios de morangos e uvas,
de mosto e vinho novo. Das sombras onde feneces,
onde os vulcões depositam cinzas, e laivos lilases
de esquecimento. Ainda aqui estou, estive… estarei?
Talvez uma gaivota me leve, talvez uma onda me prenda
a um encalhado navio, brincando com os roazes.
Ainda aqui estou; em brandas palavras, que jamais direi,
em sonhos mil, acorrentados, a este cais que a dor desvenda.



Lágrimas de lua





RENASCER

Nasceu o dia com negrume no céu azedo, como se os anjos, revoltados, virassem costas, arreganhassem as nuvens carregadas. Nasceu o d...