terça-feira, junho 12, 2018

ESBOÇO INCOMPLETO




Sou o que as tintas do pintor pintaram
numa tela inacabada de tempo sem tempo.
Pintura que amarelece no pó intemporal
de um imponderável caminho sem volta.
Sou o que os olhos das crianças sonharam,
pelo caminho de pedras negras, em contratempo.
Sou o milhafre que no céu paira, imperial,
e sou o que não sou, sem mágoa nem revolta.

Vogo numa brisa suave de Verão serôdio e manso
onde habitam borboletas e risos distantes,
maçãs rubras e algodão doce puxado do céu.
Vogo nas asas de um golfinho pigarço de amor.
Olho o mundo do alto de uma fraga e danço
no fio de uma navalha, romba, de esperas agonizantes.
Escrevo nas involuções de um virginal véu,
que mãos calosas bordaram com ardor.

Sou o que não sei e o que sei. Sou, apenas sendo,
e vou onde não sei ir, nem de onde sei voltar,
porque o caminho perde a estrada, perde o norte
e perde o esteio.
Pé ante pé, vou; andando sempre e nada tendo,
e dou o que sou e não sou, porque dando, sei estar.
Amalgama de retortas linhas, de vazios plenos, sem sorte,
sem coragem nem receio.

Apenas sou… o que as tintas de um pintor esboçaram

Lágrimas de lua


sexta-feira, maio 04, 2018

MAREANDO TODAS AS MARÉS


Pisa o chão aguado como quem beija as nuvens,
nos olhos leva agulhas de esperança calada
presas nos cílios, vibrantes como borboletas.
Percorre as ruas, como mensageira alada
de “boas novas” obsoletas.
Serena, como anjo sem sexo nem idade,
leva no coração um navio, na alma o sonho,
nas mãos leva a Cruz de Cristo; farol na escuridão.
Vestida de espumas e algas, no tempo enfadonho
de quem não tem tempo, nem rumo, apenas a imensidão
de um caminho a percorrer, de um prazo a cumprir.

Pisa o chão como quem ama por dentro,
como quem doa tudo o que tem, tudo o que é.
Olha a vida como se dela fosse o húmus, o centro.
E caminha no caos com carta de marear toda a maré.
É um ser sem rei nem roque, sem norte nem sul,
é mulher, criança, amante?
É o que começa e termina, dia e noite, ir e vir,
estar e partir. Maga? Bruxa? Cartomante?
Ou apenas nebulosa perdida em tormenta de sentir?
Pisa o chão como quem beija a vida,
Vive a vida como quem beija o chão que a acolhe,
Segue, glauca, sem casa de partida,
Sem meta, sem tempo, sem bote e sem molhe.

Pisa o chão como que pisa a vida… de partida.

Lágrimas de lua


Imagem da net

sexta-feira, abril 20, 2018

PAREDES ESBURACADAS

Apesar das paredes, o frio arreganha-se no corpo,
apesar das janelas, a noite embrenha-se nos olhos,
apesar do querer, o vazio instala-se sem escolhos,
como caminho de verdes silêncios e ocres madrugadas.
Apesar dos botões, as flores mantêm-se enrugadas
no limbo da vida, que se encontra suspensa, em espera.
Apesar do nascente sol, a lua renasce, como rainha: impera.
Apesar dos passos, das mãos, do desejo, a vida corre,
respira suavemente, como quem sonha, como quem morre,
como quem passa, como quem fica, como quem parte
deixando um rasto de estrelares memórias. Meu baluarte
de guerreiras sombras, onde me entrincheiro; guerreira-amante,
mendiga, descalça nas pedras de um cais obsidiante,
de onde partem navios sem mastro. Botes sem leme,
sonhos sem fundo, onde o salgueiro treme
nas vagas de vento, soltas em brados, em euforia.
Apesar das paredes, o frio entranha-se em correria.
Amortalha o corpo, enfeitiça a alma, veste o coração.
Apesar das paredes: a "casa" permanece em esburacada desilusão.



Lágrimas de lua

Imagem da net

quarta-feira, abril 04, 2018

LONGÍNQUA VALSA



Imagem retirada da net

Subi ao eterno para te contemplar,
das etéreas nuvens, beijar a sombra que em mim ficou.
Subi ao mais alto dos céus para implorar,
que tudo se apague, esfume, que se dissolva o que sobrou.
Marioneta sem jeito, presa por fios de gastos luares,
olhos de andorinha sem beirado, asas quebradas de vento
suão. Boneca de trapos numa cadeira sem tempo nem vagares.
Folha arrancada a uma árvore sem nome que suspira num lamento:
De onde vem o vento norte? Que navios traz encurralados nas vagas?
Que sonhos espreme pelos caminhos de arrepiado desalento?
E que novas, em amarelecidas cartas, contam diletantes sagas?
Subi ao eterno para te contemplar,
de longe, do meu silêncio; dura clausura de monja, descalça
nas negras pedras, de um caminho ainda por caminhar.
Subi ao mais alto dos céus; dancei uma longínqua valsa
de desconcertado piano, desafinada ortografia, patética melodia.

Subi ao celestial azul para te olhar
e derramei, sem querer, pérolas de um longo penar.


Lágrimas de lua



Imagem retirada da net






quarta-feira, março 28, 2018

"HÁ LODO NO CAIS"

Calei a manhã que nascia, no olhar.
Esfumei as brumas do desejo na aragem
que do poente se levanta, breve, doce,
como caricia de flores, de folhagem,
de rosas escondidas em outono precoce.
Calei a mágoa vazia que crescia, a torturar.
Toquei o infinito, a eternidade que dura um momento,
que tem forma de água e alma de vento,
que se veste, como nova pele, como um prolongamento
de mim para fora de mim, num silencioso lamento.
Lancei-me no verde inventado para lá de um mar
que já não navego.  Ondulante de sonhos desamados,
ou de amados sonhos para sempre amordaçados.
Vesti-me de brumas, enfeite-me das utopias dos desarmados,
dos pobres e dos ricos, dos que da vida foram enjeitados.
Amei um amor que não existe, amei até não saber mais amar.
Dilui as sombras em profundas águas azuis, amarrei o barco no cais,
onde o lodo é branco e as pedras longas despedidas de partir.
De partir sem voltar, de voltar sem sair, de nau sem estais.
Pintei uma tela de encanto, oca de vida, um eterno mentir.
Lancei-me num caleidoscópio de inicio e fim a pelejar.
E voltei ao nascer, e corri ao morrer, e fui pássaro e bruma,
fui hoje e ontem, mas jamais o amanhã; esse, a Deus pertence,
não á humana vontade. E cresci e perdi. Arrojei-me à espuma
de cada dia que passa, e nos teus olhos desenho a dor que vence,
a dor que verga, o vazio que preenche, e o sonho que adormece


como o “Lodo no cais

Lágrimas de lua