quinta-feira, novembro 08, 2018

A LONJURA DO MAR






Há auroras que são imensas
plenas e densas.
Há sorrisos que são poemas
sem gráficos nem teoremas.
Há sonhos que morrem no cais
do adeus, de simples mortais.
Há beijos que pairam sem destino,
estrelas suspensas, em desatino.
Há palavras que secam sozinhas
em corações doendo por almas mesquinhas.
Há luares que são asas de gaivota,
rumorejando numa praia ignota.
Há letras na poesia de um olhar
perdido na lonjura do grande mar.
Há palavras que tombam caladas
como  sombras de memórias aladas


Lágrimas de lua

domingo, outubro 28, 2018

SOMBRA DE AVES








Na sonoridade de um raio de luar,
onde habitam os sonhos e telas inacabadas
que um pintor abandonou,
desenha-se uma melodia a flutuar.
Como sombras de aves, em lagoas caladas
que o tempo marcou.


Na imensidão da noite, desdobrando o vazio,
onde as velas ardem e os anjos velam
em mansa litania,
eleva-se o odor, suave, do alecrim bravio
em alcova de amores, que cinzelam
as horas, passando em sintonia.

No silêncio de uma ausência que mata
e das palavras gritadas, por dizer,
derrapa a vida,
voando veloz; perigosa acrobata,
num trapézio sem rede e olhos sem ver,
escreve-se o adeus… de partida

Lágrimas de lua

quinta-feira, outubro 18, 2018

CAVALEIRO ANDANTE


Cavaleiro andante de auroras nebulosas,
onde se perde o tempo e as horas repousam.
Vens do desbaste das memórias tenebrosas,
como arqueiro de guerras perdidas que poucos ousam,
que poucos tentaram, que muitos fracassaram.
Cavaleiro andante de sonhos esfumados,
dos tempos sem tempo, sem eira nem beirado,
trazes no corpo as marcas de amores derramados,
de esquecidos beijos, de mãos ocas e olhar aloprado.
Cavaleiro andante que tantos conheceram e desprezaram.
Hoje és apenas memória, és neblina do intemporal sonho,
és vaga sombra no caminho, sopro de aragem mansa.
Como folhas em Outonal madrugada onde deponho
as mais doces lembranças passadas; minha arca da aliança.
Ah, cavaleiro andante, quantos sóis te açoitaram?

Lágrimas de lua


Imagem retirada da net

sexta-feira, outubro 05, 2018

USA PALAVRAS... SE FOR PRECISO

"Ama; se preciso for, usa palavras".

E ela amou, sem palavras, com todas as letras que inventou,
com todas as frases que disse e que calou.
E ela amou, com palavras, com as que compôs, re-escreveu,
remodelou, reinventou, com as que imaginou e não se atreveu.

"Ama; se preciso for, usa palavras".

E ela amou, com corpo e sonhos,com alma e coração,
com o que tinha e era, com a coragem da doação.
E ela amou, na ingenuidade do amar, na pureza do acreditar,
na força do lutar, na desordem de encontrar, apenas, um lugar.

"Ama; se preciso for, usa palavras".

E ela amou, cresceu e mudou. Amadureceu e aceitou
o que a vida propunha. Desembainhou a espada e lutou.
E ela amou, pela vida toda e pela morte inteira,
pela alegria louca e pela dor cruel e certeira.
Sim, ela amou.

"Ama; se preciso for, usa palavras".

E ela calou cada palavra-punhal enterrada no peito,
e ela seguiu a estrada sombria, de coração desfeito.
E ela matou o amor, sem palavras, que perdidas foram
por ruelas de negro. E soçobrou nas letras, que choram
o quanto se deu, o quanto amou.

"Ama; se preciso for, pinta um arco-íris na alma." 
Ama, sim. E, se preciso for: esgrima as palavras.

Lágrimas de lua




quarta-feira, setembro 19, 2018

CAIS DE ANTEPASSADAS PEDRAS




Imagem retirada da net











Um rasto de luz, uma porta entreaberta,
um sopro de verde, uma lágrima de vento,
notas soltas no sereno pela mão da feiticeira
que da lua espreita, esta ilha deserta,
este chão de pedras magoadas de esquecimento.
Uma barca sem leme pela bruma aventureira.

Uma voz que desliza, nas sombras de uma inventada aurora,
porque não sabe se acorda, se grita, se ri ou chora.
Um olhar sem idade, nas encruzilhadas do nada,
porque perdeu o combate, porque sucumbiu ao fio da espada.

Uma criança que espera no cais de todos os adeus,
embebido de águas sem tempo, de um azul profundo,
de um grito de prazer amordaçado pela mão do vazio.
Um dia que adormece nos braços robustos dos plebeus,
repousando da fome e da imensidão do mundo.
Uma carta sem palavras no mais sano desvario.

Uma pedra laçada, uma onda maior, uma praia sem mim,
uma aurora anunciada em noites de veludo e jasmim.
Uma taça doirada, de fel adornada, um beijo suspenso,
uma vida lacada, uma tela inacabada no suave perfume de incenso.

Lágrimas de lua

quarta-feira, setembro 05, 2018

ESCADAS PARA O INFINITO - Foto de Carlos Rolo

Foto de CARLOS ROLO



Encaneci nas esperas de verdes vestidas,
verguei o corpo, outrora esbelto, desfaleci.
Ao vento soltei os cabelos, nas sete partidas
do mundo; do meu mundo, e estremeci;
de fome? De frio? De abandono?
Ou apenas de árvore grácil à espera de um Outono?
Estendi os braços cristalizando a esperança,
atapetei-me de musgos, vesti-me de mansas heras.
O tempo percorre-me as veias na temperança
dos ocasos, de sonhadas auroras, quem sabe…quimeras?

Sei que guardo comigo as escadas para o infinito.


Lágrimas de lua

terça-feira, setembro 04, 2018

O PULSAR DOS SONHOS



Esta noite percorri sete mares em busca de sete véus de magia,
traguei sete poções de amor, e sete de perdição, à luz da prateada lua.
Dancei no fogo de um braseiro que não arde, entreguei a alma nua
às mãos de uma nova madrugada. Encontrei-me com o vazio nessa louca correria,
e das mãos vazias e velhas escorrem memórias pintadas em telas intemporais.

Esta noite percorri o infinito em busca do pulsar dos sonhos,
em busca de razões e sinais, em busca de signos e runas,
de lendas enfeitiçadas, presas em lagoas afundadas, em singelas dunas.
Vesti-me de névoas e brumas, naveguei em barcos tristonhos
Tricotei novelos de espuma nas nuvens dos temporais.

E abracei o sereno, renasci à luz de um novo sol, mergulhei no abismo
de azul e verde enfeitado, deitei-me com as ninfas e as conchas sem futuro
num areal inventado, numa ilha para lá do mar, onde não há tempo nem muro,
nem manhã nem ocaso, apenas o tempo passa num bruxuleante grafismo,
apenas a vida escorre, lenta, sedenta, dançando insana nos vendavais.




Lágrimas de lua



A LONJURA DO MAR

Há auroras que são imensas plenas e densas. Há sorrisos que são poemas sem gráficos nem teoremas. Há sonhos que morrem n...