quinta-feira, abril 28, 2016

SÓ O TEMPO SABE, SÓ O TEMPO PODE SABER....







Quem sabe o caminho a seguir? O caminho certo?
Só o tempo.

Quem sabe a dor que o coração pode suportar?
Só o tempo, só o tempo.

Quem sabe se o amor vai perder o brilho? Vai esconder-se no esquecimento?
Só o tempo

Quem sabe o que está na próxima cuva da estrada?
Só o tempo, só tempo.

Quem sabe quantos vezes caímos? E quantas nos vamos erguer de novo?
Só o tempo

Quem sabe que ventos nos vão empurrar?
Só o tempo, só o tempo

Quem sabe o que está para lá do horizonte? Que novos rumos vamos tomar?
Só o tempo

Quem sabe se o coração baterá acelerado de novo?
Só o tempo, só o tempo

Quem sabe onde nos levarão os passos? E que vida iremos encetar?
Só tempo

Quem sabe quanto demora uma ferida a sarar?
Só o tempo, só o tempo

Quem sabe? Quem sabe? Quem sabe….


Só o tempo…Só tempo…Só  tempo a passar.

segunda-feira, abril 25, 2016

MUNDO EXTINTO


Na aridez de um suspiro sem retorno
o anjo do oblívio paira como poalha doirada.
Traz na fronte um singelo adorno
em forma de meia lua prateada.
Traz nas mãos a aljava dos sonhos
e as flechas da desilusão e da dor.
Esvoaça breve sobre todos os abrolhos
que a mágoa deixa num painel já sem cor.
Na aridez de uma deserto gretado
onde as sementes murcham sem desabrochar,
um anjo de alvas asas chora apiedado
de todas as dores enterradas num olhar.
Traz nas mãos suave balsamo 
na fronte um sinal de esperança,
entoa um doce um pungente salmo
traz a bonança e o suavizar da lembrança
de um mundo que se extinguiu.





quinta-feira, abril 14, 2016

SE? - NÃO HÁ "SES" NA VIDA

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imagem retirada da net




Na vida não há “ses”.

Na vida tudo é ou não é. Um “se” nada traz, nada dá.
Um “se” é a indefinição de um “é” e a dúvida de um “não é”

Na vida não há “ses”.

Na vida tudo é luta entre opostos, sim e não, há e não há.
Início e fim, tudo é luta nesta arena onde se morre de pé.

Na vida não há “ses”.

Porque os “ses” nada são, apenas indecisões, meias tintas,
Dúvidas em eterna incerteza. Respostas nunca encontradas.

Na vida não há “ses”.

Tudo deve ter um rumo certo, não pode haver respostas indistintas.
Não há lugar para dúvidas, só passadas certas e orientadas.

Na vida não há “ses”.

E quando os há perdemos tempo, espaço, rumo,
perdemos o pé e o caminho, perdemos a força, rodopiamos sem sentido.

Na vida não há “ses”.

E quando os há ficamos cegos, surdos, tudo se esconde no fumo
com que a vida nos vai envolver. E o nosso caminho esbatido
perde as cores, perde o brilho, perde o sabor e o odor.
Perde a forma de caminho, é apenas pó e suor, é apenas e só dor.


Na vida não há “ses”. E quando os há, não há vida.




quinta-feira, abril 07, 2016

AQUI TÃO PERTO E TÃO LONGE



Aqui onde o perto se fez longe de tão distante silêncio.
Aqui onde o longe se faz mais longe e o perto se perde
em ondas de dorido esquecimento.
Aqui onde impera um frio que calo e não denuncio,
e onde as noites são apenas noites de um negro cobarde
que invade o coração como um lamento.

Aqui onde o longe se fez infinito e o perto é só miragem.
aqui onde o fogo se tornou gelo e o chão é mar incerto.
Aqui onde se confunde a disforme paisagem
e o longe é tão mais longe, tão mais um desolado deserto.

Aqui tão longe e tão perto, aqui tão perto e tão longe!




terça-feira, abril 05, 2016

TESOURO AZUL





Levava às costas a vida inteira e nos olhos o pavor do mundo. Todo o pavor que os seus poucos anos comportavam. Nos pés uns sapatos esburacados e rotos, esfrangalhados de todos os sonhos de menina. E ela adorava aqueles sapatos! Como tinha ficado feliz quando a mãe lhos dera! Parecia uma princesa com eles… Os seus cabelos finos e escuros em doces ondas sobre os ombros e os pezitos delicados calçados com aqueles tesouros azuis com um lacinho do mesmo tom e a tira com fivela que prendia ao tornozelo magro escondido sob as meias quentes que a resguardavam do frio do Outono adiantado.

Tinham passados apenas uns 20 dias e os seus tesouros azuis eram agora uns destroços como os seus desejos e sonhos de criança. Agora ia empurrada pelo vento que açoitava duramente os corpos dobrados sobre si mesmos para se protegerem das bátegas de chuva gelada e das vergastadas da ventania. Ia sem saber para onde, nem muito bem porquê. Ia apenas, na horda de adultos e crianças que tropeçavam na lama e nas pedras que o caminho da guerra lhes tinha dado. Entorpecida e anestesiada nada importava, só caminhar, andar em frente. Já não sentia a falta do colo do pai que a carregara durante algum tempo e que perdera numa das muitas bermas que calcorreara, nem tão pouco o calor do corpo da mãe nas noites gélidas e imensas, porque também ela ficara algures por uma das inúmeras estradas que haviam palmilhado. Ou do irmão um ano mais velho que ela e que em dada altura lhe largara a mão também ele se perdendo no meio daqueles corpos angustiados, amedrontados, suados e esgotados mas que se obstinavam a prosseguir nem que fosse de rastos até tocarem o tal almejado “mundo novo”. A “nova esperança para além das fronteiras”, a “nova vida sem guerra nem fome”. Para ela eram palavras. Não tinha ainda a noção do que queriam dizer, os seus 7 anos tinham crescido abruptamente em semanas, mas… Continuava a ser uma menina que queria brincar com as suas amigas, as bonecas, e a sua bicicleta novinha em folha que um muro rebentara após o detonar de uma bomba. Pelo olhar embotado de medo, desespero e desesperança passavam ainda as lembranças de tempos felizes, de risos e de dias calmos. Mas mesmo esses laivos de normalidade iam aos poucos sendo sugados pela dureza do caminho que trilhava, sozinha. Mas no meio da multidão que com ela fugia, se empurrava e digladiava para encontrar um lugar mais abrigado para passar algumas horas de um descanso que era apenas um breve pestanejar. O cansaço, a fome, o frio e a sede iam reduzindo o rebanho humano que se lançara pelas montanhas e pelas planícies do país a ferro e fogo. Só precisavam atingir a fronteira, fosse lá isso o que fosse. Ela só queria sentar-se e descansar o corpo esgotado de dias e dias sem tréguas. Havia adultos que por vezes se juntavam a ela e lhe davam algo para comer ou beber. Ela era mais uma entre as inúmeras crianças do grupo que já tinham perdido os pais e os familiares na caminhada. Por isso tentavam junta-la ao grupinho infantil para que não se perdesse. Eles eram a esperança do povo. Eles tinham que sobreviver, fosse como fosse. Eram o futuro!
Finalmente a fronteira! E mais não sei quantos dias para poder passar. O seu grupo de meninos e meninas passou inteiro, todo junto! Como se fosse um corpo só. Empurrando-se e oscilando como uma aranha pequena numa teia enorme. A teia da vida que os enredou e lhes roubou os sonhos. Que lhes pôs cores negras e sem luz nos olhos infantis. Que lhes pôs o medo na alma e a tristeza no coração, que lhes vestiu os corpos franzinos de farrapos e amargura. Que lhes pôs nos pés a dor e a solidão. Passaram todos sem olhar para trás, sem saberem quantos adultos haviam passado como eles. Sem saberem o que ia suceder agora que entravam na “nova esperança”, que entravam num mundo a que tinham ouvido chamar “Europa”. O que iriam fazer, para onde iam ser encaminhados, o que lhes estava reservado. Pelo menos tinham conseguido chegar e sentiam-se orgulhosos dos seus pés rasgados e rostos sujos e emagrecidos. Sentiam-se alegres porque o sonho que os pais lhes tinham posto nas cabeças estava, ao que parecia, cumprido. Estavam a salvo da guerra, das bombas a rebentarem nas ruas a cada passo, das casas destruídas e dos corpos mortos pelas estradas das cidades. Do cheiro a doença e destruição, a morte, que se colava à pele e aos cabelos. Sim eles tinham chegado, representasse isso o que quer que fosse.


…Entrara em casa a medo. Ali tudo era silêncio e luz. Um sol quente e dourado entrava pela janela e inundava a caminha com uma colcha alegre feita de tecidos coloridos e acolchoada. Devia ser quentinha e aconchegante! Mas ela já não sabia o que isso era. Ali, no meio do quarto ouvindo a voz meiga e baixa da senhora que a acolhera, agarrava ansiosa e apavorada a sua mochila suja e meia desfeita e baixava o seu rostinho macerado olhando para os seus tesouros azuis que ainda lhe enfeitavam os pés gelados e roxos. Também eles haviam sido uns heróis, tinham chegado com ela. Um dia, quem sabe, não teria uns sapatos novos de princesa, desta vez num mundo de paz, amor e harmonia….

sexta-feira, abril 01, 2016

VIVE-SE PARA A FRENTE...ENTENDE-SE PARA TRÁS



É bem verdade que só entendemos a vida olhando para trás, mas só a conseguiremos viver olhando para a frente. E que se soubéssemos o que nos espera em frente provavelmente fugiríamos a toda a velocidade, ou faríamos os impossíveis por modificar alguma coisa. É também verdade que se tivéssemos o poder da adivinhação daríamos muito mais valor aos momentos quando passamos por eles, sabendo que todos estão destinados a terem um fim. Claro que vivemos os nossos momentos e os valorizamos! Mas penso que os aproveitaríamos muito mas muito mais, se nos lembrássemos que podem terminar a qualquer instante, que tudo é efémero e finito. Se nos lembrássemos daquele ditado popular; “Tudo o que tem princípio tem fim”.

Tudo o que já se viveu, agora olhando para o início das nossas estradas, provavelmente poderia ter sido vivido de outra forma. Poderia ter sido mais bem vivido, ou aproveitado, poderia ter sido mais intenso, ou quem sabe, menos intenso até, se soubéssemos na altura o que nos esperava. Quantos de nós não pensaram já; - Se tivesse estado mais com A,B, ou C… Se tivesse saído mais e visto mais mundo… Se não tivesse amado desta forma….Se não me tivesse entregue a A, B.ou C…. Se tivesse feito isto, ou aquilo… Não, não digo que haja arrependimento! Longe disso! Apenas que se calhar muitos pensamos, depois dos factos passados, que poderíamos ter tido outra atitude, outra postura, outra forma de viver. Não como uma forma de “penalização” pessoal ou remorso, apenas como uma constatação de vida.

Devíamos todos de ter bem presente a efemeridade da vida. O quão ténue e fugaz é a sua passagem. Nós, enquanto pessoas, apenas atravessamos este lapso de tempo chamado VIDA. Como tal não nos devíamos esquecer de aproveitar o mais simples e singelo momento. O mais ténue dos sentimentos, a mais insignificante das coisas que nos cruzam o caminho. Cada vez mais acredito que só assim podemos dizer no final dos nossos dias – Eu vivi. Após momentos traumáticos, desgostos e feridas abertas por mãos que não se espera que o façam tendemos a olhar mais profundamente para vida, para a nossa vida. Aquele pedaço de estrada já percorrido – entender “para trás”, para poder “viver para a frente”. E é nestes olhares que aprendemos. Que paramos a nossa azáfama do dia-a-dia para pensar em nós, pessoas, humanos, com sentimentos, com desejos, com ansias e frustrações. E é nestes momentos que valorizamos o que já tínhamos valorizado, mas não o suficiente. Que queremos voltar a ter os momentos que nos foram queridos e que, porque o tempo não para, já não voltam. Fazem apenas e só parte da estrada percorrida.


Há que aprender com estes momentos de introspecção a passar a viver de outra forma. Mais intensa, mais vibrante, mais valorizada. Aprender a joeirar o que na realidade não importa daquilo que é essencial e único, daquilo que vale mesmo a pena dar atenção e VIVER VALORIZANDO. É um processo em que iremos consumir a vida terrena, porque penso que viemos a este mundo para lutar por ser melhor, para aprender, para cair e levantar as vezes que tiver que ser. Está nas nossas mãos terminar a nossa breve passagem enriquecidos e plenos de frutos que as nossas sementes deram.