sexta-feira, maio 19, 2017

UM ESPINHO CRAVADO




Porque são tão complicados os corações, pai?
Porque são tão duros os sentimentos mais doces?
Fazer o caminho com um espinho cravado que não sai,
é um travo amargo demais. Sem um gesto que esboce
a mais leve sensibilidade,
a mais simples humanidade.

Diz-me, pai, porque é tão dura a vida? Porquê?
Seguir em frente amordaçando o coração no peito,
calando, sufocando um mundo rico que não se vê.
Apenas para que se cumpra uma "ordem", um preceito.
Uma intransigência, 
uma incongruência.

Porque são tão complicados os corações, pai?
Não sei, minha filha, talvez por serem humanos - de carne.... 



sexta-feira, maio 05, 2017

SE O AMOR NOS DEFINE....




É o amor que nos define, doendo e sofrido;
o amor dado e o amor recebido.
Não é a fama, não é o dinheiro, nem a posse;
é o amor que nos define, mesmo se for precoce,
mesmo se for serôdio, mesmo que por metade.
É o amor que nos define: um amor sem idade,
sem barreiras – amor por amor -, sem mais nada,
sem porquês e sem senãos. Amor na partida e na chegada.
É o amor que nos define, magoado e distorcido:
o amor dado e o amor recebido.
Porque não percebes que o amor comanda a vida?
Essa vida que um dia te vai cobrar a sua divida.

É o amor que nos define: o amor dado, o amor recebido.



(partindo de uma frase - é o amor que nos define)

AVESSO DE ALMA



Quero ver o avesso de mim. Aquela face com bolor e pó,
aquele “in” que não se vê, mas está cá – sou EU.
Quero virar a pele, a carne e os ossos, virar-me: só.
E abraçar, com braços de alma, o que vejo e vida me deu.
Quero limpar este “sótão” de alma sofrida: deixar o sol entrar,
permitir-me seguir, ir, absorver, acordar, viver o hoje – apenas estar.

Quero ver o avesso da alma. Da minha, desta etérea senhora que me habita,
desta desajeitada sombra que me segue os passos, me segue a vida.
Virar do avesso e sacudir a dor, o vazio, o abandono, este estar proscrita
de sentimentos, condenada pelo coração amante: viver assim, banida.
Quero deixar entrar o sol, o vento, a Primavera – em pleno –, em cheio,
redonda, vibrante, quero apenas, e só, vogar em suave devaneio.

Quero ver o avesso de mim, da minha alma empoeirada,
do meu coração engelhado, dos meus passos encolhidos,
pobres e ensombrados. Quero abrir a janela emperrada
e deixar entrar a vida: é hora de liberar todos os “proibidos”
e “sentidos únicos”, “estradas sem saída”; é hora de serenidade,
aceitação, de olhar erguido, alma renovada; de enterrar a saudade.


A vida não espera,

a morte não tarda,

as horas não param: avessar a alma é urgente.