segunda-feira, agosto 09, 2010

UM DIA NORMAL


Como qualquer outro dia, levantou-se abriu a janela, deixou que a leve brisa matinal lhe beijasse o rosto e lavasse os restos da noite mal dormida, das dores de cabeça alucinantes que lhe martelavam as têmporas e a preparasse de alguma forma para mais um dia de lutas internas e externas. Como qualquer outro dia engoliu as lágrimas que enevoavam os olhos escuros e olhou para o espaço apertado que a rodeava, ouviu o canto das rolas e o pipilar dos pardais em busca das migalhas lançadas durante a noite, as sobras minúsculas dos jantares e de quem já tomara o pequeno-almoço aquela hora. Como qualquer outro dia o sossego da manhã a invadia com a sua benevolência e paz, que a aconchegavam nos braços e quase a faziam sentir-se feliz. Como qualquer outra manhã afastou-se da janela, arranjou-se, comeu e fez a cama pronta para encarar de novo a vida de sempre.
Fechou a porta atrás de si e compôs o seu sorriso, com a cabeça vazia de pensamentos e o coração despojado de sentimentos, sentia-se um invólucro, uma concha vazia, onde as funções vitais aconteciam por si só. O trânsito, calmo ainda aquela hora matutina, não lhe prendia a atenção e conduzia como se fosse outra pessoa atrás do volante, deu-se conta de repente que deveria estar a prestar atenção ao que fazia, e mesmo com pouco tráfego tinha que estar atenta. Mas a sua cabeça, para além de doer horrivelmente, estava num outro local, num outro tempo, perdida em memórias que queria abafar e esquecer, arrumar de uma vez e não permitir que lhe perturbassem a vida, Normalmente conseguia empurra-las para o mais fundo de si mesma, mas por vezes parecia que tinham vida própria e impunham-se-lhe como se algo de invisível as atirasse de novo para a sua cabeça, faziam-se vividamente presentes, dolorosamente vivas e actuais. Atravessava um desses momentos, e apercebeu-se disso a tempo. Elevou o som do rádio, trauteando a canção que sabia de cor, e olhou pelo retrovisor, seguindo a evolução do carro que a acompanhava havia algum tempo, mas sem prestar muita atenção ao ou aos ocupantes, apenas viu o carro e as linhas elegantes que seguiam na mesma estrada. Um sorriso mais aberto surgiu-lhe no rosto e as ideias começavam a desanuviar um pouco, a dor parecia estar a abrandar e os olhos retomavam a acuidade normal. Mais uma olhadela rápida pelo retrovisor deu-lhe a conhecer que o veículo seguia à mesma velocidade e que não fazia tensão de ultrapassa-la embora não fosse a uma grande velocidade e por norma naquela recta todos se lançassem para embalar para a subida que se seguia. Fixou de novo a estrada deserta à sua frente, olhou para a serra que amava como se fosse um pedaço seu e abriu mais o vidro do seu lado para aspirar o ar ainda fresco da manhã, quase como se esperasse que o odor característico da serra lhe enchesse as narinas. De repente e surgindo do nada uma vontade imensa de ir até à neblina que docemente cobria a encosta força-a a desviar o seu rumo do emprego e dirigir-se para a serra, sem pensar duas vezes, sem hesitar ou sequer se preocupar com o que diria para justificar a falta, algo a empurrava para o seu refugio mais querido, algo a chamava com uma força à qual não conseguia resistir. Metendo pela estrada velha silenciosa e húmida, vai sem destino certo, vai ante saboreando o cheiro, a humidade que lhe arrepia a pele, as gotas de orvalho que lhe escorrem pelos cabelos, ante gozando o prazer que sempre sente naquele ambiente mágico que aprendeu a amar e desfrutar tantos anos antes, quando ainda era uma jovem mulher com sonhos e pensamentos mágicos, onde tudo o que lera sobre religiões antigas, magia e filosofia se misturavam numa girândola de cores e cheiros, de sentimentos e sonhos que a preenchiam e lhe davam sentido para seguir em frente mesmo que a vida fosse um inferno de desespero e vazio. Estranhamente o carro seguia-a ainda.
Longe da vida e apenas absorvida pela estrada sinuosa, pelo silencio cortado pelo roncar breve do motor do seu carro, e pela ânsia de percorrer as artérias de vida da serra, nada a tocava ou a preocupava, não olhou sequer para o espelho nem para as evoluções que o outro carro atrás do seu, desacelerando quando ela o fazia e puxando por ele ao mesmo tempo que ela. O seu coração batia já ao ritmo da seiva que corria nos velhos e escuros troncos, ao ritmo das pedras milenares com as suas histórias escondidas e segredos bem guardados, os seus olhos viam para além da natureza verde e profunda penetrando no âmago das coisas que a rodeavam. Estacionou onde sempre fazia, trancando o carro e levando a mala com o telemóvel no silêncio para que nada perturbasse aquele momento de comunhão e paz, de felicidade quase intocável. Caminhava olhando as copas que em conciliábulo murmuravam entre si, pisava a musgo e as folhas mortas que aos poucos se transformavam em rico húmus, aos seus olhos a floresta, as pequenas flores silvestres, as gotas de nevoeiro, tinham o brilho, o encanto a magia que sempre lhes conhecera, envolviam-na nos seus braços amorosos e doces como sempre haviam feito, a paz que costumava invadi-la quando ao lado de alguém trilhara pelas primeiras vezes aqueles mesmos caminhos, voltava a preenche-la. Agora de uma forma estranha e diferente, como se um vazio, mas um vazio sem dor, doce, terno, meigo e aconchegante, a envolvesse, a transportasse para um novo horizonte, uma nova perspectiva. Ao seu lado estavam os misteriosos duendes e fadas, todos os pequeninos seres, invisíveis para os olhos e almas que não se deixam levar pela magia, a saudavam como alguém muito amado. O seu coração extravasa e as lágrimas correm pelos olhos, a alma purifica-se naquelas lágrimas, sente-se leve, quase a flutuar…
Uma mão prende o seu braço trazendo-a rápida e brutalmente à terra, olha como que perdida, estremecendo como se um raio a tivesse atingido, como se um cubo de gelo lhe trespasse o coração, os olhos quase loucos e sem verem tentam desesperadamente ver quem a prende. Aos poucos vai acalmando a acelerada frequência cardíaca, a respiração torna-se mais lenta e consegue ouvir através do nevoeiro mental que lhe embota a consciência e os sentidos. A mão que repousa no seu braço húmido de orvalho fá-la despertar do sonho e encarar a realidade; Estranhando o caminho que levava e que a desviara do emprego, resolvera segui-la, encontrando-a naquele estado de semi transe. Sem saber bem o que fazer, o seu chefe resolve fazer-se notado tocando-lhe no braço.

9 comentários:

Whispers disse...

Querida,
Hoje nao te li, vou voltar....mas quero hoje te deixar mil beijos com carinho e te agradecer por cada palavra que me enche o coracao.

Obrigado!

Mil beijos
Rachel

rita disse...

que final terrível...merecia um final melhor!

luar perdido disse...

a ideia é o insólito mesmo...Porque não o chefe???

Whispers disse...

Querida amiga,


Entre o nevoeiro dos pensamentos,entre a corrida com as emoções, entre o despertar para a realidade.
Ela viveu um momento mágico,no lugar que a tira do céu e lha dá asas e a deixa voar.

Como sempre tuas Historias São maravilhosas.

Minha querida, desejo que o sol da felicidade te ilumine a tua semana.
Mil beijos com carinho
Rachel

A.S. disse...

Tuas narrativas são sempre deliciosas de ler. As palavras fazem-nos sentir emoções...
Adoro ler-te!


BjO´ss
AL

Whispers disse...

Minha querida,
Venho saber como estas?
se o sol da alegria e felicidade te anda acompanhar, e se os anjos te estao a guardar.

Deixo te mil beijos com carinho
Rachel

Chellot disse...

Em dias normais é que aconece coisas extraordinárias. Lindo texto. Beijos doces.

O Profeta disse...

Só, sou ilha plantada no Oceano
Açoitada por ventos de paixão
De manto verde me deito em seu colo
Esperando descobrir na bruma o rosto da contradição

Descobri uma singela e simples coisa
No meio daquilo que pensei ser mágoa
Que depois de separar o sal de uma lágrima
Ficou este ser feito de...Agua...


Doce beijo

O Profeta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.