sexta-feira, outubro 07, 2016

RESTOS MORTAIS


Passaram os sois e as luas, as chuvas e os vendavais,
passaram as rosas e os lírios, e o tempo a arrastar.
Passaram as horas e os dias, passou a vida sem parar,
morreram as violetas, secas de esperar demais.
Secaram também os sonhos, perdidos no esquecimento,
os passos esfumaram-se, sem rumo, enganados no andar.
E os olhos perderam brilho e a força de querer olhar,
de querer ver o invisível, ou o óbvio em cada momento.

Passaram os sois e as luas, as marés e os marinheiros,
passaram viagens e sons, momentos e solidão,
tudo passou, arrastando o tempo em turbilhão.
Restam apenas memórias como densos nevoeiros.
Onde ficaram as horas, as esperas e os desencontros,
onde se esconderam os anos, pérfidos de tanta mentira,
onde habita o bem querer? Em que órbita é que gira?
Onde ficou o tudo e o nada, onde são agora os encontros?

Passou, como nuvem sem rumo, como ave sem lar,
como velho sem tecto, ou criança sem sorriso.
Passou como vento suão, duro e rude a arrasar.
Passou como folha desencantada a quem foi roubado o juízo.

E foi dor e espada e ferrete, e foi grilheta a apertar,
foi furacão violento que passou  destruidor.
Foi o Inverno e a neve, foi um Estio duro a queimar.
E foi lágrima e foi morte, Queronte ameaçador.

Passaram os sóis e as luas, passou o tempo sem parar,
restam mortalhas de sonhos e um coração a sangrar.



8 comentários:

Helena Medeiros Helena disse...

Aos amigos queridos: deixei um pequeno mimo no meu blog como agradecimento por toda a solidariedade que recebi nestes tempos tão difíceis.
Quando puderem, por favor, passem por lá!
Meu carinho a todos!
Helena

A.S. disse...

Todos os dias amanhece... todos os dias se renasce!

Flor de Jasmim disse...

Tão profundo! Arrepia tal como interpretei.

Minha querida amiga, tem uma boa semana.

Um grande beijinho no teu coração.

Jaime Portela disse...

A vida escoa-se bem depressa.
E tudo o que é vivo é candidato a ser mais um resto mortal a juntar aos outros.
Excelente poema, minha amiga, na forma e no conteúdo.
Tem uma boa semana.
Beijo.

LuísM Castanheira disse...

inquietante, perturbador, mas belo o poema.
muitos são os sois renovadores e cada dia o milagre acontece: há vida por todo o lado...
uma boa semana, mês ou anos.
p.s. aqui cheguei, por comentário seu, extenso, fundamentado e analítico.
voltarei...porquê gostei. bem-haja, poeta.

LuísM Castanheira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
LuísM Castanheira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
LuísM Castanheira disse...

como pediu, aqui deixo a indicação onde encontrei o seu "caminho"

7.outubro.2016, em "Entre Névoas",

http://profeciaeterna.blogspot.pt/?m=1

o seu comentário:
"Como podem as flores adormecer na ilha onde um poeta se deixa embalar pelas ondas de um mar de espanto e descoberta? Deixa que o sorriso floresça nessa "criança" dorida e magoada; povoa-lhe a cabeça de sonhos de golfinhos encantados, e gaivotas de asas brancas, e de hortensias a florir. De brumas a brincar de esconde-esconde com as lagoas e as nuvens. Deixa que o sorriso ilumine o rosto dessa "criança", liberta-a do medo, da dor e das lágrimas frias do desassossego.
O mar tomou o teu corpo e as ondas, de azul profundo, lavaram um sonho morto.... Será? Ou o poeta ainda chora?
Espreita por "entre as névoas", vê-lhes o encanto e a magia... Quem sabe no meio delas, bem lá no topo do vulcão adormecido, o sol não rasga, intenso e vibrante, a neblina? Quem sabe o que podem esconder as névoas....
Quem me dera, poeta, que não te sentasses no meio de dores, ou que, por um passe de mágica da minha varinha de condão, elas se transformassem em manhãs de mansidão....

Doce e misterioso, de uma nostalgia expectante lindíssima.
Beijo de luar"