segunda-feira, agosto 11, 2014

A TEMPESTADE E O PIANO...

    As notas caiam dos dedos ao piano como as bátegas de chuva lá fora naquele intenso fim de tarde. Eram chuvas de verão, o odor da terra encharcada chegava docemente às narinas fermentes e ansiosas, e o rosto oscilava entre as expressões de uma mágoa contida e um meio sorriso de boas memórias. Pela janela aberta o som da trovoada em aproximação combinava na perfeição com os acordes habilmente dedilhados nas teclas negras e brancas. A chuva ensopava a terra e lavava as dores e as tristezas, limpava o ar deixando-o com os perfumes adocicados das flores. E a composição à desfilada jorrava das mãos brancas e esguias como se a trovoada se tivesse abatido nelas e as obrigasse a compor, a saltitar de tecla em tecla, a não parar. Como se aquela música fosse o balsamo que faltava. Como se a música quisesse deixar beijos de perdão, de ternura e de mansidão nas nuvens altas e negras que entrechocavam rasgando-se em mil raios.
   O rosto da mulher ao piano encontrava espelho nas evoluções da natureza lá fora. Ora contrito como os relâmpagos que ribombavam no  ar pesado e abafado, ora leve como as gotas de chuva que pingavam do beiral. E a música, aquela doce e meiga música que embalava a alma, que punha cor nos céus, como se um pintor louco se atrevesse a dar rápidas pinceladas no negrume do crepúsculo. As lágrimas desciam suaves pelas faces já marcadas pelos anos, e molhavam as mãos imparáveis que acariciavam o piano. Nada parecia entrar ou quebrar este quadro, esta perfeita simbiose entre a musica e a tempestade, entre a dor e a natureza a purificar. A sala foi ficando mais escura, a chuva ora abrandava ora se intensificava, e a trovoada parecia não querer abandonar o local, e ao despique rivalizava em tom com as notas cristalinas arrancadas ao piano.
   Absorta nos seus pensamentos e na vida que fazia acontecer sob os dedos, a mulher oscila ao som que ela própria cria, entregue à sua dor, à sua mágoa e tristeza, vai-e deixando levar pela tempestade que a acompanha do lado de fora da janela... Agora os acordes são doces e mansos como se o temporal interior se estivesse a dissipar, a abrandar e a paz aos poucos tomasse conta daquele corpo, daquele coração e alma. Lá fora a trovoada dissipou-se, a chuva é apenas uma leve poalha odorosa. As mãos cansadas da luta que travaram, aos poucos vão-se abandonando e rendendo à calma e quase felicidade do momento. A chuva calou-se, e por entre as nuvens uma lua brilhante e redonda espreita a mulher adormecida sobre as teclas do piano, os cabelos soltos semi-escondem o rosto marcado pelos regatos que ainda escorrem dos olhos fechados...
   A tempestade de verão chegou ao fim e a noite silenciosamente tomou conta do espaço...



4 comentários:

Flor de Jasmim disse...

De uma profunda tristeza, mas de uma beleza incomparável a expressão da mulher que não pode deixar-se entregar à dor, nem se deixar dominar pela tristeza.

Boa semana minha querida.

Beijinho e uma flor

Nilson Barcelli disse...

Um magnífico momento poético.
O texto é excelente, as imagens vão-se desfilando à medida que se lê.
Beijo.

Helena Medeiros Helena disse...

Minha doce amiga: teu texto causou-me um impacto tão grande que tive de reler e me situar, tal a emoção que me acometeu. Sem a intenção, soubeste bem descrever um momento que um dia... tempos atrás... eu vivi. Ali, ao piano, enquanto a chuva chorava seus lamentos, eu também chorava um amor perdido... Fizeste-me adentrar uma fresta do tempo! De alguma forma, senti-me em paz ao término da leitura. É como se eu precisasse que alguém reabrisse na minha memória um momento que eu havia "bloqueado" e ao deixar que ele novamente se instalasse em minha emoções, ao reviver tal episódio, eu pude exorcizar um fantasma do passado que tanto me assombrava.
Para muito além do texto magnifico que escreveste, para muito além da poesia que ali soubeste imprimir, ficou-me a impressão de que a solidão, tristeza, um piano e a chuva caindo lá fora... simbolizam a perda de um grande amor!
Grata, amiga, pelo momento!
Ficam sorrisos, ficam estrelas, fica meu carinho,
Helena
(http://helena.blogs.sapo.pt)

Zélia Chamusca disse...

"A Tempestade e o Piano"

Um lindíssimo conto, um verdadeiro poema em prosa cuja leitura me encantou.

Só poderia ter brotado duma alma de tão grande sensibilidade poética.

Meus aplausos de pé!

ZCH