domingo, agosto 31, 2014

NOITE DE VENTANIA


Sopra um vento frio de outono na noite de um verão estranho,
como estranho é este vazio louco onde o silencio clama em brados.
Sopra um vento, desolado vento, bramindo num rugido tamanho
que assusta a noite, que assusta o riso e a lágrima e os mantém calados,
amarfanhados e doridos, pequenos, efémeros e desvalidos.
E sempre o vento grita em duros rugidos!

Sopra pela noite esta ventania, grita, agita-se, raivosa e louca,
contrasta com o mortal silencio da sala sem cor nem luz.
Lá fora a luta bruta e desmedida, aqui a falsa calma mortalmente oca.
Sopra a ventania nesta noite escura onde só a dor reluz.
Pode o vento traduzir um coração despedaçado?
Pode ser ele a voz de um amor amordaçado?

Sopra um vento frio de outono nesta aveludada noite de verão,
as estrelas são luzeiros longínquos no manto celeste de azul profundo,
tudo se agita sob as mãos agrestes do vento sem tréguas nem compaixão.
Aqui grita o vento mordendo este silencio duro com o peso do mundo,
com o peso da vida. Aqui estrebucha o vento em derradeira agonia,
como se a vida já tivesse sido vivida em demasia.

Sopra um vento agreste e duro nesta noite de negro e desolado verão.
Sopra um vento glaciar dentro deste coração.

4 comentários:

Flor de Jasmim disse...

Que melhores ventos possam surgir...ventos de alegria...soprem e alegrem o teu coração.

Boa semana.bom Setembro minha querida.

Beijinho e uma flor

Helena Medeiros Helena disse...

Amiga, assim que comecei a ler o teu texto veio-me a sensação de que eu poderia ter escrito algo assim, não relacionado ao aspecto poético e sensível que tua escrita possui, mas em relação aos sentimentos e emoções ali expressos. Um texto forte, de reflexões profundas, que parece ter saído do mais fundo da tua alma num momento de percepção onde a desilusão estava a ditar as regras... Como senti o teu desabafo! Tenha sido ou não apenas uma expressão poética, soubeste bem transmitir uma dor que acomete a quem vive na distância de um amor que um dia foi tão bonito...
Quando indagas "Pode o vento traduzir um coração despedaçado?
Pode ser ele a voz de um amor amordaçado?" acredito que a resposta seja sim, o vento pode traduzir todos estes sentimentos e emoções interligados na dor, principalmente na dor da perda...
Amei a tua postagem de hoje, aliás, tudo que escreves chega de forma muito bonita e profunda ao coração de quem te lê.
Parabéns por essa faculdade que tu tens de transitar no mundo da poesia com tanta facilidade.
Ficam sorrisos, ficam estrelas, fica meu carinho,
Helena
(http://helena.blogs.sapo.pt)

Zélia Chamusca disse...

"Noite de Ventania" é uma verdadeira
obra de arte poética que me prendeu do princípio ao fim e me sufocou de emoção deixando-me sem palavras que possam traduzir a minha admiração por esta invulgar e genial poeta, Paula Homem.
Meus aplausos de pé!
ZCH

Nilson Barcelli disse...

Há estados de espírito que induzem ventanias bem fortes...
Gostei do teu poema, é magnífico.
Tem um bom fim de semana, querida amiga.
Beijo.