quinta-feira, outubro 01, 2015

FAZES-ME FALTA



Olho o céu nesta manhã de Outono para um nascer do sol rubro, vigoroso e fabulosamente lindo, através das nuvens que a época vai trazendo. No horizonte, tingido de vermelhos e laranjas de amarelos e alilasados, sinto a tua presença. Espreitas-me do meio das nuvens. Desse teu novo lar onde a dor e a tristeza já não existem. Onde a paz, a luz e a segurança são a realidade do teu dia-a-dia. Onde vives um tempo já sem tempo, simplesmente porque atingiste a eternidade. Deixaste na terra o teu involucro físico, como lagarta que se metamorfoseou em borboleta, para te elevares transparente e sem peso a uma esfera silenciosa e calma. Uma esfera que eu acredito existe e para onde vão todas as almas. Para nos verem e nos sussurrarem as suas palavras inaudíveis, para não nos desempararem e velarem sempre por nós que ainda caminhamos na terra. “Sinto-te” velado pela nuvem que te esconde dos meus olhos, mas “sei” que estás do outro lado e sonho o teu sorriso, meio tímido como sempre te conheci. Sei o frio das tuas mãos que tal como as minhas, só aquecem se estamos doentes. Sei a tua presença que me dói não ter deste lado da nuvem. Fazes-me falta, papá, sabes isso não sabes? Neste capitulo eu ainda sou menina, sinto-me pequena e frágil sem o teu apoio e presença. Tenho que decidir sem ouvir a tua opinião, sem saber o que pensas, o que achas melhor. Mas “sinto-te” a olhar para mim desse teu lado, só não te consigo ouvir e no entanto sei que falas comigo. Mas sabes… as nuvens são paredes grossas, compactas, não deixam passar o som, nem a imagem. Gostava de enterrar a cabeça na nuvem só para espreitar para o teu lado e ver que estás bem. Que os teus achaques, dores que jamais disseste e dificuldades que eram visíveis mas que calavas e desvalorizavas o mais que podias, agora não te martirizam e estás de facto em paz e vives realmente na luz. Eu sei que sim, sinto que sim, mas… O ver para crer como S. Tomé não me larga…
As nuvens mudaram de cor porque o sol subiu no céu matinal e fresco deste Outono em que já não estás comigo e quase diria que vislumbrei uma fugaz imagem do teu rosto a espreitar. Sabes que eu não consigo atingir as nuvens, por isso espreitaste tu!


Um beijo deste lado da nuvem que é a barreira entre nós.

1 comentário:

Flor de Jasmim disse...

Minha querida fico sem palavras perante tamanha tristeza.

Um abraço bem forte. sente-o.

Adélia