domingo, fevereiro 26, 2017

UM MAR MAIOR QUE VIDA


Quando há um mar que é maior que a vida, e a vida é um grão de areia: perdido na bruma de um querer não querendo. Quando um navio abandona um cais de partida, sem rumo, sem leme, sem sonhos – apenas morrendo. Apenas partindo na despedida.

Quando os olhos se perdem no horizonte sem fim: acreditando que não há impossíveis, lutando contra a névoa salgada da dura verdade. Quando as mãos se abrem vazias de mim: querendo um rumo, que nunca o foi, e só  impera a saudade – áspero espadachim.

Quando, na tormenta dos dias, as noites são clarões de memórias, e o coração arde, doendo, magoando, batendo em desordem. E o corpo cede em preces laudatórias. E a vida segue – correndo, girando – e os dias passam, e os anos mordem. As lutas por paz ainda são inglórias.

Quando um mar é maior que a vida, e as ondas – noutro mar – recordam uma partida. Os olhos perdem-se em adensado azul, bravio, doloroso; A um tempo amado e saudoso. E quando um mar é maior que o mundo inteiro, morto na despedida. De nada valem nem o mar, nem as ondas, nem a vida – que sigo de fugida.

Quando um mar tiver o dom da vida: quando o céu tiver o dom do oblívio, quando o sonho tiver o poder do querer…Então o meu vestido será de névoa sentida. A minha grinalda de dourado alívio, o meu sorriso de um novo amanhecer.

Há um mar, de profundo azul, onde habita o sonho,
onde se esconde o medo, e troa o vazio.
Há um mar que leva as memórias, que na areia deponho,
são pedaços de vida que um dia ruiu.
Há um mar, de vestido verde, que me embala a alma,
que me acolhe a dor, que aceita as lágrimas, salgadas de amor.
Há um mar, de cinzentas vestes, que me embala na calma
de cada onda mansa: de cada requebro da sua própria dor.
Há um mar, eterno e profundo mar, onde se esconde o querer,
onde permanece o sonho, onde a esperança habita.
Haverá, sempre, um mar para me lembrar que viver
é também sorrir, é também sonhar; Alma que ressuscita.


lágrimas de lua

3 comentários:

LuísM Castanheira disse...

estes dois mares, antagónicos e tão iguais, são um só, nos reflexos da alma e angústias do coração.
minha amiga:
como é belo este seu poema.
há nele uma inquietação tão profunda, que trespassa o olhar e navega aos ventos agitados da memória.
só lhe posso dizer que gostei muito, além de saber que há tanta vida em todos os mares...
quero agradecer-lhe o especial comentário que deixou no m/poema "ângulo", além de noutros...
uma "visão" que muito me sensibilizar.
um beijo

LuísM Castanheira disse...

*sensibiliza.

Jaime Portela disse...

Quando leio peças literárias deste calibre, fico encantado. Porque não é todos os dias que se encontram pérolas destas.
Excelente, como é óbvio gostei imenso.
Bom domingo e boa semana, amiga do luar perdido...
Beijo.