sexta-feira, janeiro 27, 2017

ENTRE JASMINS E POESIA

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Deixei cair o véu da penumbra de uma manhã de outono,
despi-me da bruma da mágoa e soltei os cabelos de poesia.
Inalei os orvalhos e os mostos, névoas de maresia.
Misturei jasmins e rosas, canela e açafrão,
violetas inquietas: de musgos atapetei o meu chão.

Deixei pérolas salgadas suspensas em despida faia,
percorri, de pés descalços, todos os cais desta vida,
busquei respostas e sonhos: sentei-me só e dividida,
estendi braços indolores sobre terra e sobre mar,
apaguei todos os traços de uma tela por acabar.

Rasguei todos os meus pedaços: lanceio-os ao vento norte,
embarquei em nau sem rumo, naveguei em sal sem mar;
Trouxe do mar uma concha de nacarado palpitar
e enfeitei com ela os cabelos - negros de esperar -,
entrancei de novo a vida, em silencio; Devagar.

Deixei cair o véu do desencanto e o vestido do penar,
calcei sapatos de sonho, enfeitei de novo o brando olhar.
Peguei nas sobras e nas dobras enterrei-as no verbo amar.
E de novo fui com o vento, com a chuva: delicado madrigal
de esp’ranças semeadas em fecundo sonho virginal.

Assim renascem os olhos, assim florescem as mãos,
assim se bordam os sonhos em lenços de branco acenar,
e assim se constroem os ninhos dos corações a recomeçar.
Embarco em nau de desconhecido timoneiro,
entrego-lhe a vida que sobra, adenso-me no nevoeiro

e sigo sem olhar para trás. A vida por lá ficou perdida.
Oscilando em cada maré enfrento um novo ondular,
Adamastor se levanta com voz de fúria, a troar;
Os medos, as mágoas e o frio, ficaram no vazio cais;
Grita Adamastor, bem forte! Eu dobro o Cabo sem arrais!

Nada me verga, nada me quebra; Só o vento me levará
onde houver campos e flores: novos cheiros novos chãos.
Onde criarei novas raízes, onde terei de novo plenas mãos
de eterna poesia e sonho. E olhos de criança encantada
e risos de menina em flor; E a serenidade de cada madrugada.


11 comentários:

LuísM Castanheira disse...

Este é um poema com o mundo dentro, minha amiga.
E na parte final deixa uma nota de esperança na "serenidade de cada madrugada".
Um beijo e bom fim-de-semana.

Flor de Jasmim disse...

Há respostas mudas e sonhos estagnados e assim se percorre o caminho da vida!
Tão lindo minha amiga.

Beijinho imenso no teu coração.

Jaime Portela disse...

A história de uma vida resumida em poesia.
Os meus aplausos, querida amiga, este poema é soberbo.
Continuação de boa semana.
Beijo.

saudade disse...

Que belo poema querida amiga. Boa semana. Beijo de....
Saudade

Jaime Portela disse...

Passei para ver as novidades.
Mas gostei de reler este excelente poema.
Continuação de boa semana, querida amiga.
Beijo.

Jaime Portela disse...

Continuas sem publicar...
Falta de inspiração ou de tempo?
Bom fim de semana, querida amiga.
Beijo.

LuísM Castanheira disse...

A ausência sentida...

Deixo aqui um beijo e o desejo de tudo estar bem, Amiga.

Helena Medeiros Helena disse...

Cheguei e não me contentei em ler a última postagem. Fui lá no iniciozinho de Janeiro e ao ler a CARTA A UM ALGUÉM III logo pensei que não poderia prosseguir se não soubesse o teor das cartas I e II.
E assim eu vim, camuflada nas tuas palavras, colhendo os momentos de enlevo tecidos na delicadeza da tua poesia.
E então percebi, encantada, que ao dedilhares “palavras sobre o papel como se esgravatasse as teclas de um piano” a tua ‘sombra de alguém’ ficou sim, a saber o que vulcaneja no teu peito sempre que um rumor contrastante se projecta no seu caminho, como também tomou conhecimento das “golfadas de amor” que tu reprimes, na procura ansiosa neste teu chão “de argênteos espinhos”. Sim, a tua ‘sombra’ sabe, justo por ter sido tocada no escorregar dos teus dedos, quando aquele sorriso penetrou na tua alma e borboleteou o teu coração. E tu sentiste que foi aí que o dia nasceu de novo “no fusco dos pirilampos”. Mas o tempo passou, o tempo correu e tu, como não podias falar, escreveste, e talvez tenhas feito o tempo ressuscitar num novo dia, justo o dia em que dedilhaste as horas e penteaste “verdes prados” embalando “mares de cobalto” nos teus braços de satélite da vida. E continuaste a tua procura “no ténue cair do dia”, também nas palavras que embalavam melodias “nas imagens, nas luzes que acordam nas ruas, nos lares, no céu”, e quando esta ‘sombra de alguém’ desapareceu “a noite agigantou-se no tempo” e no ar ficou “um vazio de vida, um vazio de palavras, de cores, de mundo”. E quando o ano deu o seu magistral salto tu mergulhaste “as mãos sem sentir frio ou calor” na eternidade que se formou em um momento, suspenso, “num tempo sem tempo”. E a vida continuou a correr “ao sabor das horas - pelas colinas de sonho -, ao sabor do vento, a desenhar caminhos” onde tu escreves. Enquanto voam “as borboletas de uma luz desconhecida” e as gaivotas partem “em memória de um tempo passado” tu vais “jogando e misturando os baralhos das cartas” que ainda tens para jogar. E assim segues sem olhar para trás, pois nada te verga, nada te quebra, pois sabes que só o vento te levará “onde houver campos e flores: novos cheiros novos chãos”, onde criarás “novas raízes” e onde terás de novo “plenas mãos de eterna poesia e sonho. E olhos de criança encantada e risos de menina em flor”.
E a serenidade de cada madrugada te fará seguir “sem olhar para trás, a buscar “respostas e sonhos” que só irás encontrar na “penumbra de uma manhã de outono” onde misturaste “jasmins e rosas, canela e açafrão, violetas inquietas” na poesia com que atapetaste o Teu chão.
Luar, minha doce amiga: impressiona-me todas as vezes que chego aqui e deparo com um mundo onde a poesia tem morada constante. Impressiona-me, para não dizer ‘inveja-me’ (risos) o teu versejar, esta tua forma expressiva de nos tocar a alma com dedos tão delicados, tão tênues, que até pensamos que também somos feito de poesia... Da tua poesia! Esta que estou sempre a roubar para tecer um texto que, se olhado com atenção, não é meu, e sim uma extensão de tudo aquilo que escreveste...
Sou ré confessa, ou melhor dizendo: ladra confessa (risos), pois se trata de um roubo que tanto me gratifica. E olha que não é pelo aspecto do ‘proibido’, mas porque no momento em que estou a ocultar o roubo dentro da minha interpretação, eu me sinto cúmplice de uma grande poetisa: tu, minha linda amiga!

Helena Medeiros Helena disse...

Continuação...
Menina linda, voltei da viagem mais saudosa do que nunca, pois estive a (re)visitar os lugares que um dia eu e o Guy percorremos juntos, a sonhar, a tecer planos, a imaginar um futuro onde nada haveria de nos separar. Nunca eu poderia supor que a inevitabilidade do destino fosse agir de forma tão funesta na minha vida. Foi uma viagem prometida para a minha “mãe de criação”, pessoa que estava na família desde que nasci e foi quem me amparou quando da morte dos meus pais lá pelos idos dos meus 14 anos, completamente só no mundo não fosse ela a me proteger. Fiz questão de que ela conhecesse alguns lugares já conhecidos por mim, e incluso no roteiro lá estavam os países já tão conhecidos meus. Não há como sair de uma viagem como esta sem ter tido algumas recaídas motivadas pelas lembranças. Um dia eu hei sim, de lembrar sem sofrer, tenho esperança de que a saudade se fará cada vez mais suave.
Meu anjo, grata pelo carinho das tuas palavras sempre que me visitas. Apenas vou abolir as respostas aos comentários, apesar de ter adotado este método há tão pouco tempo. No entanto, não havia calculado bem o meu tempo que tem sido cada vez mais encurtado com as atividades a que me propus. Apesar de sentir um enorme prazer em papear com os amigos através daquele espaço, também me sinto pesarosa por não dispensar a devida atenção na resposta que todos merecem.
No entanto estarei sempre presente nos blogs dos amigos que tanto prezo, admiro e estimo. Assim como este teu recanto, minha linda!
Estou a colher algumas estrelas divisadas no espaço da minha janela, enfeitando-as com os sorrisos que colhi nas asas da tua poesia, para te desejar uma linda noite de belos sonhos.
Leninha

Helena Medeiros Helena disse...

Luar, tive que dividir o comentário em duas partes para que pudesse publicá-lo na íntegra. Também abusei desta vez (risos), desculpe minha linda, mas papear contigo é uma coisa muito prazerosa.

LuísM Castanheira disse...

Para as duas amigas deixo aqui um poema do F.Pessoa, musicado e na voz do Rodrigo da Costa Félix, de que muito gosto.
Com um beijo
POEMA AMIGO APRENDIZ de Fernando Pessoa.



Quero ser o teu amigo.
Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso: é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo de acertar nossas distâncias.

Publicado em :

planetaorbital.blogspot.pt/2015/08/rodrigo-costa-felix-amigo-aprendiz.html