sábado, abril 24, 2010

ANIVERSÁRIO


A neblina matinal cheira a musgo,

cheira a pinheiro e alfazema,

à tímida violeta. À caruma molhada.

Hoje a rima fugiu sem destino

mergulhou no silencio duro e doce

que envolve a memória e a dor.

Que envolve a saudade e o sorriso amargo.

Escondida entre os pinheiros sábios

está a alma, o coração, o sentimento,

está um sopro de vida.

E a neblina cheira a vida, a musgo

verde, a terra túrgida e perene.

Em conciliábulo de deuses passam as horas

mortas; Vivas de memórias e sonhos

de desejos e lágrimas.

Hoje a neblina tem um cheiro profundo,

um lágrima no rosto, um nome nos lábios

e uma dor de saudade cravada no coração...

A neblina cheira a musgo verde de saudade.

sexta-feira, março 26, 2010

MAIS UM DIA...


Um dia, outro dia, mais um dia.
Outro dia que passa na voracidade das horas
mal contadas, mal vividas, esquecidas
e longas.

Um dia, outro dia , mais um dia.
Onde as partidas se fazem sem demoras
e a nostalgia se agarra às vozes ressequidas
de desesperadas delongas.

Mais um dia, outro dia e outro dia,
nesta louca e rubra nostalgia
de ver passar somente os dias
em memórias de uma vida fugidia.

segunda-feira, março 08, 2010

IRONIA

Como a onda que intrépida se atira contra as rochas em dias de tempestade, como o vai e vem insano da força do mar.

Como as longas cabeleira de espuma e os lívidos olhos do oceano, como o desesperado escachoar do mar revolto.







Como as gotas de angelical orvalho no vidro, como as lágrimas de uma
qualquer dor de alma.

Como os sonhos desfeitos na falésia da vida e afundados nas profundas
águas encrespadas.






Como a dança louca das tresloucadas palmeiras, abanando sob a impiedosa mão do vento, como a ironia de um destino sem rumo dançando sob a mão do vendaval.

Como o abandono grisalho de uma vida às mãos duras do temporal, como o rodopiar da desconsertada melodia.





Como qualquer réstia de esperança vã caindo de um céu em turbilhão,
como os "dedos de Deus" por entre as nuvens na imensidão do espaço nu.
Como a força com que o naufrago se agarra à vida, como o sonho preso por uma qualquer teia de aranha solitária.


Assim passam os dias de irónica fantasia.

domingo, fevereiro 28, 2010

NATUREZA


A natureza recolheu-se nas profundezas

de cada ser, fechou os olhos cansados,

poisou as mãos tristes e guardou as asprezas

dos dias vãos, desiludidos e esgotados,

num rito de agonia silenciosa e fria.

O céu encobriu-se, como que por magia,

e a chuva ondulante, crepitante e pura

caiu...Caiu...Caiu...Noite e dia, noite e dia.

A natureza chora na melancolia dura

de um rosto sem tempo de cor sombria

e olhos cegos de solidão.

Onde está a tua mão?

Onde está o teu olhar, o teu rosto?

Onde estás para que a natureza viva?

quando voltas a acender o teu gosto,

a deixar que a esperança reviva?

A natureza permanece muda, calada

sem cor e sem animo. Resguardada

numa redoma de vidro fosco, encerrada

em cada ser distante e alheado.

A natureza está tolhida e amarrada

a um cais velho e amargurado.

Quando voltas para soltar amarras?

sábado, fevereiro 20, 2010

RASGANDO A ARIDEZ


Mãos abertas, mãos estendidas,

mãos indefesas e desertas

como o olhar perdido na imensidão

do mar em ondas rendidas,

em luas rasgadas e incertas.

Mãos desejosas sofrendo na solidão

do abraço que tarda, do beijo sonhado,

eternamente adiado.

Mãos que se fecham, mãos que choram

como órfãos no desconsolo da noite,

no desvario do escuro e duro vazio.

Mãos que se abrem e imploram

o toque breve, afago que se afoite

a quebrar as amarras e este frio

que se instala de manso e tudo consome;

O calor, o amor, a vida...tudo se some

nas mãos vazias, duras e frias,

somente abertas.

sábado, fevereiro 06, 2010

UMA FORMA...SOMENTE

Não ter peso, não ter limites,

não ter fronteiras nem barreiras,

ser uma forma, somente uma forma,

vogar no espaço amplo e aberto.

Esquecer o "posso?" e o "permites?"

Ser como as nuvens passageiras,

ser só uma forma, sem que a norma

seja a humana, seja este imenso deserto

em que enterro os pés doridos.

Os sentimentos calados, sofridos.

Não ter peso, não ter fronteiras,

não ser um Ser pensante e vivente,

apenas forma ao sabor do vento,

farrapos de chuvas tão ligeiras,

farrapos de um sonho ainda punjente

ecoando manso como um lamento.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

ETERNIDADE NUM MOMENTO...


A eternidade num momento,

um momento de eternidade.

Dar importância a como se vive

e não ao que se vive.

Saber guardar o triste lamento

num breve olhar de claridade,

sabendo que o que já tive

só porque quero, sobrevive.

Saber olhar a vida nos olhos

e os olhos da vida saber olhar,

perceber que apesar dos escolhos

talvez ainda valha a pena lutar.

Erguer de novo o cansaço

de inglórios passos vividos,

esquecer este oco espaço

e todos os momentos sofridos.

A eternidade num momento,

ou um momento de eternidade?

O TEMPO PERDIDO NÃO SE RECUPERA

As palavras lançadas não voltam atrás, o tempo perdido já não tem retorno e a vida esvai-se, no silêncio voraz. Fica o caminho, diluído, sem...