quinta-feira, setembro 28, 2006

CRISÁLIDA

As nuvens ameaçadoras, cinzentas e carregadas pairam no céu onde o sol já não brilha, o verão abandonou definitivamente estas paragens e a praia permanece deserta.
De pés nus e saia presa para não se molhar, imprime as pegadas na areia molhada, deixando que as ondas gélidas lhe beijem os pés de um branco nacarado. Os longos cabelos negros estão soltos ao vento como enfunada vela de veleiro destemido na tempestade, o rosto fino e de olhos profundos permanece sério e fechado, olhando bem no horizonte, onde o mar, de verde acinzentado vestido, se perde. As ondas de marés vivas correm velozes sobrepondo-se e contorcendo-se sem cessar assaltando a praia com fúria. O som alteroso do mar e o vento que se vem levantando não parecem perturbar esta figura que esbelta e esguia caminha aspirando profundamente o ar impregnado de maresia e iodo.


Um bando de gaivotas vem pousar na areia deixando as marcas finas das patas ao lado das pegadas certas da mulher. Tem a praia envolta no nevoeiro característico das tardes outonais e o espaço inteiro para si; Senhora, rainha e dona. Então o seu rosto perde o rito de dor, o olhar tem tonalidades de uma doçura infinita, abandona os sapatos e, abrindo os braços, enche os pulmões de ar deixando que o corpo aos pouco se vá soltando. Ao som de uma musica que só os seus ouvidos ouvem inicia uma dança em que põe toda a sua alma, todo o seu amor mudo que jamais dará, que jamais partilhará, o xaile que à pouco lhe envolvia os ombros arredondados é agora uma nuvem de cor nas suas mãos, habilmente o faz voltear e dançar em torno do seu corpo jovem e completamente entregue. As águas ora rugem ferozmente como que incentivando a dança louca e doce, expressiva e sentida, ora se adoçam aos requebros do corpo flexível que para elas dança, rodopia e contorce exprimindo toda a profundidade de uma alma acrisolada em si própria, tenebrosamente calada. As gaivotas agruparam-se e extasiaram-se com a figura grácil que quase esvoaça pela areia fria e húmida, os seus pés mal tocam o solo, a saia flutua ao redor do corpo que quase se tornou etéreo, rodopia na melodia da natureza que a envolve e penetra, que a assola e faz explodir em mil expressões.

Cai a noite, a maré está na vazante, e as sombras invadem rápidas o areal, o bando de aves, como que sentindo o gélido bafo da lua levantam voo e soltando os seus pios lamentosos sobre a cabeça que ainda volteia entregue e solta, afastam-se. De repente, como se algo dentro de si se tivesse partido, quebrado irremediavelmente cai desamparada sobre a areia. O rosto por terra, os braços pendentes como uma boneca sem corda, os cabelos em desalinho espalham-se em seu redor como tentáculos de um polvo pronto a devora-la. O corpo é agora um tronco sem vida, apenas os ombros acusam os soluços profundos que a sacodem, e é um rosto desvairado, marcado por uma tristeza imensa e uma dor sem limites que se eleva para o céu já de negro veludo vestido. Aqueles olhos marejados de lágrimas doridas estão sem cor, sem brilho sem vida. Acabara o seu momento de glória e evasão, agora era o regresso à vida de todos os dias, negra como o céu de trovoada. Recolhida de novo em si mesma apanhou os sapatos, envolveu-se no xaile quente e atirando um beijo ao mar, encaminhou-se para o carro.

1 comentário:

Gui disse...

Uma história bonita. O mar
e sempre tranquilizante, principalmente quando está em fúria. Um beijinho e um bom fim de semana